Serra da Mantiqueira: o Napa Valley brasileiro

O enoturismo ganha força na região da Serra da Mantiqueira, perto de São Paulo e Rio de Janeiro

Duas décadas atrás, quem dissesse que vinhos de qualidade seriam produzidos em São Paulo ou Minas Gerais despertaria suspeita de haver tomado algumas taças a mais. Com o desenvolvimento da tecnologia de campo, no entanto, a produção de uvas viníferas se espalhou pelo Brasil. Nesse cenário, a Serra da Mantiqueira e seus arredores passaram a produzir ótimos rótulos e têm visto florescer um enoturismo de respeito. Naquela região, clima rural, tradições caipiras e investimento, claro, compõem hoje um terroir único.

À paisagem impressionante dessa cadeia de montanhas, que se estende por 320 quilômetros com picos de altitude de 1.200 a 2.800 metros, agora somam-se os vinhedos sobre vales e encostas. Duas microrregiões da Mantiqueira, o Triângulo das Serras e o entorno de Espírito Santo do Pinhal, têm especial vocação para o turismo. Já produziam alimentos e bebidas de qualidade, como queijos, embutidos, azeites e cafés especiais. Também estão próximas de São Paulo e Rio de Janeiro, as duas cidades mais ricas do Brasil, e contam com boa infraestrutura para turismo — a primeira inclui Campos do Jordão; e a segunda, Poços de Caldas.

Restaurante Mina, do Botanique, perto de Campos do Jordão: demanda dos clientes por vinhos locais | Kadu Schiavo

Localizado no norte da Califórnia, a 1 hora e meia de São Francisco, Napa é a região vinícola mais importante dos Estados Unidos. Extensa, a região tem cerca de 57 quilômetros de comprimento, 16 sub-regiões e mais de 400 vinícolas instaladas. Produz vinhos que, em provas às cegas, batem os melhores europeus, e recebe mais de 4,5 milhões de enoturistas por ano. Muitos desses visitantes são moradores da rica Bay Area, onde está o Vale do Silício. São habitués que gostam de tomar in loco seus Opus One, Stag’s Leap Cask 23 ou Chateau Montelena Chardonnay, rótulos que passam dos 7.000 reais.

Uma região nos moldes de Napa Valley é o sonho da indústria vinícola de qualquer país. O Brasil já produz vinhos ótimos. Tem um enoturismo bem estruturado no Rio Grande do Sul, especialmente na Serra Gaúcha, e uma produção inovadora no Nordeste. Mas muitos consumidores ainda resistem a beber um produto nacional. Levar o enoturismo para mais perto do maior mercado do país está mudando essa percepção.

Em Espírito Santo do Pinhal, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, a Vinícola Guaspari foi uma das primeiras a lançar bons vinhos no mercado, em 2013. Parte do sucesso se deve ao solo vulcânico, ótimo para uvas viníferas. Logo seus rótulos passaram a acumular prêmios internacionais, como as duas medalhas de ouro para o Guaspari Syrah Vista do Chá 2012 no conceituado Decanter World Wine Awards, em 2016 e em 2017.

Hoje, a garrafa da safra 2016 sai por 248 reais. A arquitetura da vinícola mescla elementos da herança cafeeira com influências toscanas. Na casa de fazenda ficam a loja e o wine bar. Há tours de duas categorias, por 150 e 250 reais, com passeio guiado à vinícola e degustação. O que muda são os vinhos.

“Há umas 20 propriedades plantando uva por aqui”, diz o engenheiro-agrônomo Edsandro Rocha, sócio da Vinícola Terra Nossa, sobre a região. “Damos consultoria para a maioria. Em 2020, três delas devem começar a engarrafar.” A Terra Nossa, ela mesma uma charmosa vinícola de cinco ex-funcionários da Guaspari, começou a produzir vinhos com uvas próprias em 2017. Por enquanto, apesar de ter outras variedades, engarrafou um tinto e um rosé syrah, a uva mais adaptada ao Sudeste. Custa a partir de 80 reais.

Cada vinícola acrescenta um charme particular à visita. A Casa Verrone, em Itobi, a 1 hora de Pinhal, oferece uma prova de barrica — o turista experimenta o vinho, que ainda está descansando, direto do barril. A visita custa 110 reais e inclui passeio pelo viveiro de mudas e degustação de quatro rótulos com queijos e embutidos artesanais da região. O lançamento Colheita Especial Viogner custa 77 reais.

Vinícola Santa Maria, em São Bento do Sapucaí: degustação nos lounges até o cair da noite | Divulgação

Boas opções de hospedagem têm brotado na região junto com as uvas. Dentro da cidade de Espírito Santo do Pinhal fica a Pousada do Vinhedo, que é também sede da Parziale Vinhos e pertence a Luciano Parziale, arquiteto da Guaspari. Tem clima de casa, com apenas cinco suítes decoradas com capricho e vinhedos nos jardins. A diária sai por 390 reais, com café da manhã. O exclusivo Botanique Hotel & Spa, no Triângulo das Serras, tem outra proposta. Quando foi inaugurado, em 2012, a vitivinicultura da região engatinhava. No Mina, restaurante do hotel, o público queria rótulos estrangeiros. Hoje há o movimento contrário.

“Os visitantes pedem vinho da região. E é gente que já tomou Château Lafite, Château Petrus”, diz Fernanda Ralston Semler, sócia do Botanique. Por lá, as diárias começam em 1.610 reais e o menu degustação sai por 330 reais. No Grande Hotel Campos do Jordão há até um pequeno vinhedo. “Nossa ideia é descomplicar o consumo”, diz o gerente, Renato Bianchi. “No futuro, pensamos em produzir um vinho para consumo interno.” O hotel é um bom destino para fazer bate e volta nas vinícolas do entorno. As diárias começam em 1.235 reais.

Também no Triângulo das Serras vêm surgindo novas vinícolas. A Entre Vilas começou em 2002 com a plantação de frutas vermelhas. Em 2005, foram plantados os primeiros vinhedos. Como gosta de cozinhar, o proprietário e engenheiro-agrônomo Rodrigo Ismael montou um restaurante dentro da vinícola. Ele trabalha com menu fechado, de seis tempos, com produtos da fazenda, que custa 190 reais. Os vinhos, todos naturais, sem insumos nem conservantes, são muito disputados.

A Vinícola Ferreira está construindo um pequeno hotel de charme dentro da propriedade. Por lá, a visita custa 75 reais e inclui passeio por trilhas e degustação de vinhos naturais. Os clientes do restaurante Bruschetteria da Villa, da Vinícola Villa Santa Maria, também costumam passar a tarde no local. Começam com a visita guiada aos vinhedos e permanecem nos lounges do belo jardim até o cair da noite. Na loja, uma garrafa de Brandina 2013 sai por 375 reais. Bem perto dali está a Fazenda Portal da Luz.

A vinícola, que vai abrir para o turismo em março, com visitas por 25 reais, produz o tinto Trinca, um corte de cabernet sauvignon, malbec e petit verdot, que sai por 70 reais. Em breve deve lançar um espumante de método tradicional com as três uvas de Champagne: pinot noir, chardonnay e a pouco usada no Brasil pinot meunier. Quem sabe dentro de mais duas décadas a região não vire também uma denominação de origem controlada?

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