Revista Exame

O Brasil tech

O país pode aproveitar as incertezas globais para se reposicionar como uma alternativa mais equilibrada para o capital estrangeiro

O Brasil já mostrou que consegue criar boas empresas tech. O desafio agora é dar condições para que elas sejam campeãs regionais (Kitti Suwaneakkasit/Getty Images)

O Brasil já mostrou que consegue criar boas empresas tech. O desafio agora é dar condições para que elas sejam campeãs regionais (Kitti Suwaneakkasit/Getty Images)

Bruna Vianna
Bruna Vianna

Managing partner

Publicado em 19 de março de 2026 às 06h00.

O ano de 2026 começou diferente e por isso mesmo desafiador. A bolsa de valores brasileira experimentou valorização inédita, com sucessivos recordes positivos de desempenho motivados pelo apetite do investidor estrangeiro. O Ibovespa encostou nos 200.000 pontos, e o fluxo de dinheiro externo superou 41 bilhões de -reais na B3 — ultrapassando em dois meses, e com folga, o registrado em todo o ano passado.

Mas também não é desprezível, nem sequer trivial, um ambiente externo com alta volatilidade. A partir das ações dos Estados Unidos na Venezuela, e sobretudo no Irã mais recentemente, o preço do petróleo subiu rapidamente para patamares não vistos desde a invasão da Ucrânia pela Rússia. A volatilidade recente mostrou tanto altas quanto quedas expressivas nos valores do barril — às vezes no mesmo dia —, conforme as novas perspectivas do conflito no Oriente Médio ficavam melhores ou piores, a depender das interpretações dos discursos de Donald Trump.

Soma-se ao fator externo a eleição para presidente, marcada para o segundo semestre, que acrescenta mais incerteza ao mercado financeiro e ao cotidiano das empresas, pautada pela incerteza sobre modificações (ou não) na política fiscal.

Todo esse ambiente certamente afetará outra política, a monetária, essa sob responsabilidade do Banco Central. Até os recentes acontecimentos políticos no Irã, era certo que o Comitê de Política Monetária, o Copom, iniciaria — ainda neste primeiro semestre — um ciclo mais robusto e sequencial de cortes na taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic. Agora, os especialistas voltam-se à cautela e não mais apontam um caminho certo para as próximas decisões do colegiado. Ou seja, ainda que o preço do petróleo não fique alto tempo suficiente para provocar uma pressão inflacionária, a dinâmica global deverá atrasar a mudança dos juros por aqui.

É impossível dissociar o segmento de fusões e aquisições desse panorama global. Mas há diferenças importantes a serem observadas. Reportagem publicada nesta EXAME mostra que o Brasil registrou mais de 1.800 transações no ano passado, que movimentaram cerca de 56 bilhões de dólares. Chama atenção que o principal negócio tenha se dado no segmento de tecnologia. A venda da Odata Brasil movimentou quase 11 bilhões de reais, envolvendo um ativo de infraestrutura dedicado ao armazenamento e processamento de dados. Nesse cenário, o mercado de M&A permanece ativo, com investidores nacionais e estrangeiros demonstrando forte apetite por empresas de tecnologia, sobretudo por modelos B2B de software as a service (SaaS).

Há três fatores que ajudam a explicar o interesse recorrente de investidores por empresas de SaaS. Embora o avanço da inteligência artificial tenha reduzido barreiras tecnológicas e tornado o desenvolvimento de software mais acessível, os modelos de SaaS mission critical continuam apresentando perfis de risco mais controlados em relação a diversos outros segmentos da economia.

Isso ocorre sobretudo quando o software opera sobre camadas de dados proprietários, integra processos essenciais das empresas e gera alto nível de lock-in junto aos clientes. Nesses casos, a previsibilidade de receita, o potencial de crescimento acelerado e os ganhos de escala tornam esses ativos especialmente atrativos em operações de M&A.

Vale mencionar uma pesquisa recente realizada pela Amcham Brasil. O levantamento, conduzido com executivos em posições de C-Level, diretoria e gerência indica que as prioridades empresariais para 2026 estão fortemente ligadas à adoção de tecnologia: o uso de inteligência artificial aparece como a principal prioridade, enquanto a automatização de processos figura entre os principais focos estratégicos, ao lado do desenvolvimento de lideranças.

Os entrevistados também destacam que os avanços tecnológicos e a conectividade vêm remodelando os modelos de negócios, acelerando ganhos de produtividade e criando oportunidades de mercado. Nesse contexto, soluções de -software que sustentam processos críticos das empresas tendem a ganhar ainda mais relevância. Em outras palavras, a tecnologia permanece como uma força motriz da transformação empresarial, reforçando o interesse de investidores por plataformas de SaaS capazes de se integrar de forma profunda às operações de seus clientes.

Oportunidades para o Brasil

O Brasil pode aproveitar as incertezas globais para se reposicionar como player tech porque, diante das limitações de outros mercados emergentes, passa a ser uma alternativa mais equilibrada para o capital estrangeiro. A Rússia segue comprometida pelo ambiente de guerra e sanções, a China ainda sugere cautela em parte dos investidores ocidentais pela complexidade regulatória, pelas restrições para determinados investimentos e pela dificuldade de repatriação de recursos, enquanto a Índia, embora muito promissora, já convive em vários segmentos com valuations elevados e uma barreira cultural e operacional que nem sempre é simples para o investidor internacional.

Diante disso, o Brasil se destaca por combinar escala de mercado, ambiente empresarial mais familiar ao capital ocidental, base empreendedora sofisticada e um conjunto relevante de setores ainda pouco digitalizados, o que abre espaço para a criação e o crescimento de empresas de tecnologia com aplicações concretas e alto potencial de geração de valor.

A oportunidade, porém, só será capturada se o país conseguir transformar esse potencial em ambiente de crescimento. Isso passa por ampliar o acesso a capital, estimular mais inovação dentro das grandes empresas, reduzir entraves para expansão e criar condições para que startups e empresas de tecnologia escalem com mais velocidade.

O Brasil já mostrou que consegue criar boas empresas tech. O desafio agora é dar condições para que essas empresas cresçam, consolidem mercado e sejam vistas não apenas como casos locais de sucesso, mas como plataformas relevantes de tecnologia na América Latina.

Afinal, o cenário global de negócios tende a permanecer marcado por incertezas, com períodos que alternam maior e menor intensidade de volatilidade. Ainda assim, a demanda por retornos consistentes sobre o capital investido continua cada vez mais presente nas decisões de alocação de investidores.

Nesse contexto, empresas de tecnologia eficientes, com modelos de negócios sólidos e capacidade comprovada de geração de resultados, continuam sendo particularmente atrativas para o capital. Nossa experiência e vivência de mercado indicam que companhias tecnológicas bem posicionadas seguirão despertando o interesse de investidores, tanto nacionais quanto estrangeiros.

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