Rafael Szarf, CEO da Loggi: corte de custos para uma expansão sustentável daqui para a frente (Leandro Fonseca/Exame)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.
No entroncamento da rodovia Anhanguera com o Rodoanel da Grande São Paulo, perto de Cajamar, está um dos poucos exemplos no Brasil de startup capaz de crescer sem queimar caixa. Ali fica o principal centro de distribuição da Loggi, fundada em 2013 como aplicativo para conectar motociclistas a clientes interessados em entregas rápidas. Hoje, a companhia também conecta lojas online a transportadoras capazes de atender praticamente todo o Brasil. Seus mais de 22.000 clientes vão de grandes marketplaces a lojinhas recém-chegadas ao comércio eletrônico. Em Cajamar, mantém um galpão de 40.000 metros quadrados, o dobro do tamanho usual de um espaço para transferência de encomendas entre caminhões. Ali, robôs e funcionários podem processar até 500.000 pacotes. Em média, uma entrega segue para embarque a cada 7 segundos.
Atrás das pilhas de caixas e do vaivém de empilhadeiras, havia um desequilíbrio crônico. A Loggi virou unicórnio em 2019. Dois anos depois, depois de captar 1 bilhão de reais com fundos como SoftBank e Monashees, chegou a valer 2 bilhões de dólares. Os investidores apostavam no crescimento do comércio eletrônico após a pandemia. O otimismo escondia custos fixos nas alturas, extravios acima do aceitável e contratos com margens zeradas. Resultado: um negócio incapaz de dar lucro. Em cinco anos, a companhia queimou quase todo o capital levantado. Só com pacotes perdidos ou danificados, gastava 10 milhões de reais por mês. O descontrole obrigou a gestora CapSur, uma das acionistas, a informar ao mercado recentemente uma perda contábil de 88% sobre os 75 milhões de dólares investidos na Loggi em 2021. Cinco anos depois, a participação vale 9 milhões de dólares.
Centro de distribuição da Loggi: bônus para funcionários comprometidos com a eficiência
Nos últimos meses, um choque de gestão colocou a Loggi no lucro pela primeira vez em 13 anos. A virada começou em maio, com a chegada do CEO Rafael Szarf, engenheiro acostumado a operações complexas. Ele passou pela multinacional de cigarros British American Tobacco e ajudou a criar o Zé Delivery, aplicativo de bebidas da Ambev. Szarf encontrou uma companhia habituada a buscar mais encomendas a qualquer custo. A nova ordem foi fazer cada entrega valer a pena. Para isso, reviu contratos, cortou desperdícios e passou a acompanhar os detalhes do dia a dia. “Quando se fala em atingir o equilíbrio financeiro, não existe mágica na operação: é uma questão de saber executar com disciplina todos os dias”, diz Szarf.
A arrumação defendida pelo executivo chegou aos galpões. Uma das primeiras medidas foi a criação do painel Embrace the Red, ou “abrace o vermelho”, em tradução livre, para mostrar diariamente tudo o que saía do planejado. O controle passou a acompanhar o horário dos caminhões, o tempo de espera dos motoristas e os caminhos percorridos pelas vans. A maior economia veio do combate aos pacotes perdidos, danificados ou extraviados. Quando Szarf assumiu, esses problemas consumiam 1,3% da receita da Loggi, mais que o dobro da média das transportadoras brasileiras, entre 0,5% e 0,6%. A companhia instalou leitores de código de barras para registrar cada troca de mãos das encomendas. As equipes também passaram a responder pelo cuidado com as caixas. As perdas caíram para menos de 0,3% da receita, uma economia de quase 10 milhões de reais por mês.
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Parte desse dinheiro voltou para os funcionários. A Loggi criou a Copa Log, um campeonato entre seus galpões. Cada unidade disputa contra seus próprios resultados, medidos pela rapidez na separação dos pacotes, pelo cumprimento dos horários e pela redução dos extravios. Quem bate as metas pode receber um bônus de até 30% do salário na mesma semana. “O índice de perdas e extravios era de 1,3% da receita e caiu para menos de 0,3%. Como essa redução gerou uma economia de quase 10 milhões de reais por mês, destinamos parte desse valor para distribuir bônus semanais às equipes operacionais”, diz Szarf. A melhora chegou também aos clientes. Antes, de cada 100 encomendas, cerca de 92 chegavam no prazo. Agora, são 98, acima da média nacional do setor, de 96. Na Grande São Paulo, a pontualidade das entregas de um dia para o outro chegou a 99%.
A mudança de rota também passou por uma pergunta básica: afinal, qual é o negócio da Loggi e onde ela ganha dinheiro? A companhia passou a fazer um pouco de tudo. Além das entregas rápidas de moto, serviço original de 2013 e hoje responsável por apenas 5% do faturamento, busca encomendas nas lojas e as leva aos consumidores. Também transporta mercadorias entre cidades e estados, guarda estoques de varejistas, separa e envia pedidos. Oferece uma plataforma para pequenos comerciantes calcularem fretes e acompanharem entregas. Mantém, ainda, mais de 2.000 pontos em padarias, papelarias e outros estabelecimentos para postar, retirar ou devolver pacotes.
Toda essa estrutura custa caro. E a Loggi passou a disputar espaço com gigantes como Mercado Livre e Amazon, com muito mais dinheiro para investir em caminhões, galpões e tecnologia. Pior: essas empresas começaram a fazer as próprias entregas, reduzindo o serviço das transportadoras independentes e pressionando os fretes. Com o crescimento abaixo das expectativas e o caixa encolhendo, os investidores mudaram o discurso. “As perguntas dos acionistas mudaram de tom: deixaram de ser ‘por que não estamos crescendo e dominando o mercado?’ para se concentrar em ‘por que estamos queimando caixa e quando seremos sustentáveis?’”, diz Marcel Arins, presidente do conselho da Loggi e sócio da CapSur. “A Loggi havia esquecido que é uma empresa que precisa fazer uma operação bem-feita.”
Com as contas sob pressão, a Loggi concentrou esforços em um público em expansão no Brasil e no mundo: as pequenas e médias lojas online. O número de comerciantes virtuais cresceu 148% entre 2016 e 2025 no planeta, chegando a 31 milhões, e pode alcançar 50 milhões até 2030. No Brasil, o salto foi de 317%, para 2,5 milhões de estabelecimentos. Desses negócios, 85% têm até dez funcionários. Para a transportadora, atender esse público reduz a dependência de gigantes como Mercado Livre e Amazon, donos de boa parte dos pacotes movimentados e de poder para negociar fretes menores.
A aposta já dá resultado. Em 2025, antes da chegada de Szarf, o volume enviado por pequenos e médios lojistas cresceu 77%. Neste ano, acelerou ainda mais. Esse grupo passou a representar metade do faturamento da Loggi. Os comerciantes também querem depender menos dos marketplaces. Ao venderem diretamente ao consumidor, economizam parte das comissões cobradas pelas plataformas, conhecem melhor seus clientes e ficam com uma fatia maior de cada venda. Para isso, precisam de transportadoras independentes. “Os lojistas virtuais perceberam que não podem depender exclusivamente dos marketplaces, cujas taxas de comissão aumentam periodicamente”, diz Maurício Salvador, presidente da Abiacom, uma das principais associações do comércio eletrônico brasileiro. “Está havendo um movimento de investimento em canais próprios, exigindo contratação de transportadoras independentes para equilibrar o ecossistema.”
Entrega do Mercado Livre: marketplaces colaboraram para o país chegar a 2,5 milhões de lojistas online
Depois de arrumar os galpões e apostar nos pequenos e médios lojistas, a Loggi precisou colocar ordem também do lado de fora. A companhia depende de 250 pequenas transportadoras e cerca de 40.000 entregadores autônomos para atender, sobretudo, cidades distantes dos grandes centros no Norte, Nordeste e Sul. Funciona assim: a Loggi leva as encomendas até uma região e passa a etapa final para empresas locais. Parte desses parceiros também precisava de um ganho de eficiência. A companhia encontrou transportadoras com faturamento de até 30 milhões de reais por ano e sem controles básicos de entrada e saída de dinheiro. Para ajudar, criou aulas de gestão financeira com a ImLog, escola de formação de profissionais de logística. Mais de 120 empresários aprenderam a organizar contas, calcular o preço das entregas e lidar com regras trabalhistas. Participaram executivos da Loggi, Amazon, Mercado Livre e Shopee.
A companhia também reviu contratos e cortou intermediários que encareciam os fretes. Só no interior do Nordeste, reduziu os gastos mensais de 1,5 milhão para 500.000 reais. Parte da economia foi repassada aos parceiros mais eficientes, agora mais bem pagos por pacote. “Quando olho o balanço da Loggi por pacote, o custo diminuiu. Fiquei mais eficiente, e o microempreendedor parceiro passou a ganhar mais na última linha do DRE”, afirma Szarf. O desafio é manter as contas no azul mesmo nos períodos de menos pedidos, com caminhões e galpões ainda gerando despesas. “A logística de e-commerce exige ganho de escala e densidade de rotas. Poucos operadores atuam no setor, porque a rentabilidade depende de infraestrutura automatizada e do compartilhamento de operações entre múltiplos clientes”, diz Marcella Cunha, diretora-executiva da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL). “A demanda do comércio eletrônico não é linear ao longo do ano, o que exige um planejamento detalhado de capacidade para evitar ociosidade nos centros de distribuição e frotas.”
A pressão sobre os preços cresceu nos últimos anos com o avanço de empresas chinesas no Brasil, como a J&T Express, parceira da Cainiao no país, operadora ligada ao Alibaba. A disputa por pacotes ficou ainda mais difícil. “A entrada de empresas e marketplaces internacionais com elevado volume de capital reduziu as tarifas e forçou todo o setor brasileiro a aumentar a eficiência operacional para preservar suas margens”, diz Bruno Pati, presidente do E-Commerce Brasil, fórum de inteligência sobre o setor. “Existe uma competição acirrada na logística, onde a capilaridade de entregas e o atendimento voltado aos pequenos e médios negócios criam uma diferenciação perante a infraestrutura dos grandes marketplaces.”
Com a casa em ordem, a Loggi quer voltar a crescer. Nos últimos anos, o faturamento ficou estagnado ao redor de 1,5 bilhão de reais por ano. Hoje com 2.000 funcionários, a companhia conseguiu fazer sobrar 20% da receita depois de pagar os custos diretos dos serviços, ante a média de 15% do setor. Desde junho, opera no azul. A meta é alcançar 2,5 bilhões de reais em faturamento nos próximos dois anos e dobrar sua fatia no mercado brasileiro de entregas do comércio eletrônico, de 10% para 20%. A diferença está em quem vai pagar a expansão. Antes, a Loggi dependia de fundos de investimento. Agora, pretende usar o dinheiro gerado pelo próprio negócio. “A meta prioritária era resolver o problema financeiro. A partir do momento em que a operação passa a gerar caixa e não depende mais de investidores, a capacidade de expansão do negócio se torna mais simples”, afirma Szarf.
O desafio será crescer sem voltar aos velhos hábitos de gastar demais para entregar mais pacotes. A concorrência asiática pressiona os fretes. Diesel, pedágios e prevenção a roubos de carga também pesam na conta. No interior, a Loggi precisa reunir encomendas suficientes por viagem para evitar vans quase vazias. Tudo isso num momento de juros altos, consumidores endividados e cautela nas compras online. A Loggi já mostrou sua capacidade de colocar as contas no azul, algo raro entre startups brasileiras. Agora terá de dobrar de tamanho sem deixar o lucro pelo caminho. Resta saber se, no longo prazo, a empresa liderada por Szarf conseguirá atender à maior expectativa dos investidores: recuperar o que investiram na companhia até agora.