Colheita de algodão no Brasil: o país deve renovar recorde de produção em 2027 (ABRAPA/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.
Os produtores de algodão do Brasil têm motivos para olhar com otimismo para a safra 2026/27. O país deve alcançar uma produção de 4,2 milhões de toneladas de pluma, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), renovando o recorde da temporada anterior.
Na mesma linha, as exportações brasileiras no atual ciclo devem crescer 3% e chegar a 3,5 milhões de toneladas. E o cenário não poderia estar melhor para a produção nacional. “A oferta global de algodão está abaixo da demanda neste ano, o que provoca uma redução dos estoques mundiais”, diz Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola.
A companhia, uma das maiores produtoras de algodão do país, prevê aumentar em 12,2% sua produção na segunda safra do ciclo atual. Segundo o USDA, principal referência usada pelo mercado, a produção global da pluma deve cair 3,4% em relação à temporada anterior, e atingir 25,7 milhões de toneladas, pressionada pela redução da oferta entre alguns dos principais produtores. A demanda, por outro lado, deve crescer 2%, para 26,8 milhões de toneladas. É nesse espaço que o Brasil deve avançar.
“Quase todos os nossos concorrentes estão com alguma dificuldade neste momento. O Brasil está na contramão do mercado internacional, com aumento da área e da produção brasileira”, diz André Pessoa, CEO da Agroconsult.
A vantagem não se limita ao aumento da oferta. Desde 2024, o país passou os EUA nas exportações por duas safras consecutivas e caminha para repetir o feito pela terceira vez. Na avaliação de Francisco Queiroz, analista de grãos do Itaú BBA, o Brasil vive um momento de consolidação na produção de algodão. “A tendência é que a gente abra a vantagem em relação aos EUA nas próximas safras, mantendo esse bom nível produtivo”, diz.
O lado doméstico
Mas se o cenário global está mais favorável, o contraste aparece dentro de casa. Enquanto a demanda mundial deve crescer, o consumo brasileiro de algodão permanece praticamente estagnado há quase uma década, entre 500.000 e 700.000 toneladas por ano, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
Parte do desafio está na concorrência das fibras sintéticas, como o poliéster, e na perda de competitividade da indústria têxtil nacional. “Nós industrializamos em torno de 700.000 toneladas. Temos um compromisso de atingir pelo menos 1 milhão de toneladas industrializadas no país. É um grande desafio”, afirma Gustavo Piccoli, presidente da entidade.
E a pressão deve aumentar com a Lei no 15.502/2026, popularmente chamada de “taxa das blusinhas”, que zerou o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até 50 dólares.
Nos cálculos da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), a medida tende a ampliar a concorrência dos produtos importados. Em um cenário mais pessimista, a entidade estima queda de até 7% no consumo brasileiro de algodão em 2027.
“É um quadro difícil, e não dá para atribuir tudo a essa nova lei. Passa-se a mensagem de que vale mais a pena produzir lá fora do que aqui. É um contrassenso para um país que quer preservar e fortalecer sua indústria”, diz Fernando Pimentel, presidente da Abit. O Brasil nunca produziu tanto algodão para vestir o mundo. Dentro de casa, porém, a demanda continua sem acompanhar o ritmo das lavouras.