(Win McNamee / Equipe/Getty Images)
Repórter
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.
A inteligência artificial amplia a desinformação nas campanhas para as eleições legislativas dos Estados Unidos de 3 de novembro, fenômeno chamado de “slopaganda”. O Wesleyan Media Project, que monitora gastos eleitorais, identificou 220 anúncios feitos com IA, com custo superior a US$ 137 milhões. Quase 81% receberam financiamento de organizações ou candidatos republicanos.
Com a proximidade das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, a inteligência artificial (IA) avança nas campanhas políticas, impulsionando também a desinformação.
O fenômeno de crescimento acelerado foi batizado por pesquisadores de "slopaganda". A tática é explorada tanto por democratas quanto por republicanos, embora os aliados de Donald Trump sejam os que mais aplicam recursos nessa tecnologia para o pleito de 3 de novembro.
Como exemplo, um anúncio atinge Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado pelo estado do Michigan. Na peça, ele é retratado segurando cartas de um jogo de tabuleiro com as frases "Morte aos Estados Unidos" e "Celebre o 11 de Setembro", em referência ao ataque às Torres Gêmeas, em Nova York. Um narrador declara: "A destruição de Israel e do Ocidente não é apenas um jogo para eles", emendando que "é uma missão".
O político, que é muçulmano e filho de um egípcio, também é exibido em uma imagem familiar gerada por IA ao lado de quatro mulheres cobertas da cabeça aos pés por véus. O conteúdo foi produzido por uma organização ligada ao senador republicano pelo Texas, Ted Cruz, e exibe um aviso informando que o material foi "criado, total ou parcialmente, com o auxílio de inteligência artificial".
Contudo, pesquisadores alertam que a transparência vista neste último caso é uma raridade. A maior parte da publicidade elaborada com IA não apresenta rótulos, o que agrava a disseminação de conteúdos falsos.
O Wesleyan Media Project, que rastreia as despesas publicitárias eleitorais nos EUA, já mapeou 220 propagandas políticas feitas com inteligência artificial — número que os próprios especialistas avaliam ser, na realidade, muito maior. Desse volume, quase 81% dos anúncios contaram com financiamento de organizações ou candidatos ligados aos republicanos, contra 12% de origem democrata e o restante bancado por frentes independentes.
O projeto calcula ainda que a veiculação desses materiais já custou mais de US$ 137 milhões (R$ 753,4 milhões). Para efeito de comparação, no ano de 2024, o gasto com anúncios gerados por IA somou apenas US$ 50 mil (R$ 274 mil). De acordo com a codiretora do Wesleyan Media Project, Erika Franklin Fowler, somente 27% das propagandas trazem alguma menção ao uso da tecnologia.
Atualmente, os Estados Unidos não possuem uma regulamentação em nível federal que obrigue a inclusão desse tipo de advertência, embora alguns estados tenham limitado o uso da ferramenta nas disputas eleitorais.
O senador democrata pela Geórgia, Jon Ossoff, classificou no mês passado como "profundamente preocupante" a escalada desse tipo de conteúdo na campanha. Em entrevista à emissora C-Span, Ossoff destacou que a prática representa "um caminho perigoso rumo à destruição da verdade no debate político".
Candidato à reeleição em novembro, o senador exigiu a retirada de uma peça publicitária criada com IA — e sem rótulo de alerta — na qual é mostrado em um salão de beleza sob a acusação de "maquiar" sua prestação de contas. A autoria do anúncio é do grupo Senate Leadership Fund, que apoia candidatos republicanos ao Senado.
Entre os eleitores, a utilização da inteligência artificial sofre ampla resistência. Uma pesquisa recente encomendada pela Fundação AAPC revelou que 73% dos entrevistados consideram o uso da tecnologia "inaceitável" nesse contexto.
Apesar do volume de peças veiculadas, alguns estudiosos minimizam o peso desses anúncios no desfecho das urnas. O Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York (NYU) publicou um relatório avaliando que a 'slopaganda' é "provavelmente mais eficaz na mobilização de eleitores ou na arrecadação de fundos do que na influência na eleição de um candidato".
O documento ressalta ainda as "limitações" das propagandas em prender a atenção do público, "particularmente à medida que nos tornamos cada vez mais sobrecarregados pela confusão gerada pela IA".
Com AFP
“Slopaganda” é o nome dado por pesquisadores ao uso acelerado de inteligência artificial em campanhas políticas, inclusive para produzir conteúdos falsos. A tática aparece em peças de democratas e republicanos, mas aliados de Donald Trump são os que mais investem na tecnologia para o pleito de 3 de novembro.
O Wesleyan Media Project identificou 220 propagandas políticas produzidas com inteligência artificial, embora os especialistas do projeto avaliem que o número real seja muito maior. A veiculação desses materiais já custou mais de US$ 137 milhões, ante US$ 50 mil em 2024.
Quase 81% dos anúncios mapeados receberam financiamento de organizações ou candidatos ligados aos republicanos, segundo o Wesleyan Media Project. Outros 12% tiveram origem democrata, e o restante foi bancado por grupos independentes.
A maioria dos anúncios não informa que utilizou inteligência artificial. Segundo Erika Franklin Fowler, codiretora do Wesleyan Media Project, apenas 27% das propagandas apresentam alguma menção ao uso da tecnologia.
Os Estados Unidos não possuem uma regulamentação federal que obrigue a inclusão de alertas em anúncios eleitorais produzidos com inteligência artificial. Alguns estados, porém, já limitaram o uso da tecnologia nas disputas eleitorais.
O Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York avalia que a “slopaganda” tende a ser mais eficaz para mobilizar eleitores ou arrecadar recursos do que para determinar a eleição de um candidato. Segundo o relatório, essas peças também enfrentam limitações para prender a atenção do público.