Brasil pode receber investimento britânico, diz diplomata

Para o diplomata Vijay Rangarajan, o Brasil deve ser alvo de novos investimentos britânicos, mas tem de garantir produção sustentável e sem desmatamento
 (Eduardo Anizelli/Folhapress)
(Eduardo Anizelli/Folhapress)
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Gilson Garrett JrPublicado em 22/10/2020 às 05:32.

Com o Brexit, o Reino Unido planeja fortalecer sua política externa em temas estratégicos, como saúde e meio ambiente. Nesse novo contexto, para o diplomata britânico Vijay Rangarajan, o Brasil é fundamental, ainda mais em tempos de pandemia de covid-19. Vijay foi embaixador no Brasil nos últimos três anos e ajudou a costurar o acordo de 2 bilhões de reais com o Ministério da Saúde para a compra da vacina desenvolvida pelo laboratório AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford. O Ibovespa voltou a bater os 100 mil pontos. Saiba como aproveitar o vaivém da bolsa com a EXAME Research

Em setembro, ele voltou para Londres e assumiu uma nova função: agora é diretor-geral para as Américas do novo ministério que uniu Relações Exteriores e Desenvolvimento. Leia a seguir os principais trechos da entrevista à EXAME.

Por que o Brasil foi escolhido para participar da fase de testes da vacina de covid-19?
Apoiamos as negociações para trazer os testes clínicos da vacina de Oxford para o Brasil, além da parceria com a AstraZeneca para receber lotes da vacina assim que sua eficácia for confirmada. Esperamos, sim, que o Brasil esteja entre os primeiros países a receber a vacina. O fato de termos um ambiente de colaboração científica forte e frutífero no Brasil definitivamente fez a diferença. A perícia e a dedicação das instituições de saúde e de ciência têm sido indispensáveis para que toda essa colaboração se torne realidade.

Quais são os obstáculos que ainda existem na relação entre o Brasil e o Reino Unido e que fazem com que haja tão poucas farmacêuticas e laboratórios britânicos no país?
O Brasil tem o sétimo maior mercado farmacêutico no mundo e há expectativas de que o país salte para a quinta posição num futuro próximo. No entanto, esse tipo de conhecimento não é amplamente disseminado na indústria nos dois países. Essa é uma prioridade para a atuação comercial do Reino Unido após nossa saída da União Europeia, que cria espaço para diversificar nosso engajamento global e aumentar nossa atuação na América Latina.

O que ainda falta para o Brasil e o Reino Unido terem um acordo de bitributação mais abrangente?
O Brasil é o maior país com o qual não temos um acordo de ADT, ainda que seja o maior destino para exportações e investimentos diretos do Reino Unido na região. Esse tipo de acordo é fundamental não somente para evitar que a mesma renda seja tributada duas vezes em jurisdições diferentes mas também para garantir segurança jurídica às empresas de ambos os países e evitar perder a competitividade de produtos e serviços.

A ambição de concluir um ADT está na pauta atual entre os dois países. Acreditamos que o momento de reforma tributária no país é oportuno para definir um novo caminho para uma negociação alinhada com as melhores práticas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Como a saída do Reino Unido da União Europeia muda a relação do país com o mundo?
Nossa saída da União Europeia foi uma oportunidade importante para abrir os olhos do Reino Unido para parcerias empolgantes e aprofundadas com países como o Brasil. Nos próximos dez anos, os maiores investimentos do mundo vão estar fora da Europa. O Brasil está em uma posição privilegiada para que esses investimentos deem frutos, e é natural que nossa atuação aqui possa se expandir.

Como o Reino Unido avalia o desmatamento na Amazônia e os incêndios no Pantanal?
O Reino Unido reconhece o progresso histórico do Brasil na redução do desmatamento. No entanto, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que as taxas de desmatamento atingiram níveis elevados na série de 2019/2020, e o aumento dos incêndios no bioma Pantanal chamam muita atenção.

Estamos observando a preocupação de consumidores, negócios e investidores do Reino Unido em relação às últimas tendências. Eles querem garantir que os produtos comprados aqui sejam produzidos de maneira sustentável e livre de desmatamento.