O fantasma da bolha chinesa

Inundada por uma onda sem precedentes de liquidez, a China vê seus mercados de capitais e de imóveis inflarem perigosamente. Os desdobramentos desse novo ciclo estão no topo das preocupações internacionais

No auge da crise global, depois dos estragos feitos nos Estados Unidos e na Europa, parecia razoável supor que o vendaval financeiro chegaria também à mais dinâmica das economias mundiais - a China. Na época, o país começava a apresentar alguns sintomas de fragilidade diante da queda livre da demanda internacional. </p>

A situação ameaçava interromper bruscamente um longo e necessário ciclo de progresso chinês, uma expansão capaz de tirar da miséria milhões de pessoas dominadas por um regime de força. Mas a hora da China ainda não estava para chegar. O governo de Pequim agiu rapidamente, tratando o paciente como um moribundo já nos primeiros sintomas de baixa imunidade.

Preventivamente, injetou na economia 600 bilhões de dólares, o maior plano de emergência do mundo, proporcionalmente ao tamanho do PIB (14% no caso chinês, ante 2% nos Estados Unidos). No momento de pânico, grande parte dos analistas previa um crescimento de 6% para o PIB chinês em 2009, uma tragédia para um país que precisa crescer a taxas próximas ou maiores que dois dígitos, sob o risco de sofrer uma convulsão social.

Mas, graças em grande parte à monumental injeção de recursos do Estado, a economia chinesa avançou 8,7% no ano passado, gerando impactos positivos para vários outros países, incluindo o Brasil.

Como todo tratamento de choque, os efeitos colaterais no caso chinês não tardaram a aparecer. O pacote chinês inundou a economia com uma onda sem precedentes de liquidez. E o dinheiro seguiu seu curso natural – o mercado imobiliário e o de capitais. O comportamento do preço dos imóveis nas grandes metrópoles é o sinal mais evidente de que uma bolha pode estar se formando.

“Os preços estão atingindo valores irreais e, cedo ou tarde, essa bolha irá estourar”, diz a bilionária Zhang Xin, presidente e uma das fundadoras da Soho China, a maior construtora de Pequim. “Até lá, vamos continuar construindo e vendendo.”

SOMENTE NO ÚLTIMO ANO, os imóveis em cidades como Xangai valorizaram mais de 50% e desde 2006 os preços mais que dobraram. “O setor imobiliário da China, inundado de capital especulativo, parece uma Dubai multiplicada por 1 000, ou pior”, diz Jamens Chanos, fundador da empresa gestora de fundos de hedge Kynikos Associates, sediada em Nova York.


Chanos é um dos analistas mais empenhados em alertar o mundo sobre os riscos de estouro da bolha especulativa chinesa. Ele defende que o governo comunista vem manipulando os dados de crescimento do PIB e subestimando a ferocidade da inflação e prevê

que a ruptura da bolha chinesa deve ser inevitável até 2012. “Bolhas são melhor identificáveis por excesso de crédito disponível do que por alta de valores. E não há um lugar no planeta com mais excesso de crédito do que a China.”

Estima-se que, atualmente, o mercado chinês esteja inundado com quase 3 trilhões de dólares, resultado de medidas de estímulo do governo adotadas nos últimos anos. Em grandes projetos de infraestrutura e investimentos em outros setores-chave, o governo está gastando 600 bilhões de dólares.

Por meio de um novo programa que permite que os municípios emitam títulos de dívida pública, quase 1 trilhão de dólares a mais devem ser levantados. Para completar, de acordo com dados oficiais, foram concedidos 1,4 trilhão de dólares em empréstimos pelos bancos estatais em 2009, quase o dobro do total registrado em 2008.

O excesso de liquidez é uma das causas da alta de inflação registrada no país. O indicador de carestia voltou a dar sinais de alerta recentemente. Depois de nove meses em queda, a taxa anual do índice de preços ao consumidor registrou alta de 0,6% em novembro, 1,9% em dezembro e 1,5% em janeiro.


A situação obrigou o governo de Pequim a realizar alguns ajustes na economia para combater as ondas de valorização de ativos. Em janeiro, o banco central chinês elevou de 15,5% para 16% o depósito compulsório dos bancos para limitar os empréstimos e restringir a inflação.

No setor imobiliário, foram criadas sobretaxas para o capital especulativo: impostos mais altos para a compra do segundo imóvel e para a venda em menos de dois anos após a compra. Regras recentes estipulam que os novos imóveis sirvam para moradia, e não para especulação, limitando o tamanho das unidades e obrigando empresas de construção civil a erguer casas populares.

Num artigo publicado recentemente no jornal The New York Times, o jornalista americano Thomas Friedman elogiou a intervenção do Estado e criticou os analistas mais pessimistas. “Antes de mais nada, é bom lembrar de uma regra simples em investimentos que tem me servido bem até agora: nunca aposte contra um país que detém 2 trilhões de dólares em reservas estrangeiras”, escreveu ele.

Além dos recursos para enfrentar situações de aperto, a China conta com mais um componente que não se pode ignorar, principalmente depois de o país ter demonstrado seu poder de recuperação durante o ano de 2009: as rédeas curtas de um governo ditatorial e centralizador.

“Os investidores têm razão de estar preocupados com a velocidade da escalada dos preços no setor imobiliário e com a recente alta nas bolsas de valores”, disse a EXAME Alessandro Magnoli Bocchi, economista-chefe do KCIC, banco de investimento sediado no Kuwait, ex-executivo do Banco Mundial e especialista em Ásia. “No entanto, me parece que boa parte do pessimismo de quem aposta em uma bolha de ativos prestes a estourar ignora o fato de que o governo chinês é muito rápido e eficiente na hora de agir em defesa do crescimento econômico.”

NOS ÚLTIMOS ANOS, a porcentagem de calote de parcelas de empréstimos vem diminuindo nas estatísticas dos bancos estatais, apesar de especialistas afirmarem que durante a farra do crédito houve grande exposição ao risco.

Essa mão forte do Estado é também o principal fator que torna imprecisas as recorrentes comparações entre as bolhas da China e as americanas ou europeias dos anos 2000, ou com as do Japão da década de 90.

“De fato, há investidores comprando dez apartamentos ou escritórios que não têm a intenção de ocupar em prédios comerciais em Pudong, mas o aumento da renda das famílias na China, que vem motivando a mudança para residências de melhor padrão, é algo sustentável”, diz Andy Rothman, especialista em mercado chinês da corretora CLSA. A virtual bolha chinesa é, como se pode depurar da conversa dos analistas, um enigma – como tantos outros que o país guarda em seu seio.

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