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Educação em modo protótipo: como projetos reais estão mudando as salas de aula

Enquanto ninguém sabe ao certo quais profissões vão existir daqui a dez anos, escolas de ensino médio pelo Brasil apostam em tirar o aluno da teoria — e formar quem já chega pronto para o que ainda nem tem nome

Heitor Santos Garcia, de 18 anos: aos 12, ele começou a desenvolver um robô para auxiliar bombeiros em incêndios urbanos (Paulo Santos/Colégio Dante Alighieri/Divulgação)

Heitor Santos Garcia, de 18 anos: aos 12, ele começou a desenvolver um robô para auxiliar bombeiros em incêndios urbanos (Paulo Santos/Colégio Dante Alighieri/Divulgação)

Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h00.

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Em 2021, Heitor Santos Garcia tinha 12 anos quando viu a fumaça tomar o corredor do prédio onde morava, em São Paulo. A cena deixou uma pergunta: por que os bombeiros precisaram entrar em um lugar em chamas para descobrir se havia alguém ali?

A dúvida virou um projeto no Colégio Dante Alighieri. Durante cinco anos, Garcia construiu um robô de seis pernas, inspirado em uma formiga, para entrar nos primeiros minutos de um incêndio. O protótipo tinha sensores de temperatura e uma estrutura de fibra de carbono revestida com lã de rocha. Em 2025, ficou em quarto lugar na categoria de engenharia da Mostratec, a maior feira de ciência e tecnologia da América Latina.

O teste com o Corpo de Bombeiros, porém, não aconteceu. Garcia terminou a escola, começou a se preparar para a universidade no Canadá, e o robô ficou em pausa. Mas resolveu uma questão talvez mais importante: mostrou o que acontece quando uma pergunta deixa de ser apenas uma pergunta de sala de aula e ganha um problema real para enfrentar.

“É muito importante que o conteúdo da escola tenha conexão com o mundo real”, diz Wayner Klën, orientador do projeto e doutorando em física pelo ITA.

Para especialistas ouvidos pela EXAME, há uma diferença entre aprender sobre uma prótese e tentar construir uma; entre estudar engenharia e passar meses tentando fazer um carro correr; entre saber uma fórmula e descobrir, com as próprias mãos, que ela não funciona naquele projeto. É nesse espaço, entre o conteúdo e aquilo que se pode fazer com ele, que algumas escolas estão testando outras maneiras de ensinar.

Uma luva que só serve em uma mão

No Avenues São Paulo, por exemplo, um projeto de animatrônicos começa com uma pergunta sobre o corpo. Os alunos precisam escolher um ser vivo, identificar uma função que foi perdida e pensar em como recuperá-la. Depois vêm anatomia, biologia, artes, programação e tecnologia. O trabalho dura oito semanas e envolve todos os alunos do oitavo ano. Antes de levá-lo para a sala, os professores fazem o projeto entre si. Testam os materiais, erram, ajustam a proposta e calculam o que é possível para aquela idade. “A gente executa o projeto antes para entender o que é possível com os materiais e como adaptar o conteúdo para essa faixa etária”, diz Diego Dolph Johnson, designer e educador da escola.

A experiência ganhou outro significado depois que os professores conheceram um estudante que havia passado por mais de 30 cirurgias e usado órteses durante a infância. A discussão deixou de ser apenas sobre construir uma máquina que funcionasse. Entraram em cena conforto, autonomia e uma questão importante: para quem aquela solução serviria?

Um dos alunos era Arturo Augusto, do nono ano. Seu grupo construiu uma luva robótica que só servia em sua própria mão. Eram cinco estudantes para dez mãos disponíveis como campo de teste. Augusto também tinha acompanhado o uso de órteses pelo irmão, que tinha uma deficiência na perna. “Enxergar isso de um ângulo técnico fez tudo ganhar outra dimensão”, diz.  No começo, a programação parecia uma língua estrangeira. Augusto brincava que era como ter “um guaxinim digitando num computador”. Depois, aprendeu a programar a luva.

O projeto acabou estudado por pesquisadores da Illinois State University e apresentado em conferências. Outras instituições passaram a reproduzir a experiência. Alguns alunos continuaram o trabalho e chegaram a desenvolver soluções para pacientes reais.

Para Johnson, a parte mais importante está justamente na mistura. O aluno aprende o conteúdo, mas precisa decidir o que fazer com ele. Também aprende a trabalhar em grupo, lidar com diferenças e perceber que uma solução tecnicamente boa pode não ser uma boa solução para quem vai usá-la.

Na FourC Bilingual Academy, em Bauru, o problema ganhou rodas. Os estudantes que participam do STEM Racing — competição apoiada pela Fórmula 1 e conhecida anteriormente como F1 in Schools — passam quase um ano trabalhando como uma pequena equipe de automobilismo. Projetam e constroem um carro movido a CO₂, mas isso é apenas parte do trabalho. Também precisam cuidar de engenharia, design, marketing, finanças, apresentação e negócios.

Em 2025, a equipe da escola viajou a Singapura para disputar a etapa mundial. Ficou em 27o lugar entre 83 times de 26 países, o melhor resultado da FourC desde que entrou na competição, em 2014. Foi também a terceira melhor equipe brasileira. “É um treinamento real para o mercado”, diz Francisco Ferreira, que orienta os alunos.

O projeto começa dentro da escola, mas não fica confinado a ela. Os estudantes precisam cumprir prazos, lidar com fornecedores, dividir responsabilidades e resolver problemas que não aparecem no livro didático. Nas semanas finais, alguns chegam a dedicar oito horas por dia à equipe.

Manuela Rorato, de 18 anos, cuidava do marketing. Quando entrou no projeto, pensava em estudar relações internacionais. Ao longo da experiência, descobriu interesse por comunicação, eventos, redes sociais e marketing esportivo. O automobilismo acabou entrando no plano. “Foi meu primeiro contato com o mercado de trabalho. Aprendi errando, acertando e descobrindo o que quero para a minha vida”, diz.

Há algo de curioso nessas histórias: em nenhuma delas o professor desaparece. Pelo contrário. É ele quem desenha o problema, limita o caminho, faz perguntas e sabe a hora de deixar o aluno se virar.

Helena de Salles Aguiar, diretora de Planejamento e Integração, e Emerson Bento Pereira, diretor de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes: a escola mantém um manual interno para orientar o uso ético de IA (Colégio Bandeirantes/Divulgação)

Os limites da tecnologia em sala

O papel da escola também não desaparece quando entra a tecnologia. No Colégio Bandeirantes, em São Paulo, os celulares recreativos são proibidos durante as aulas, mas ferramentas digitais podem entrar quando há uma finalidade pedagógica. Professores de biologia, por exemplo, usam inteligência artificial para criar flashcards e mapas mentais a partir do conteúdo trabalhado com os alunos.

A escola também mantém um manual interno para orientar o uso ético da IA. É uma combinação que diz muito sobre o momento atual da educação. A tecnologia entrou na escola. A questão deixou de ser simplesmente permitir ou proibir. Passou a ser decidir onde ela ajuda, onde atrapalha e, principalmente, o que ainda precisa ser feito sem ela.

O desafio é maior porque a escola não está lidando apenas com novas ferramentas. Está lidando com uma geração que chega à sala de aula com acesso a elas antes mesmo de saber exatamente o que fazer com o conhecimento que recebe.

Enquanto isso, o ensino médio atravessa uma de suas fases mais difíceis. Segundo o Censo Escolar 2025, o número de matrículas caiu de 7,8 milhões em 2024 para 7,3 milhões no ano seguinte. Foram 419.000 alunos a menos, uma redução de 5,4% — a maior queda entre todas as etapas da educação básica.

Os projetos desenvolvidos por Dante, Avenues, FourC e Bandeirantes não explicam essa queda, tampouco formam uma receita para enfrentá-la. São experiências de escolas diferentes, com recursos e propostas diferentes. Mas apontam para uma mudança na pergunta.

Durante muito tempo, a discussão sobre educação tecnológica girou em torno de quais ferramentas colocar na escola. Computadores, tablets, laboratórios, plataformas, inteligência artificial. A pergunta mais difícil talvez seja outra: o que fazer com tudo isso depois que entra na sala de aula?

Um robô pode derreter. Uma luva pode não funcionar. Um carro pode terminar em 27o lugar. Um projeto pode ser interrompido antes do teste final. Ainda assim, o aluno sai diferente. Garcia, que começou tudo perguntando por que um bombeiro precisava entrar em um incêndio, foi aprovado para estudar Engineering Science na University of Toronto. O robô não chegou ao fim. A pergunta, sim.

Talvez seja essa a graça de uma escola em modo protótipo: ela não precisa ter todas as respostas antes de começar. Precisa criar espaço para que os alunos aprendam a procurá-las.

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