Revista Exame

Antártica sem filtros: propósito e natureza selvagem a bordo da Swan Hellenic

Belezas indescritíveis, animais exóticos e muito gelo – mas com todo o conforto. Isso é o que aguarda os viajantes nesta jornada ao continente antártico

Paisagem do continente antártico: roteiros pelas ilhas e estreitos pelo extremo do Hemisfério Sul em roteiros de cruzeiros de nove a 12 dias de duração (Martín Bianco/Divulgação)

Paisagem do continente antártico: roteiros pelas ilhas e estreitos pelo extremo do Hemisfério Sul em roteiros de cruzeiros de nove a 12 dias de duração (Martín Bianco/Divulgação)

Carlos Eduardo Barretti
Carlos Eduardo Barretti

Jonalista colaborador

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Se você já esteve em um daqueles enormes navios que todos os anos fazem viagens curtas pelo nosso litoral e para a Argentina, esqueça tudo o que conhece sobre cruzeiros marítimos. A Swan Hellenic promete e entrega uma experiência completamente diferente.

Nada de estresse para embarcar e desembarcar, filas para o café da manhã, música alta ao redor da piscina, salões lotados, obrigação de levar vestidos de festa, costume ou blazer para os jantares especiais nem mesas previamente selecionadas, onde você é obrigado a se sentar com pessoas que não conhece ou talvez nem queira conhecer...

Pioneira em viagens culturais desde os anos 1950, a Swan Hellenic voltou ao mercado em 2020 com uma proposta de cruzeiros de luxo focados na exploração e na descoberta de lugares exóticos e, muitas vezes, inacessíveis.

Seus itinerários percorrem destinos remotos e culturalmente ricos, sempre com foco em experiências autênticas e em contato real com a natureza e, quando possível, com as comunidades locais.

Design escandinavo e alma de exploração

A frota pequena é composta de três navios de classe polar com alto luxo e design escandinavo. São eles o SH Minerva (2021) e SH Vega (2022), ambos para 152 hóspedes em cabines — em sua maioria suítes com varanda —, e o SH Diana (2023), o maior, com capacidade para 198 passageiros. Todos oferecem amplos espaços ao ar livre, estrutura completa de expedição e uma equipe especializada em biomas marinhos.

Com sede em Chipre e escritórios ao redor do mundo, a Swan Hellenic tem como filosofia “ver o que os outros não veem” — uma forma singular de falar de viagens com profundidade, conforto e propósito.

Os cruzeiros para a Antártica vão dos menores, como os de nove dias de duração, passando por opções de 11 ou 12 dias, até os mais longos, com 18 dias de passeio. O cruzeiro em que viajei teve início no dia 15 de novembro de 2025, saindo de Buenos Aires, e terminou em 2 de dezembro em Ushuaia. O navio levava a bordo apenas 117 passageiros, sendo a maioria deles formada por americanos e chineses.

Eu era o único brasileiro.

A vida a bordo: de nomes próprios a sabores indianos

A atenção de todos os funcionários se destaca logo de início. Como somos poucos, a tripulação nos chama pelo nome e atende imediatamente qualquer solicitação, por menor ou mais exótica que seja. Aqui deixo meus agradecimentos especiais ao senhor Cyrus, das Filipinas, responsável pela limpeza e arrumação da minha cabine.

Durante um dos primeiros dias de navegação, conversei com Mariam Pousa, a chefe da equipe das excursões do SH Minerva. Ao contrário do que eu imaginava inicialmente, os navios da Swan Hellenic não fazem somente viagens para o Ártico e a Antártica. A empresa também oferece opções de cruzeiros pelo Amazonas, Chile, Peru, Panamá, Mar Mediterrâneo e até Japão. Para 2027, está nos planos fazer a navegação completa do continente antártico.

No Brasil, a temporada de cruzeiros para a Antártica tem início em novembro e vai até o final de março. Dentro dos navios, quase tudo é incluído no preço da passagem, como passeios em terra e de barco, comida, sucos, refrigerantes e bebidas alcoólicas.

As exceções ficam para alguns rótulos mais caros de vinhos e destilados e para passeios especiais, feitos sob medida para os passageiros que tenham interesse em algum tema específico ou desejem fazer um passeio mais exclusivo sem a presença de outros. Alguns passeios especiais em grupo também são cobrados à parte.

A comida a bordo é uma experiência à parte, principalmente no jantar. Os pratos preparados pelo chef indiano Eddy Barretto e sua equipe eram sempre uma surpresa agradável e diferente a cada noite.

Em um dos dias da viagem, decidi fazer uma massagem no spa do navio, serviço também cobrado à parte. Experiência bastante agradável e relaxante, que eu recomendo. Quem me atendeu foi a senhorita Kadek, mas o senhor Jun também oferece esse serviço a bordo. Ambos são filipinos, como a maioria da tripulação.

Café da manhã a bordo: sistema all inclusive, com exceção de alguns rótulos de vinhos mais caros (Martín Bianco/Divulgação)

Ilhas Malvinas e o peso da história

Nossa primeira parada foi nas Falklands, ou Ilhas Malvinas. Esse foi o trecho mais comum da viagem, por assim dizer. Afinal, trata-se de ilhas habitadas e com muito menos vida animal do que outros pontos que conheceríamos. Foi muito interessante conhecer o palco da guerra ocorrida nos anos 1980 entre Argentina e Inglaterra.

A Ilha Geógia do Sul foi nosso segundo ponto. Ao desembarcar na praia em um bote de borracha Zodiac, já fui surpreendido pela presença de muitos lobos-marinhos-antárticos e pinguins-rei. Mas foi ao subir um pequeno morro que realmente me surpreendi ao avistar milhares de pinguins, tranquilamente espalhados por um grande terreno. Só depois fiquei sabendo que a Ilha Geórgia do Sul abriga uma das maiores colônias da espécie do mundo.

No dia seguinte, estivemos na Grytviken Whaling Station, ainda na mesma ilha. Essa era a antiga capital baleeira da Geórgia do Sul e é considerada um dos lugares mais emblemáticos da história do Atlântico Sul. O nome Grytviken significa “Baía do Vaso”, na tradução do sueco, e foi dado por uma expedição científica em 1902, que encontrou antigas panelas usadas para derreter gordura de focas.

Fundada em 1904 pelo capitão norueguês Carl Anton Larsen, tornou-se a primeira base permanente de caça de baleias na região e operou até 1965. Por lá, chegaram a ser abatidas 25 baleias por dia. A prática hoje é proibida e o local atualmente é uma cidade fantasma cheia de histórias. Sem dúvida, foi um dos destinos mais fascinantes da viagem. O lugar abriga também uma igreja e o Museu da Geórgia do Sul, instalado na antiga casa do gerente da estação, com objetos, fotografias, embarcações e relatos da vida na época.

Nem tudo foram flores. Na saída do pequeno cemitério em Grytviken, onde o explorador Sir Ernest Shackleton, que morreu na ilha em 1922, está enterrado, levei um tombo feio e machuquei bastante meu tornozelo. Milagros Delgado, a médica de bordo, me examinou prontamente e, para meu alívio, não constatou nenhuma fratura. Fui extremamente bem atendido por ela e por sua enfermeira Jill Bermudes, que me deram remédio para dor, pomada para passar no tornozelo e me indicaram repouso e muito gelo.

Para minha sorte, depois do incidente tive três dias de navegação para repousar e melhorei muito para a próxima aventura em terra.

Interior do navio: o propósito da Swan Hellenic é oferecer viagens de aventura com profundidade e conforto (Martín Bianco/Divulgação)

Como eu estava no navio para escrever esta reportagem, o senhor Maurício dos Santos, diretor de hotelaria e português da Ilha da Madeira, fez questão de me mostrar as áreas destinadas somente à tripulação. Assim, conheci a cozinha, a sala de controle das máquinas e até a sala de recreação da tripulação.

O silêncio do continente branco

Chegamos depois à Ilha King George, onde pudemos ver mais pinguins e elefantes-marinhos. De lá, seguimos para a Península Antártica, na belíssima Baía de Portal Point, na Península de Reclus. É impossível transmitir por imagens gravadas ou fotos, por melhor que seja a câmera, a beleza do lugar. Sem falar na sensação de paz e isolamento, quebrada somente pelo som distante dos motores dos barcos Zodiac trazendo e levando os passageiros para a terra e de volta para o navio.

No meu último dia na Antártica, antes de seguirmos para o Estreito de Drake e depois para Ushuaia, na Argentina, já distante da terra e com os motores a todo vapor, ouvi pelo alto-falante a informação de que algumas baleias jubarte haviam sido avistadas.

Peguei o binóculo que o pessoal do navio nos emprestou logo no início da viagem e corri para a popa, sem nem mesmo levar meu casaco. Cheguei lá a tempo de ver três ou quatro baleias ao longe, subindo à superfície e descendo ao fundo seguidamente. Ao mergulharem, suas enormes e belas caudas pareciam me dar um adeus desse belíssimo e quase intocado continente no fim do mundo.

Fiquei lá, completamente emocionado, congelando os ossos até perdê-las de vista.

Carlos Eduardo Barretti, do Ushuaia

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