Como a capital do Texas virou polo tecnológico

Austin deixou de ser apenas a capital política do Texas, nos Estados Unidos, e se transformou num polo de tecnologia e geração de empregos
Austin, no texas: fluxo de 19 milhões de turistas por ano (Getty Images)
Austin, no texas: fluxo de 19 milhões de turistas por ano (Getty Images)
L
Lucas Rossi

Publicado em 06/05/2015 às 11:08.

Última atualização em 06/11/2018 às 17:09.

São Paulo - Austin, até duas décadas atrás, era apenas a capital política do Texas, estado americano cujas associações mais óbvias — e pertinentes — são com o petróleo, a música country, os caubóis e, é claro, o conservadorismo.

Afinal, o Texas é a terra da republicana família Bush, que governou o país 12 anos. Austin, porém, com seus 850 000 habitantes, foge a todos esses estereótipos. E a economia local agradece.

Enquanto Houston e Dallas, as duas maiores cidades do estado, sempre prosperaram com o dinheiro do petróleo, Austin se desenvolvia a passos lentos com uma economia baseada no funcionalismo público e nas atividades da Universidade do Texas, que tem lá seu principal campus.

Mas, desde a década de 90, ela se transformou, entre outras coisas, na cidade mais tecnológica do mundo, de acordo com um ranking da consultoria inglesa Savills, lançado no começo de abril. Não à toa, Austin vem sendo chamada de Sillicon Hill’s — Colina de Silício —, numa alusão ao Vale do Silício, na Califórnia, região onde nasceram gigantes de tecnologia, como Apple e Google.

De 2004 a 2014, o número de postos de trabalho relacionados à tecnologia cresceu 74% em Austin, segundo o Departamento de Comércio americano, ante 31% no resto do país. A cidade foi também a campeã nacional em geração de empregos no ano passado. Mas o que está por trás dessa mudança no perfil de Austin?

Diferentemente de lugares como Barcelona, na Espanha, que se reinventou na década de 90 com uma ação estruturada do governo, os passos que mudaram a trajetória de Austin não foram orquestrados. Ou seja, não houve uma campanha publicitária para promover a cidade ou algo do gênero. Foram os eventos que a capital texana promove os maiores responsáveis pela sua transformação.

“Quando bem-sucedidos, eventos são uma das melhores vitrines para uma cidade, e Austin comprova isso”, afirma José Torres, presidente da espanhola Bloom Consulting, uma importante consultoria de marketing de cidades do mundo. Austin recebe 19 milhões de turistas por ano, um terço do que recebe a cidade de Nova York.

Entre outros eventos, a cidade abriga o Austin City Limits, renomado festival de música, e desde 2012 entrou no circuito oficial da Fórmula 1. De longe, porém, o que mais ajudou Austin a se articular globalmente foi o South­ by Southwest — conhecido pela sigla SXSW. Ele foi criado em 1987 por um jornal local para lançar bandas de rock promissoras. Na versão atual, mais de 2 000 shows são apresentados em seis dias.

Desde 2000, o SXSW ganhou corpo com o lançamento do SXSW Interative: dez dias com mais de 1 200 palestras sobre tecnologia e criatividade que só neste ano atraíram 35 000 pessoas de 85 nacionalidades. Para dimensionar a relevância do encontro vale dizer que as redes sociais Twitter e Foursquare, baseadas em geolocalização, ganharam notoriedade após terem sido apresentadas lá.

É claro que o ambiente da cidade contribuiu para o sucesso do SXSW. A Universidade do Texas está entre as 20 melhores do país e isso atrai um contingente de estudantes talentosos que vêm para Austin não só à caça de um diploma mas também de um emprego ou da oportunidade de abrir um negócio.

Austin abriga a sede da fabricante de computadores Dell e um centro de pesquisa da IBM. Além disso, graças a isenções fiscais, muitas empresas de tecnologia, entre elas Facebook e eBay, têm hoje operações na cidade, o que também fomenta o nascimento de startups.

Mas, sem dúvida, o que também colaborou para Austin ter se tornado uma coqueluche é o fato de que ela tem uma aura de cidade excêntrica. E o maior exemplo disso é seu slogan, que os moradores propagandeiam em camisetas, adesivos e outdoors: Keep Austin Weird (algo como “Mantenha Austin estranha”).

Há dois anos, quando Leslie Cochran, um mendigo que costumava andar vestido de líder de torcida pela cidade, morreu, o prefeito instituiu, com o apoio da população, o dia 8 de março como o Dia do Leslie, por ele ter ajudado a manter a estranheza local. Os moradores também são famosos por ser aguerridos defensores do pequeno comércio local e de políticos democratas.

“Os habitantes, propositadamente, gostam de se opor ao normal, e isso fez com que a cidade criasse uma imagem única que a beneficia muito”, diz Joshua Long, professor de sustentabilidade na Universi­dade de Southwestern, no Texas, e autor de um livro sobre como Austin perpetua esse estilo de vida diferente.

Os números não negam o raciocínio do estudioso. De 2008 a 2013, a economia da cidade cresceu 25%, enquanto a dos Estados Unidos, apenas 6%. Nunca valeu tanto a pena para uma cidade não ser considerada normal.