O boom dos servidores

Depois de um 2009 desastroso, o mercado mundial volta a crescer com força - graças a uma onda de inovações que permitem fazer mais com menos

O setor de tecnologia da informação tradicionalmente cresce duas vezes mais do que o produto interno bruto de um país. A expectativa de crescimento do PIB brasileiro é superior a 5% para este ano e, diante do acesso ao crédito facilitado, as empresas do setor de tecnologia comemoram a projeção de aumento de pelo menos 10% nas vendas de alguns equipamentos e serviços.

O destaque são os servidores, já que a infraestrutura é fundamental para que as empresas possam processar um número cada vez maior de informações produzidas. “Percebemos que as empresas voltaram a investir com força em servidores”, diz Alexandre Vargas, analista de hardware do IDC. A retomada dos pedidos de compra começou no final de 2009, depois de a crise econômica ter atingido o ápice no segundo e no terceiro trimestres.

As taxas de substituição de máquinas no mundo passaram de 10% nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2008 para um decréscimo de 20% no mesmo período de 2009. Para este ano, a previsão de crescimento é de 14% no Brasil, ante uma queda de 11% em 2009. “É uma retomada muito rápida, dado que 2008 foi o melhor ano da história para o mercado de servidores”, diz Vargas.

Entre as grandes empresas, o que mais motiva a compra de servidores são os ajustes pós-fusões e o investimento em data centers. O grupo Asamar – dono de empresas como a Alesat Combustíveis, a Brasil Bioenergia e o Hotel Fasano, no Rio de Janeiro – fatura 9 bilhões de dólares por ano em negócios com petróleo, biodiesel, aço e produtos minerais.

Em julho, vai inaugurar mais uma empresa, a Ativas Data Center, que oferecerá serviços de armazenamento e processamento de dados às companhias do grupo e ao mercado em geral. Depois dos 100 milhões de reais usados na unidade de 11 000 metros quadrados em Belo Horizonte, a meta é investir mais 42 milhões em servidores nos próximos cinco anos. “As questões tecnológicas estão ficando cada vez mais críticas, e nós vamos assumir essas responsabilidades por empresas que só querem se dedicar a suas atividades centrais”, diz Alexandre Siffert, presidente da Ativas.


O grupo UOL também acaba de inaugurar em São Paulo seu novo data center, com 6 000 metros quadrados, assim como a Locaweb, que fechou contrato recentemente com a HP. É um reflexo de que os projetos que haviam sido congelados durante a crise econômica mundial estão saindo do papel. “Apesar de nossa crise ter sido mais branda, estamos vendo uma descarga de investimentos em tecnologia neste ano”, diz Denoel Eller, diretor da unidade de servidores da HP. A consultoria IDC calcula que 80% das máquinas no país têm pelo menos quatro anos de uso. Boa parte delas terá de ser substituída.

O grupo sucroalcooleiro Cosan, dono de marcas como Esso e do açúcar Da Barra, investiu 4,5 milhões de reais no segundo semestre do ano passado para ajustar seu data center depois da compra da Nova América, fabricante do açúcar União. A empresa buscava mais eficiência energética, sistemas elétricos mais seguros e melhor desempenho das máquinas. “Melhoramos em 45% o tempo de processamento de nossos servidores”, diz Francis Queen, diretor de tecnologia da informação da Cosan.

A nova geração de servidores, que ocupam menos espaço e consomem menos energia, é um dos grandes motivadores do novo boom no setor. Se muitas máquinas forem substituídas, o retorno do investimento acontecerá de três a seis meses. “O gasto energético pode ser de 30% a 70% menor do que o das máquinas de cerca de dois anos atrás”, diz Sérgio Saad, diretor de hardware da IBM Brasil.

A melhoria na performance dos novos equipamentos também é formidável. Um servidor novo tem o desempenho equivalente ao de 15 máquinas de ponta fabricadas cinco anos atrás. Os processadores de um núcleo deram lugar a equipamentos com oito e 12 núcleos, como os lançados recentemente pela Intel e pela AMD, o que representa ganhos tanto na velocidade de operação quanto no consumo de eletricidade. Há também ganhos expressivos em licenças de software (elas são proporcionais ao número de servidores usados) e na manutenção e no gerenciamento dos data centers.


O ano passado foi devastador para o mercado de servidores: a retração foi de 18% em relação a 2008. Por causa da enorme queda, já era esperada uma recuperação nas vendas, mas as estimativas estão sendo revistas para cima. A virada começou a se desenhar quando foi registrado crescimento de 4% do setor no último trimestre de 2009, o primeiro com aumento nas vendas ano sobre ano desde o último trimestre de 2008. Agora, há quem projete um crescimento nas vendas de quase 15% para este ano, o que garantiria o retorno aos patamares de 2008 em apenas um ano.

Além das inovações do lado tecnológico, a onda da terceirização das informações corporativas (movimento batizado de cloud computing, ou computação na nuvem) também está impulsionando a renovação e a construção de novos data centers – no Brasil e no mundo. Como as informações viajam à velocidade da luz, tanto faz se as máquinas estão na mesma cidade ou do outro lado do planeta. “Muitas empresas brasileiras já optam por contratar esses serviços de fornecedores estrangeiros”, diz Maurício Ruiz, diretor da área de empresas da Intel Brasil.

Mesmo assim, os negócios devem ser promissores no país. Enquanto no mundo há um servidor para cada 33 PCs, no Brasil existe um para cada 100. As empresas de telecomunicações são as principais compradoras de servidores neste início de ano, juntamente com o governo, os bancos e o setor varejista.

O investimento não está acontecendo só porque haverá a Copa e a Olimpíada por aqui. As empresas vão comprar servidores porque o Brasil está num ritmo acelerado de crescimento e as informações geradas precisarão ser processadas em algum lugar. A expansão da internet de alta velocidade prevista no Plano Nacional de Banda Larga também promete aumentar, e muito, a demanda por processamento. A bonança do mercado de servidores, por aqui, promete durar um bom tempo.

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