Perini Business Park, em Joinville: empresas de tecnologia trazem sangue novo a uma tradicional região industrial catarinense (Ricardo Wolffenbüttel/Divulgação)
EXAME Solutions
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 09h40.
Durante muito tempo, a inovação em Santa Catarina foi tratada como um fenômeno localizado e com vista para o mar, por assim dizer. Ao lado de praias exuberantes, a capital Florianópolis construiu merecidamente a reputação de Ilha do Silício por causa da forte participação que as empresas de tecnologia ganharam na economia da capital nas últimas décadas.
Hoje em dia, isso é somente um pedaço de uma história maior. A economia da inovação não depende de um polo isolado --— está distribuída por todas as regiões do estado.
A base desse modelo é o ecossistema de inovação catarinense formado ao longo dos anos. Ele combina universidades, empresas maduras, startups orientadas para o mercado, redes de investidores e organizações de apoio, como as incubadoras.
A combinação de forte cultura empreendedora do estado com políticas públicas estáveis resulta em um ambiente em que novas empresas surgem com maior proximidade das demandas reais da economia — e mais chances de prosperar.
Os dados ajudam a entender quanto esse modelo tem sido bem-sucedido. Em 2024, o setor de tecnologia de Santa Catarina faturou 42,5 bilhões de reais, o equivalente a 7,75% do PIB estadual, a segunda maior participação entre as capitais brasileiras. São mais de 29.000 empresas de tecnologia e cerca de 100.000 empregos diretos.
Os números são de um levantamento da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), criada em 1986 justamente para apoiar o então incipiente ecossistema de inovação do estado — hoje a entidade reúne 1.850 empresas nas principais cidades do estado e gerencia iniciativas como a incubadora MidiTec e o laboratório de inovação aberta LinkLab.
Mais importante do que o tamanho do setor de tecnologia catarinense é a sua composição: muitas empresas médias, altamente especializadas, com foco em eficiência, exportação de serviços e integração com grandes cadeias produtivas.
Em Florianópolis, a arrecadação de ISS do setor de tecnologia mais que triplicou em cinco anos, saltando de cerca de 44 milhões de reais em 2019 para 146 milhões de reais em 2024. Ou seja: a tecnologia deixou de ser promessa para se tornar base concreta de receita municipal. No Vale do Itajaí, o movimento foi ainda mais notável. Em Blumenau a arrecadação de ISS da tecnologia cresceu mais de 1.000% no mesmo período, alcançando 59 milhões de reais em 2024. No Oeste, Chapecó viu a arrecadação de ISS ligada à tecnologia crescer cerca de 275% entre 2019 e 2024, impulsionada por startups e empresas conectadas ao agronegócio.
Mão de obra qualificada: o capital humano é um dos fatores que impulsionam a inovação no estado (Divulgação/Divulgação)
Florianópolis continua sendo uma vitrine: concentra cerca de um terço das empresas do setor e tem a segunda maior participação da tecnologia no PIB municipal entre as capitais brasileiras. Parte dessas empresas nasceu no Sapiens Parque, um parque tecnológico com 4,3 milhões de metros quadrados no norte da Ilha de Santa Catarina.
O Sapiens é administrado pelo governo do estado e foi concebido para integrar pesquisa científica, empresas e planejamento urbano. Nele há duas incubadoras, uma aceleradora de empresas de software e hardware, laboratórios de ponta de grandes grupos, como a JBS, e outras companhias que ali surgiram ou para lá foram em busca das melhores condições para crescer. “O principal papel do Sapiens é orquestrar todos os integrantes do ecossistema de inovação”, diz Eduardo Vieira, diretor-presidente do parque tecnológico.
Foi nesse ambiente que empresas como a Indicium ganharam escala. A empresa nasceu em 2017 como uma consultoria para ajudar outras companhias a entender e a usar melhor os dados que já tinham. A empresa faturou 32 milhões de reais em 2023. Em novembro de 2025, se uniu à britânica Mesh AI, especializada em dados e inteligência artificial para grandes corporações, para formar uma companhia global presente em cinco países (a resultante da fusão passou a se chamar Indicium AI).
“O ecossistema de inovação de Santa Catarina foi absolutamente determinante para o nascimento e o crescimento da Indicium”, diz Isabela Blasi, cofundadora da empresa. “Florianópolis, em especial, oferece algo muito raro: proximidade real entre empreendedores, universidades, associações, investidores e grandes empresas.”
Mesmo após a fusão com a Mesh AI, o estado segue como base estratégica, sobretudo pela oferta de talentos e pela maturidade do ecossistema de inovação. “O estado continua como um polo fundamental de talentos, liderança e inovação. Nossa visão sempre foi global, mas com raízes muito bem fincadas aqui”, afirma Blasi.
A força do modelo catarinense aparece com bastante clareza fora da capital. Tome-se o caso de Joinville, a maior cidade do estado. Com mais de 600.000 habitantes, é um caso emblemático: historicamente associada à indústria metalmecânica, passou a incorporar inovação de fronteira sem romper com sua vocação produtiva.
Há startups de engenharia avançada, como a Outer Space, primeiro laboratório de foguetes do Sul do Brasil, instalado no Ágora Tech Park, estrutura destinada à inovação dentro do Perini Business Park, maior distrito industrial da América Latina. Existem também companhias já consolidadas, como a fintech Conta Azul, adquirida em agosto de 2025 pela norueguesa Visma numa operação de 300 milhões de dólares. Empresas assim trazem sangue novo para os principais polos industriais de Santa Catarina.
Outras regiões seguem lógica semelhante. No Vale do Itajaí, softwares corporativos e soluções digitais passaram a se somar à indústria tradicional. O Oeste transformou sua agroindústria em plataforma para agritechs, conectando inovação a cadeias produtivas consolidadas. No Sul e na Serra, incubadoras e parques tecnológicos vêm sendo usados como instrumentos de reconversão econômica, e não como vitrines institucionais.
Um dos pilares desse sistema é a formação de empresas desde os estágios iniciais. A incubadora MidiTec, mantida pela Acate, tornou-se referência internacional: foi eleita quatro vezes a melhor incubadora do Brasil e figurou repetidamente entre as melhores do mundo. Sua metodologia, focada em disciplina empresarial e tração de mercado, ajudou a reduzir a taxa de mortalidade de startups e foi replicada em diferentes regiões do estado.
A Nanovetores ilustra o tipo de negócio que emerge desse ambiente. A empresa faturou 21,6 milhões de reais em 2024. Desenvolve ativos nanoencapsulados para cosméticos, fármacos e alimentos com tecnologia sustentável.
A empresa converte ciência em produtos industriais de alto valor agregado e foi fundada em 2008 na incubadora Celta, a mais antiga de Santa Catarina. Recursos obtidos em editais de apoio à inovação do Sebrae e da Fapesc, agência de fomento à pesquisa e à inovação do estado, foram fundamentais para os primeiros anos. Em 2022, 48% da empresa foi adquirida pelo grupo suíço Givaudan.
“Tem um ditado que diz que, quando a maré sobe, todos os barcos se elevam, e isso é muito do que se vê aqui em Santa Catarina”, diz Betina Zanetti Ramos, fundadora e presidente da Nanovetores. “Temos aqui um espírito de colaboração e de crescimento que faz a diferença no nosso ecossistema.”
Para dar uma ideia de como isso funciona na prática, a Acate mantém um fundo garantidor de crédito para avalizar operações financeiras para as empresas associadas mais iniciantes, que muitas vezes não têm acesso a financiamento. Os recursos desse fundo são integralizados por donos de negócios de tecnologia já consolidados. “É um bom exemplo da cultura de colaboração que temos aqui”, diz Diego Ramos, presidente da Acate.
Se depender de iniciativas como essa, não vai faltar inovação em Santa Catarina.