Revista Exame
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Agora a Itália vê a China como solução

Para um dos maiores especialistas europeus em China, a mudança no discurso dos políticos sobre o gigante asiático é a medida da crise na Itália

Romeo Orlandi: “O rebaixamento da dívida da Itália foi um abalo, mas não creio em calote”

Romeo Orlandi: “O rebaixamento da dívida da Itália foi um abalo, mas não creio em calote”

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Mariana Segala

28 de outubro de 2011, 09h20

São Paulo - As declarações de membros do governo italiano sobre a China mudaram muito nos últimos tempos. Até recentemente, os chineses eram os vilões que estavam destruindo a economia com seus produtos baratos.

A mesma crítica ecoou em vários países europeus. Agora, passaram a ser descritos como heróis que podem comprar títulos do governo justamente quando o país é jogado para o centro da crise europeia.

Para o economista Romeo Orlandi, professor da Universidade de Bolonha e um dos maiores especialistas europeus em China, os chineses precisam de uma Europa saudável. Mas é ilusão achar que eles resolverão o imbróglio no Velho Continente.

1) EXAME - Diante da avalanche de produtos chineses na Itália, o ministro da Economia, Giulio Tremonti, disse várias vezes nos últimos anos ter receio de ser  “colonizado”. Essa reação era exagerada? 

Romeo Orlandi - Para atrair o voto dos italianos, Tremonti fez uma forte oposição à China. O fato de ele ter mudado radicalmente o discurso para um tom mais conciliador mostra quão séria é a situação da Itália. Precisamos desesperadamente de dinheiro. E o dinheiro está na China.

2) EXAME - Qual é a reação das instituições europeias diante da possibilidade de ajuda da China? 

Romeo Orlandi - Oficialmente, a resposta é positiva. Ajudar a Itália significa ajudar o euro a sobreviver. Mas há, em certos meios, um desconforto. Para essas pessoas, ficar na mão dos chineses soaria como uma traição ao espírito europeu.

3) EXAME - Estima-se que a China já detenha em torno de 4% da dívida italiana. Quanto mais seria saudável? 

Romeo Orlandi - A participação poderia facilmente atingir 15%. Seria tolerável, mas não realista. Isso porque os títulos italianos são considerados um investimento arriscado. Sem contar que a economia ainda está fraca.

Uma alternativa é os chineses comprarem fatias de companhias italianas, ativos reais em vez de financeiros. As indústrias da Grécia e de Portugal são pouco atrativas, mas esse não é o caso da Itália. Para a China, a Europa é mais que um mercado para seus produtos.


É também um bom lugar para comprar tecnologia via aquisição de empresas. É sempre bom lembrar que os chineses precisam de uma Europa saudável e de um euro forte para contrabalançar o poder do dólar.  

4) EXAME - A Itália é muito grande para quebrar? 

Romeo Orlandi - O risco de a Itália dar um calote é muito pequeno. A recente decisão da agência de classificação de risco S&P de rebaixar a nota da dívida italiana foi um golpe na credibilidade do país, mas não acredito em um default.

Vejo duas possibilidades: ou teremos um declínio continuado da economia ou um novo governo será formado. Se fizermos uma reforma política, poderemos nos sair melhor. 

5) EXAME - O problema é mais político que econômico? 

Romeo Orlandi - As duas coisas. Tempos difíceis na economia exigem um leme político forte. Este governo é inadequado e fraco.

6) EXAME - O que um novo governo poderia fazer?

Romeo Orlandi - Promover a liberalização e fazer privatizações, além de uma reforma do mercado de trabalho. A lista de medidas é grande e inclui a redução da burocracia e da evasão fiscal. 

7) EXAME - Seria possível a Itália deixar o euro?

Romeo Orlandi - Possível é, mas seria extremamente ruim. A Europa é uma âncora. Sem ela, teríamos instabilidade e inflação.