Meu desejo para 2026 é que dilemas como os geracionais fiquem no passado e que, no presente, possamos saborear a construção conjunta de um futuro (Richard Drury/Getty Images)
Fundadora e Presidente do Conselho Cia de Talentos/Bettha.com
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.
Eu sei, só essa referência no título já é um marcador geracional. Por isso, antes de mais nada, preciso explicar o conceito para quem nasceu muito depois da campanha publicitária de 1984: naquele ano, a marca lançou um comercial que perguntava se o biscoito vendia mais porque era fresquinho ou se era fresquinho porque vendia mais. A graça da peça estava justamente nessa circularidade em que uma coisa alimentava a outra, que alimentava a outra, sem nunca chegar a um ponto de partida claro.
Nessa dinâmica, causa e consequência se embaralham o tempo todo e fica difícil — se não, impossível — isolar um único fator que explique todo o fenômeno.
Algo parecido ocorre com uma pauta do mundo corporativo muito discutida ao longo de 2025. Refiro-me à “questão geracional”.
Há quem diga que a juventude de hoje em dia é completamente diferente da do passado, que falta compromisso e sobram exigências profissionais. Porém, me parece que o que temos aqui é também um Dilema da Tostines: as pessoas jovens são diferentes e, por isso, têm novas expectativas sobre o trabalho, ou o mundo do trabalho está diferente e, por isso, a juventude passa a ter outras expectativas sobre sua própria carreira?
Assim como acontecia na propaganda da década de 1980, a verdade é que um efeito puxa o outro e, no fim das contas, não sabemos, de fato, o que veio primeiro. Diante desse ciclo contínuo em que cada mudança desencadeia outra, parece improdutivo tentar desvendar qual é o real ponto de origem.
Melhor do que tentar encontrar “culpados” é assumir a existência de um cenário muito mais complexo e entrelaçado, no qual não existe “uma geração tão diferente do passado”. O que temos, na verdade, é um presente em intensa transformação, cujos efeitos se estendem a todo mundo, independentemente de faixa etária, cargo ou especialidade.
Prova disso é que, ano após ano, temos percebido pontos de similaridade entre os grupos pesquisados na Carreira dos Sonhos, estudo que há 24 anos acompanha as expectativas, angústias e prioridades de jovens, média gestão e alta liderança.
A edição que acabamos de lançar mostra, por exemplo, que o descontentamento com a carreira está muito longe de ser um sentimento exclusivo do público mais novo. Diante da questão “quanto você está feliz com sua carreira hoje?”, os índices de satisfação são baixos em todos os grupos, inclusive entre profissionais mais experientes.
Há, portanto, uma inquietação que não é apenas geracional, mas estrutural. Um incômodo maior que supera qualquer marcador de idade, tempo de experiência ou posição hierárquica, e que, em partes, pode ser explicado pelo sentimento crescente de frustração.
Nesses anos todos estudando como os indivíduos constroem significado em suas trajetórias e acompanhando, de perto, como o contexto econômico, social e tecnológico muda a relação com o trabalho, temos observado certa descrença. Se, antes, as pessoas enxergavam na atividade profissional uma fonte de prazer, de ascensão econômica garantida e de estabilidade; há algum tempo essa visão parece ter se tornado uma miragem.
A sensação, para muita gente, é de promessa não cumprida. E tal desencanto se revela em um movimento curioso que você deve ter observado neste último ano: o culto à nostalgia.
Mesmo quem não viveu o “passado da Tostines” hoje consome produtos e serviços com uma estética retrô. Seja na música que resgata sonoridades de décadas anteriores, seja na moda com peças que retornam ao guarda-roupa como se nunca tivessem saído, seja nas séries, filmes e marcas que revivem universos de tempos remotos, há uma espécie de saudosismo por algo que não foi vivido, uma tentativa de reencontrar segurança em referências que parecem mais sólidas do que o presente.
Nesse contexto, o passado se torna um refúgio para o futuro que nunca veio — e isso pode ser perigoso.
Não que olhar para trás, por si só, seja um problema. Existe, sim, um conforto legítimo em acessar aquilo que nos parece familiar, que evoca bons sentimentos e até ajuda a organizar internamente períodos de transição. O problema é quando essa “visita” se torna morada e, de repente, paramos no tempo.
Quando isso acontece, não conseguimos seguir adiante. Estamos no presente, mas enxergamos e analisamos tudo com lentes antigas.
É daí que vêm as percepções distorcidas sobre quem são as pessoas jovens, o que querem, como se comportam e, sobretudo, o que “deveriam” fazer para se encaixar em modelos que já não correspondem mais à realidade.
De forma prática, a mensagem que gostaria de passar neste começo de ano é de renovação do olhar. Para que nós, enquanto lideranças, possamos guiar a empresa para o futuro, é necessário que a nossa visão também esteja direcionada para a frente, e isso requer disposição para desapegar de antigos pontos de vista, ajustar o foco e observar a realidade por diferentes ângulos.
Usar novas lentes não significa esquecer tudo o que vimos e vivemos antes, abrir mão da bagagem acumulada ou negar o valor das experiências que nos trouxeram até aqui. A partir da sua vivência, a liderança pode contextualizar melhor as mudanças, dar sentido ao que está acontecendo, conectar o passado com o futuro e criar ambientes em que diferentes gerações aprendam umas com as outras.
Para isso, é importante que a juventude também esteja aberta a compreender o funcionamento das organizações, reconhecer os desafios estruturais que as empresas enfrentam e ampliar seu campo de visão.
Meu desejo para 2026 é que dilemas como os geracionais fiquem no passado e que, no presente, possamos saborear a construção conjunta de um futuro. Um futuro melhor, mais “fresco” — como certos biscoitos.