Revista Exame

Quem é Anita Harley, a discreta dama do varejo

Reclusa e misteriosa, Anita Louise Regina Harley é a personagem que esteve por trás da recuperação das lojas Pernambucanas. Hoje, seu nome está em meio a uma batalha bilionária na justiça

Anita Louise Regina Harley (--- [])

Anita Louise Regina Harley (--- [])

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 18 de fevereiro de 2011 às 12h23.

Última atualização em 18 de março de 2026 às 10h41.

Por décadas, o nome Casas Pernambucanas foi sinônimo de varejo no Brasil. Nos anos 70, quando atingiu seu ápice, o grupo chegou a operar mais de 1.000 lojas espalhadas pelo país, que faturavam então 1 bilhão de dólares por ano.

Em 2002, depois de longas disputas entre herdeiros, a Pernambucanas chegou a seu momento mais crítico: a rede foi reduzida a 238 lojas, com faturamento de 675 milhões de dólares e prejuízo de 12,5 milhões.

Um drástico programa de reestruturação foi adotado e, em três anos, a receita voltou para o patamar do bilhão de dólares.

No lugar do prejuízo, registrou lucro de 19 milhões de dólares — uma margem pequena, mas que representou um importante sinal de recuperação. Tal desempenho num setor altamente competitivo como o varejo transformou a Pernambucanas num alvo para algumas de suas concorrentes.

Meses antes da produção desta matéria, a Lojas Americanas sondou a empresa com uma oferta de compra, proposta imediatamente repelida. E logo depois, outro ataque. A rede Riachuelo, do grupo Guararapes, tentou se aproximar para propor uma fusão das duas redes. Em vão. O fracasso das duas ofertas está diretamente ligado à figura de uma mulher alta, de meia-idade, acentuados traços germânicos e personalidade enigmática.

Quem é Anita Harley

Trata-se de Anita Louise Regina Harley, uma advogada de nome aristocrático, bisneta do fundador do império comercial, Herman Lundgren — imigrante sueco que desembarcou no Brasil no fim do século 19. Até 2016, Anita ocupava a vice-presidência do conselho de administração da empresa. Mas nada acontecia na Pernambucanas sem o seu consentimento.

Para funcionários, fornecedores, consultores e diretores da Pernambucanas, Anita é praticamente uma lenda. Poucos são os que já a viram pessoalmente.

Em mais de 20 anos na companhia, vi a doutora Anita apenas duas vezes.

Comentou um ex-diretor. No dia-a-dia da empresa, seu principal interlocutor é o executivo Toshio Kawakami. É ele (e apenas ele) quem leva as orientações de Anita ao restante do grupo.

Solteira e sem filhos, Anita viveu há 30 anos num hotel — o Ca'd'Oro, antigo reduto de milionários no centro de São Paulo, hoje marcado por certa decadência. Lá, ela ocupava um conjunto de três apartamentos, onde instalou aposentos e um escritório.

Onde vivia Anita Harley

Apenas duas pessoas lidam com Anita no dia-a-dia: uma secretária e uma copeira com dedicação exclusiva. As suítes ficam ainda sob constante vigilância de dois seguranças. Em São Paulo, Anita raramente sai do hotel.

Na última década, por estar acima do peso recomendável, ela passou a sofrer dificuldades de locomoção. E até 2016, utilizava uma cadeira de rodas para facilitar deslocamentos.

Quando não estava em São Paulo, Anita se refugiava na casa que tem em Recife, cidade onde nasceu e cursou a faculdade de direito. Em geral, passava três temporadas por ano em Pernambuco (todas com duração média de três semanas). Reservada, bastante reclusa, Anita não gosta de fotos.

A imagem que ilustra esta reportagem — uma das poucas disponíveis — foi feita em 1990, durante a premiação de Melhores e Maiores, de EXAME. Anita também detesta revelar sua idade. Mas pessoas próximas estimam que a todo-poderosa das Pernambucanas tenha, hoje, entre 75 a 80 anos.

ANITA HARLEY EM 6 PONTOS 
  • Herdeira e ex-controladora da Casas Pernambucanas, onde alternava o comando a cada dois anos com o primo Frederico Lundgren
  • Estudou no Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, e formou-se em direito
  • Não revela a idade, mas pessoas próximas estimam que ela tenha entre 75 a 80 anos
  • É solteira e não tem filhos
  • Morou mais de 30 anos em um hotel no centro de São Paulo e passava temporadas na casa que tem em Recife, sua cidade natal
  • Em 2016, Anita Harley sofreu um AVC hemorrágico e entrou em coma — estado em que permanece até hoje, quase 10 anos depois.

Há tempos, a grande razão de sua vida foi o comando da empresa fundada por seu bisavô.

A rede de lojas é o que de fato motivava o dia-a-dia e a vida de Anita.

Era o que dizia uma amiga próxima. O comando do grupo, aliás, causou desentendimentos na família.

Como Anita Harley dirigia a Pernambucanas

Mesmo com a participação de outros familiares na empresa, Anita é quem de fato detém o poder, uma vez que o testamento deixado por sua mãe, Erenita Helena Groschke Cavalcanti Lundgren, antiga presidente da empresa, morta em 1990, garante à filha 50% do controle até 2010.

Na época da publicação desta reportagem, em 2011, além de seus cerca de 30%, Anita respondia pelas ações de um grupo de sobrinhos, que posteriormente teriam voz nas decisões da companhia.

Frederico, que na época era o maior rival de Anita na empresa, tinha aproximadamente outros 30% de participação e não era sempre que conseguia o apoio dos demais membros do conselho de administração.

Se poucas pessoas a conhecem de perto, seu temperamento difícil, por outro lado, ganhou notoriedade dentro e fora da empresa. Tom de voz grave, com fala forte e acentuado sotaque nordestino, Anita não faz o tipo diplomático.

Quando a consultoria Accenture foi contratada para planejar a reestruturação da companhia, Anita (por mais de uma vez, mas sempre através de ligações telefônicas) embaraçou os presentes dizendo-se contrária às orientações dos consultores. Fazia isso de um jeito franco, direto e sem rodeios.

O único que consegue contornar o temperamento de Anita é Toshio Kawakami. Tornou-se folclore no mercado uma tentativa de aquisição feita por uma das concorrentes há seis anos. Na ocasião, os executivos que fizeram a proposta ofereceram um prêmio aos herdeiros caso eles conseguissem convencer Anita a vender a empresa.

A receita da Pernambucanas

Entre amigos próximos da discreta comandante da Pernambucanas entrevistados para esta reportagem, há o consenso de que a estratégia foi equivocada. "Eles deveriam ter insistido com o Toshio. Ela só ouve ele", diz um deles. Procurados por EXAME, tanto a herdeira quanto os executivos da empresa não concederam entrevistas.

A Pernambucanas é provavelmente o maior fenômeno de sobrevivência do varejo brasileiro.

O negócio conseguiu resistir a disputas dentro do clã Lundgren que quase o destruíram. A primeira grande cisão ocorreu em 1975 — a fase de maior pujança. Naquela época, a empresa foi dividida por regiões — São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste.

Com administrações independentes, as empresas do Nordeste e do Rio de Janeiro faliram alguns anos depois.

A parte paulista do negócio, comandada pela mãe de Anita, sobreviveu à derrocada. Mas acabou perdendo mercado por resistir à modernização e seguir sustentada na venda de tecidos, o negócio que deu origem à empresa.

Segundo analistas de mercado, a companhia conseguiu crescer na década passada porque redirecionou —ainda a tempo — o foco para os setores de utilidades domésticas, eletrônicos, confecções e artigos de cama, mesa e banho.

"A virtude da Pernambucanas é operar com grandes lojas em cidades pequenas", diz Alberto Serrentino, da consultoria Gouvêa de Souza & MD.

Além disso, a rede tem lojas de rua, diferentemente das concorrentes, baseadas nos shopping centers.

É com essa fórmula que a misteriosa Anita pretende conduzir a empresa e rechaçar a investida dos concorrentes.

Como está Anita Harley hoje?

A história de Anita Harley ganhou repercussão nacional após um AVC hemorrágico sofrido em 2016, que a deixou em coma e incapaz de administrar seu patrimônio, estimado em bilhões de reais.

A ausência de um planejamento sucessório claro abriu espaço para uma série de disputas judiciais envolvendo pessoas que alegam ter vínculos afetivos e familiares com a empresária.

A batalha na Justiça gira em torno do controle dos bens (curatela) e do direito à herança. Entre os principais envolvidos estão uma suposta companheira de longa data, um homem que busca reconhecimento como filho socioafetivo, além de uma ex-secretária que também reivindica relação afetiva com Anita.

A família biológica, por sua vez, contesta essas versões, tornando o caso ainda mais complexo e sem desfecho definitivo até o momento.

O tema voltou ao centro do debate público com o documentário “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, que apresenta diferentes versões da história e levanta questionamentos sobre relações pessoais, interesses financeiros e a importância do planejamento patrimonial.

Acompanhe tudo sobre:Casas PernambucanasCEOsMulheres executivas

Mais de Revista Exame

O bem-estar que escala: hotel de luxo em São Paulo adota escala 5x2

A aposta de R$ 100 bilhões de Márcio Kumruian nas oficinas mecânicas

DDGS mira China e pode destravar mercado de R$ 7,8 bilhões para o agro do Brasil

Salário mínimo sobe acima da renda média em vários países e gera alerta