(Zoomp/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 11 de julho de 2026 às 09h04.
Numa noite de 1979, quem passava em frente à Sandália de Prata, tradicional gafieira de São Paulo, encontrava uma cena estranha para o endereço: 900 pessoas espremidas para assistir a um desfile de moda.
Para aquela época, qualquer desfile que não tivesse passarela - ou que fosse num lugar como museu - era, no mínimo, estranho. Imagine então numa roda de samba, com uma marca ainda não tão conhecida.
Era o lançamento da coleção "Sexy Jeans", e aquela noite fundava um jeito de vender jeans que o Brasil ainda não conhecia.
A marca era a Zoomp. E, por quase três décadas, ela seria sinônimo da calça que — segundo a lenda repetida por quem viveu os anos 1980 — caía no corpo como nenhuma outra.
Nos anos seguintes, sem conseguir administrar o seu próprio gigantismo, e com dificuldade em enfrentar a abertura do mercado aos produtos importados, começou a se retrair.
A seguir, a história da empresa que chegou a ter 800 funcionários e lojas em 10 países.
A marca foi criada pelo empresário Renato Kherlakian.
Descendente de armênios, cresceu numa família cujo negócio, trazido da Armênia e recriado no Brasil, era a confecção e o comércio de caxemira, com uma grande loja no centro de São Paulo.
O contato precoce com tecido fino, alfaiataria e acabamento formou seu olho para caimento e proporção, o detalhe que depois definiria a marca.
Antes de virar estilista, ele passou pela publicidade, pelo turismo e chegou a se formar em Direito. A virada para o denim veio quase por acaso: numa galeria badalada de São Paulo, uma desconhecida se encantou com a camisa que ele mesmo havia feito e encomendou uma igual na hora.
Dali saíram as primeiras peças próprias, que começaram a circular nas melhores lojas paulistanas. Em 1974, nascia oficialmente a Zoomp.
O conceito era transformar o jeans, até então roupa de trabalho ou item importado caro, em artigo de moda para o jovem urbano brasileiro. E, mais do que isso, num jeans pensado para o corpo daqui.
A marca apostou numa modelagem anatômica, com numeração intermediária em vez das medidas fechadas tradicionais, para que a calça se moldasse a mais tipos de corpo.
Se o produto era bom, o marketing era o que fazia a diferença. A Zoomp foi pioneira em tratar a loja como ponto de encontro: quando abriu sua primeira unidade própria, no Shopping Eldorado, no começo dos anos 1980, levou música ambiente, cenografia nas vitrines e uma equipe de vendedores jovens, escolhidos como formadores de opinião.
Entrar na loja era parte da experiência de comprar a calça.
O raio amarelo bordado no bolso virou senha de pertencimento.
Pelos ateliês da marca passaram, ainda no início de carreira, nomes que depois seriam gigantes da moda nacional, como Alexandre Herchcovitch, Marcelo Sommer e Jum Nakao.
As campanhas ajudaram a construir o mito. A Zoomp trouxe para o Brasil o fotógrafo Mario Testino e a editora Carine Roitfeld, referências internacionais, e estrelou anúncios com modelos que estavam começando ou já eram estrelas — entre elas, uma jovem Gisele Bündchen no início da carreira.
O sucesso tinha um efeito colateral revelador: a Zoomp era tão desejada que virou alvo de falsificação em massa. Cópias do raio amarelo se espalharam pelo país, e a marca precisou investir em campanhas antipirataria em revistas para defender a própria identidade.
No topo, a Zoomp chegou a cerca de 800 funcionários e 84 lojas espalhadas por dez países, com escritório em Paris e vendas que superavam um milhão de peças por ano.
Era, disparada, a marca de jeans mais forte do país. Não à toa, é lembrada como a primeira grife nacional de denim a atravessar o oceano e vender no exterior de forma consistente.
Para o público teen, a empresa ainda criou uma linha paralela, a Zapping, inspirada no streetwear.
Entre 1974 e o final dos anos 1990, a Zoomp dominou o mercado brasileiro.
A abertura do mercado brasileiro aos importados, ainda nos anos 1990, mudou o jogo.
As marcas internacionais chegaram com força, o fast fashion e as grandes redes ganharam espaço, e a Zoomp — posicionada no segmento premium, com custo de criação alto — passou a ter dificuldades naquele descasamento clássico da moda: de um lado, o estilista que quer a peça mais incrível possível; de outro, a conta que precisa fechar.
Somaram-se dívidas crescentes e divergências entre sócios.
Em 2006, o controle passou para a holding HLDC, dos empresários Enzo Monzani e Conrado Will, que assumiram dívidas estimadas em R$ 130 milhões, enquanto a gestora Global Capital entrava na administração da marca.
No fim de 2007, a HLDC criou o grupo I'M (Identidade Moda), guarda-chuva que reuniria a Zoomp e estilistas como Alexandre Herchcovitch e Fause Haten. Em março de 2008, os dois deixaram o grupo.
Em 2009, um fornecedor moveu uma ação de cobrança, e a Justiça decretou a falência da Zoomp. A fábrica de Barueri, na Grande São Paulo, chegou a fechar. A empresa recorreu e conseguiu revogar a falência poucos dias depois, mas o estrago estava feito: no mesmo ano, entrou em recuperação judicial e, em 2010, fechou todas as lojas físicas.
A história ainda teria capítulos. Em 2016, a Zoomp foi arrematada em leilão judicial pela K2, ligada ao empresário Alberto Hiar, dono da Cavalera.
A ideia era relançá-la como marca premium, e Kherlakian foi convidado a atuar como uma espécie de embaixador. Mas o próprio fundador desconversou na época: disse que a participação havia sido "anunciada pela imprensa de maneira precipitada" e que, provavelmente, não se concretizaria.
Não se concretizou.
Hoje, a Zoomp não foi formalmente extinta. Ainda existe um site e há perfis nas redes sociais — mas tudo parado, sem atualização há anos.
Peças novas e antigas aparecem de vez em quando em marketplaces e outlets, mais como memória afetiva do que como moda de fato. O raio amarelo virou item de nostalgia.
Kherlakian nunca parou de trabalhar. Virou consultor, prestou serviço para gigantes como a C&A e para marcas de vanguarda, e, em 2016, lançou pela Editora Senai-SP o livro "Uns Jeans, Uns Não", escrito com o jornalista Ronald Sclavi e com introdução de Paulo Skaf, ex-presidente da Abit.
A obra reconstrói quatro décadas de denim em mais de 180 verbetes organizados de A a Z.