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O pai dele vendeu uma Brasília para abrir uma loja no interior. Hoje a rede fatura R$ 2 bilhões

A primeira loja da MM abriu ao lado de uma rodoviária, sobreviveu a sucessivas crises do varejo e hoje lidera em cidades que as grandes redes não conseguem operar

Marcio Pauliki, da Lojas MM: Para 2032, a meta declarada pela empresa é ultrapassar 3,5 bilhões de reais em faturamento (Lojas MM/Divulgação)

Marcio Pauliki, da Lojas MM: Para 2032, a meta declarada pela empresa é ultrapassar 3,5 bilhões de reais em faturamento (Lojas MM/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 11 de julho de 2026 às 07h43.

Última atualização em 13 de julho de 2026 às 10h24.

Na recepção da sede da Lojas MM, em Ponta Grossa, há uma Brasília alaranjada parada. Não é bem um enfeite. Trata-se do carro que o fundador vendeu, em 1978, para pagar a primeira loja da rede, um ponto pequeno em frente à rodoviária da cidade, no interior do Paraná.

O carro era de Jeroslau Pauliki, o único bem que ele tinha.

Quase 50 anos depois, a loja virou uma rede de mais de 230 unidades em quatro estados, comandada pelo filho, Marcio Pauliki.

A empresa vende móveis, eletrodomésticos e eletrônicos e, segundo a companhia, dobrou de faturamento em dois anos — de 1 bilhão de reais em 2023 para 2 bilhões de reais em 2025.

O salto vem de uma virada recente. Desde 2022, a MM deixou de ser só uma rede de lojas físicas e montou um braço de atacado, que vende para pequenos lojistas de todo o país, além de reforçar o e-commerce, o comércio eletrônico.

Metade das vendas já vem dessas frentes, e a marca, antes conhecida só no Sul, passou a operar com centros de distribuição em estados como Bahia e Paraíba.

O que sustenta essa travessia, na leitura de Marcio, é não deixar a empresa envelhecer. "Você é drone ou dinossauro, independente da idade", diz o CEO, que aplica a frase à própria equipe: cita diretores de 60 anos que classifica como inovadores e jovens de 20 e poucos que, para ele, já operam como veteranos.

Para 2032, a meta declarada pela empresa é ultrapassar 3,5 bilhões de reais em faturamento e entrar na lista dos dez maiores canais de venda do Brasil. Marcio, que é da família fundadora mas se define como executivo contratado, prepara a transição de comando: a partir daquele ano, a gestão deve ser profissionalizada, com a terceira geração ainda longe de assumir.

A aposta em frente à rodoviária

O ponto onde tudo começou não era dos mais promissores.

A loja ficava espremida entre um bar e uma zona de meretrício, e conhecidos avisavam que ali só entraria cliente bêbado. O primeiro cliente, conta Marcio, foi de fato um homem que saiu do bar ao lado e errou a porta — episódio que a empresa hoje repete como parte de sua história de fundação.

O nome MM vem de "mercado de móveis", a placa da primeira loja. A Brasília na recepção — o sedã da Volkswagen popular nos anos 1970 — virou símbolo interno da coragem de investir o próprio patrimônio no negócio.

É a primeira coisa que Marcio mostra a quem chega à sede.

Ao lado do carro, há uma segunda peça na recepção: uma vaca leiteira em tamanho real. O animal representa duas ideias que Marcio atribui ao pai. A primeira é a de acordar cedo — vaca não dá leite sozinha. A segunda é a de margem de contribuição, o que sobra depois de pagar fornecedores e impostos. "É vender margem", resume o CEO, ao explicar a lógica que prefere a vender volume sem lucro.

O crediário, a venda parcelada no carnê próprio da loja, nasceu da mesma origem. Marcio conta que o pai vendia a prazo para gente que chegava do interior a Ponta Grossa sem crédito em nenhum outro lugar.

Essa base virou uma das principais fontes de lucro da rede. Segundo o CEO, a receita financeira do crediário pesa tanto que a empresa funciona, na prática, quase como uma financeira com loja na frente.

Hoje a MM tem uma securitizadora, empresa que antecipa o dinheiro das vendas parceladas, e passou a oferecer empréstimo pessoal com capital próprio.

As crises que não derrubaram a rede

Em quase 50 anos, a MM atravessou vários ciclos ruins do varejo.

Em 2014 e 2015, quando as vendas do setor caíram cerca de 30%, concorrentes como Ricardo Eletro e Insinuante quebraram.

A Selic já passou de 27% em outros ciclos, patamar que, para uma rede que vive de crediário, encarece o dinheiro, mas também eleva a receita financeira quando o juro cobrado do cliente sobe junto.

A pandemia, por outro lado, ajudou o setor de bens duráveis. Marcio lembra que o auxílio emergencial de 600 reais virou compra de geladeira, sofá e celular.

Ele conta que baixou o preço de um aparelho de 609 para 600 reais, para caber no benefício, e vendeu 30.000 unidades.

É o tipo de leitura rápida que, na visão dele, separa quem sobrevive de quem some no varejo de bens duráveis, o primeiro segmento a sentir uma crise e o último a se recuperar.

De loja regional a operação nacional

A diversificação foi o que tirou a MM do mapa do Sul.

O MM Atacado, braço que vende para pequenos e médios varejistas, cresceu mais de 200% nos últimos anos e atende cerca de 2.000 clientes, segundo a empresa.

No digital, a rede optou por tratar o e-commerce como canal próprio, em vez de depender do marketplace — a plataforma que reúne vendas de vários lojistas, como Mercado Livre e Amazon —, para não pagar comissões de 15% a 20%.

A aposta para os próximos anos combina lojas menores em cidades de até 15.000 habitantes, serviços de maior margem, como consórcio e garantia estendida, e marca própria.

É a mesma lógica que Jeroslau seguiu ao vender o carro em 1978: crescer sem deixar de operar como uma loja de bairro.

"Eu prefiro ser o principal player de uma cidade de 30 mil habitantes", diz Marcio, sobre a estratégia de liderar onde as grandes redes têm mais dificuldade de chegar.

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