Daniel Randon (Randoncorp), Noam Boussidan (FMC) e Tracy Francis (McKinsey) na Brazil House, em Davos: debate em torno da transição para uma economia de baixo carbono (BRAZIL HOUSE 2026/Divulgação)
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Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 13h56.
Antes tratada como um custo ou uma exigência regulatória, a transição para uma economia de baixo carbono passou a ser discutida como estratégia de competitividade empresarial. Essa mudança de perspectiva deu o tom do painel “Economia de baixo carbono: caminhos para uma transição sustentável”, realizado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.
Participaram da conversa Daniel Randon, CEO da Randoncorp; Noam Boussidan, head da First Movers Coalition (FMC) no Fórum Econômico Mundial; e Tracy Francis, sênior partner da McKinsey e managing partner para a América Latina.
“Nosso objetivo aqui não é falar apenas de metas, números ou indicadores, mas discutir como a sustentabilidade pode ganhar escala, qual é o papel do setor privado em tornar essa transição uma realidade e como ela pode se transformar em fonte de crescimento”, afirmou Tracy Francis na abertura do painel.
Criada em 2021, durante a COP26, a First Movers Coalition (FMC) surgiu com a proposta de usar o poder de compra das grandes empresas para acelerar o desenvolvimento e a adoção de tecnologias de baixo carbono em setores considerados difíceis de descarbonizar, como transporte pesado, aço, alumínio, cimento, concreto e aviação.
“A FMC reúne empresas que assumem o compromisso de comprar produtos, tecnologias e serviços de baixo carbono em setores considerados ‘difíceis de descarbonizar’”, explicou Noam Boussidan. Segundo ele, a coalizão atua hoje em sete frentes e exige que cada empresa-membro assuma ao menos um compromisso setorial até 2030.
A lógica, segundo Boussidan, é gerar demanda. “Se poucas empresas quiserem comprar aço verde, o mercado não se move. Mas se dezenas fizerem isso juntas, investidores, fornecedores e desenvolvedores de tecnologia passam a responder”, disse. “É assim que conseguimos acelerar soluções que ainda não estão maduras ou disponíveis em larga escala.”
Daniel Randon, CEO da Randoncorp: empresa se aliou à First Movers Coalition, criada para acelerar a adoção de tecnologias de baixo carbono em setores difíceis de descarbonizar (BRAZIL HOUSE 2026/Divulgação)
A participação da Randoncorp no painel ocorre em um momento em que o grupo industrial brasileiro aprofunda sua agenda climática com impacto direto no negócio. Um dos movimentos mais simbólicos foi justamente a adesão à First Movers Coalition, anunciada durante o encontro em Davos.
Com 77 anos de história e atuação global no setor de transporte, a empresa assumiu publicamente a meta de reduzir em 50% suas emissões de gases de efeito estufa até 2030. Para Daniel Randon, a decisão vai além de compliance ou reputação.
“Hoje, não basta ter caixa: reputação, propósito e sustentabilidade são fundamentais para a sobrevivência e o crescimento das empresas”, afirmou o Daniel Randon, CEO da Randoncorp. Segundo ele, o primeiro passo foi promover uma mudança de mentalidade interna, envolvendo liderança, equipes, clientes e fornecedores.
No caso do alumínio, a estratégia passa por parcerias de longo prazo. “Hoje, mais de 50% do alumínio que utilizamos já é de baixo carbono. Isso mostra que a transição é possível quando existe colaboração de longo prazo”, disse Randon, citando a parceria com a CBA – Companhia Brasileira de Alumínio, uma das pioneiras brasileiras na FMC.
O painel também abordou os desafios econômicos da transição, especialmente em um cenário global mais complexo do que o observado na criação da coalizão, em 2021. Boussidan reconheceu que muitas das premissas iniciais — como custos e incentivos públicos — não se confirmaram plenamente.
“A FMC não é uma iniciativa climática no sentido tradicional. Ela é uma iniciativa empresarial, focada em competitividade e resiliência no mundo pós-2030”, afirmou. Segundo ele, a coalizão cresceu mesmo com mudanças políticas e econômicas globais e passa agora por um processo de recalibração para manter sua relevância.
Para Randon, o retorno dos investimentos sustentáveis precisa ser analisado de forma sistêmica. Ele citou o desenvolvimento de um eixo elétrico regenerativo capaz de reduzir entre 15% e 25% o consumo de combustível. “No início, o payback parecia longo. Mas, ao considerar ganhos operacionais, menor desgaste, redução de emissões e até caminhões mais leves e baratos, a equação mudou completamente”, explicou.
Apesar de obstáculos como juros elevados e burocracia, o Brasil foi apontado como um país com vantagens estruturais importantes na agenda climática. “O Brasil tem desafios claros, mas também enormes vantagens: matriz elétrica limpa, acesso a financiamento e capacidade tecnológica. Isso nos permite ser protagonistas, não apenas seguidores”, afirmou Daniel Randon.
Na mensagem final do painel, os participantes reforçaram que a transição sustentável é inevitável. “O ano de 2030 está logo ali — e, ao mesmo tempo, ainda temos cinco anos. Não existe um único caminho. A transição será complexa, imperfeita e não linear. Mas é o único caminho possível”, disse Noam Boussidan.