O negócio do vinho para felinos

Carol Pogash © 2017 New York Times News Service

Oakland, Califórnia – Por que beber sozinho quando dá para beber com seu bicho de estimação?

A pergunta vem de duas startups concorrentes na improvável categoria de vinho de mentirinha para gatos (e, em menor extensão, cachorros), apresentados em garrafas miniatura com nomes fofinhos. Não existe álcool envolvido, pense em erva-dos-gatos (ou catnip) líquida. Mas a empresa que lançou os produtos no mercado primeiro, a Apollo Peak, que se apresenta como “a vinícola felina original”, está acusando o novo concorrente, Pet Winery, de imitação.

As duas fizeram promoções para o Dia dos Namorados nos Estados Unidos. Ambas inventaram nomes espertos para os produtos: por US$ 11,95, as pessoas podem comprar Fluffy (felpudo), uma garrafa de 236 mililitros de Catbernet ou Pinot Meow da Apollo Peak, que tem sede em Denver.

Ou por US$ 14,95, é possível esvaziar os 355 mililitros de Meow & Chandon, da Pet Winery, de Fort Myers, Flórida.

Como o álcool pode causar danos aos gatos, esses produtos são basicamente água de catnip, que pode deixar felizes o bichano e seu dono.

Mas, baseada em uma degustação de vinho que realizei em um centro de adoção que também funciona como lanchonete, os produtos são basicamente catnip para os donos. Os gatos do abrigo não gostaram dos vinhos de nenhuma das duas empresas – somente dois deles se permitiram beber –, mas as pessoas que participaram do teste adoraram o conceito.

“Essa é a coisa mais genial de todos os tempos. Seria bom se meu gato desfrutasse de vinho comigo”, diz Savannah Thrasher, 23, que trabalha no setor de saúde e estava no Cat Town Café, Oakland.

Tudo começou dois anos atrás quando Brandon Zavala, diretor executivo da Apollo Peak, teve “a ideia de vinho para gatos do nada. Um bicho de estimação é quase como um amigo, um colega de quarto ou parente. Por que só lhes damos água?”.

Zavala, 32 anos, costumava vender alimentos para animais e está aprendendo mais sobre o negócio por meio da empresa. Inicialmente, chamou o produto de “lanchinho de beber”. Acredita que se não tivesse mudado para vinho de gato, “não teria viralizado”.

Ele batizou a empresa com o nome de seu gato, Apollo, e das montanhas de Denver. Beterrabas orgânicas da Califórnia conferem cor ao produto. O catnip vem dos planaltos do Colorado. As garrafinhas são vendidas pela internet e em 200 lojas, incluindo T.J. Maxx e Marshalls. Zavala coloca dizeres espertos nos produtos, tais como “tornando os gatos grandes novamente” e #porquebebersozinho.

Vinhos para gatos são a mais recente manifestação de uma tendência crescente entre donos de bichos que os tratam como se fossem pessoas.

Nos últimos 15 anos, “o mercado de animais de estimação se transformou com a humanização dos bichos”, diz David Sprinkle, diretor de pesquisa da marketresearch.com. Uma pesquisa realizada no ano passado por sua empresa constatou que 62 por cento dos proprietários de gatos (e 64 por cento dos de cães) consideram seu bichinho uma parte da família.

“O termo ‘pais de bicho de estimação’ vem cada vez mais substituindo o de ‘donos de bicho'”, conta Sprinkle. Produtos e alimentos para gatos respondem por 30 por cento do mercado americano de pets, que é de US$ 40 bilhões, sem contar os serviços, afirma ele.

Até Zavala se surpreendeu com o sucesso. No começo, criava muitos tuítes e e-mails na esperança de ser notado. Depois, “extrapolei”. Uma reportagem no “Huffington Post” levou a 44 mil compartilhamentos no Facebook, além de matérias nos sites das revistas “People” e “National Geographic”, além de menções de Jimmy Fallon e Bill Maher.

Zavala fabricava os vinhos na cozinha de casa e não conseguia acompanhar o ritmo. Acabou contratando funcionários e se mudando para um prédio maior. No ano passado, a empresa vendeu US$ 500 mil em vinhos para gatos.

Em julho de 2016, Taryn Nahm, 31 anos, que antes vendia publicidade, e seu namorado, Kai Pfretzschner, 37 anos, químico, abriram uma “vinícola” para gatos que agora chamam Pet Winery – o slogan é “bebidas originais para bichos de estimação”. Seus vinhos, também em garrafinhas, são vendidos pela internet e em 40 lojas. A fabricação é no laboratório de Pfretzschner.

Zavala não ficou contente, mas Nahm não se envergonha.

“A Apollo Peak não é a dona do mercado. Temos nossos pontos de vista”, além de receitas próprias. “Fizemos de óleo de salmão com catnip”, conta Nahm.

Zavala encara de outra maneira. “Não me importo em ter concorrência, mas eles clonoram nossos produtos.”

As duas firmas também entraram no mercado de vinho para cachorros. A Apollo Peak produz camomila e hortelã com água. A Pet Winery acrescenta óleo de salmão e extrato de bacon.

Resolvi descobrir qual marca os gatos temperamentais preferiam, então pedi a Ann Dunn, fundadora do Cat Town Café, para me deixar realizar um grupo de discussão felina com seus bichanos plenamente acordados e uma dúzia que estava mais interessada em cochilar do que em refrescos.

Aconteceu uma surpresa. Somente um gato, um preto e branco chamado Dickie, gostou de verdade da bebida. Ele bebericou, depois limpou o pelo e ficou feliz. Os outros gatos descansando em seus nichos ignoraram as ofertas, embora um tenha se interessado brevemente.

Contudo, os fãs de gatos – mesmo após verem que os animais não gostavam dos vinhos – ficaram encantados com os produtos.

Quando contei a Zavala, ele compreendeu. “A melhor parte da ideia é tomar vinho com seu bichano – essa é a motivação. Não é o sabor que o gato sente.”

Se você quiser atrair gatos, explica Dunn do Cat Town Café, abra uma lata de sardinha. Só que a lata de sardinha não tem o efeito descolado de uma garrafa de vinho para gato (que por sua vez não fede a peixe).

“Queremos crer que estamos tornando suas vidas mais luxuosas, por mais bobo que isso pareça”, afirmou uma observadora da degustação de vinho, Nicole Gounalis, doutoranda de língua italiana da Universidade Stanford.

Ela acompanhou o fracasso da degustação de vinho, mas afirmou que compraria a bebida mesmo assim para seus dois gatos, Dez e Ember.

“Você imagina um universo alternativo, no qual os gatos vivem versões miniaturas do que a gente faz”, afirmou.

Sarah Davidian, 34 anos, técnica veterinária que visitava o café, disse ter lido resenhas ambíguas na internet sobre o produto, mas não conseguiu resistir e comprou o Purrgundy, da Pet Winery, para o jantar de comemoração de um ano de aniversário de sua amiga com um gato, Jimmy. Elas planejavam um jantar mexicano para cinco pessoas, “sem contar o Jimmy”, conta Davidian, observando que a refeição foi escolhida porque o bichano adora tortilhas.

Dois dias depois da degustação de vinho que realizei, Davidian me enviou uma mensagem de texto dizendo que a amiga deixou Jimmy experimentar o Purrgundy. Ele “gostou bastante e tirou uma longa soneca. Agora vou ter que comprar uma caixa para ele”.

Nem todos os gatos se sentem atraídos por catnip ou bebidas aromatizadas.

“Na natureza, os gatos não bebem muito – 75 por cento da hidratação vêm dos alimentos”, afirma Jackson Galaxy, apresentador e produtor de “Meu Gato Endiabrado”, do Animal Planet.

Vinhos para gatos “são bobagem, mas se eles aproximarem gatos e pessoas, então não são de todo ruim”.

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