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Apresentado por CNI

“Brasil não será mais apenas exportador de commodities”, diz presidente da CNI

Durante o Brasil-US Industry Day, em Nova York, Ricardo Alban defendeu a integração industrial com os EUA em meio à corrida global por IA, energia e minerais críticos

Brasil–U.S. Industry Day, em NY: Ricardo Alban, da CNI, fez a abertura ao lado de John Murphy, da U.S. Chamber of Commerce  (IANO ANDRADE/Divulgação)

Brasil–U.S. Industry Day, em NY: Ricardo Alban, da CNI, fez a abertura ao lado de John Murphy, da U.S. Chamber of Commerce (IANO ANDRADE/Divulgação)

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Publicado em 19 de maio de 2026 às 15h56.

Última atualização em 19 de maio de 2026 às 15h56.

Pela primeira vez, a indústria brasileira ganhou um espaço próprio e estratégico dentro da Brazil Week, em Nova York. No The Glasshouse, em Manhattan, mais de 400 executivos, investidores, autoridades e representantes de algumas das maiores companhias brasileiras e americanas participaram da primeira edição do Brasil–U.S. Industry Day para discutir como aprofundar uma relação econômica que já movimenta mais de US$ 80 bilhões por ano.

Promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a U.S. Chamber of Commerce, o encontro aconteceu em um momento no qual inteligência artificial, data centers, transição energética e minerais críticos passaram a redefinir prioridades globais de investimento, competitividade e segurança econômica.

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O evento também marcou os 50 anos do Conselho Empresarial Brasil–Estados Unidos, criado para aproximar o setor privado dos dois países. Hoje, os EUA seguem como principal destino das exportações brasileiras de maior intensidade tecnológica e maior origem de investimentos estrangeiros diretos no Brasil. Na direção oposta, os investimentos brasileiros em território americano cresceram 80,7% na última década e já alcançam 23 estados.

A relevância da parceria aparece também nos efeitos sobre a economia brasileira. A cada R$ 1 bilhão exportado do Brasil para os Estados Unidos, são gerados cerca de 24,3 mil empregos, além de R$ 531,8 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção.

"“O Brasil não será mais um único e exclusivo exportador de commodities. Nós vamos agregar valor com os parceiros, buscando complementariedade"Ricardo

Os desafios pós-tarifaço

Apesar do clima de otimismo predominante no encontro, os impactos recentes das medidas tarifárias americanas apareceram de forma recorrente nas conversas entre empresários e executivos.

Em 2025, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 6,7%, somando US$ 37,7 bilhões, em um movimento pressionado principalmente pela queda de preços e pelos efeitos das novas tarifas sobre setores industriais.

Presidente da CNI, Ricardo Alban destacou que a indústria brasileira precisou reagir rapidamente às mudanças no cenário comercial. Segundo levantamento da confederação, 53% das empresas afetadas buscaram negociações diretas com parceiros, fornecedores e clientes americanos para reduzir os impactos das tarifas, enquanto 47% recorreram à articulação institucional. “Esses episódios reforçam a necessidade de avançarmos na construção de uma relação bilateral mais previsível, equilibrada e com maior integração produtiva”, afirmou Alban.

O presidente da CNI também defendeu que a próxima etapa da relação bilateral dependa menos da lógica tradicional de exportação de commodities e mais da construção conjunta de cadeias industriais sofisticadas e de maior valor agregado. “Definitivamente, o Brasil não será mais um único e exclusivo exportador de commodities. Nós vamos agregar valor com os parceiros, buscando complementariedade”, disse.

"A cada R$ 1 bilhão exportado do Brasil para os Estados Unidos, são gerados cerca de 24,3 mil empregos"

John Murphy, vice-presidente e diretor internacional da U.S. Chamber of Commerce, afirmou que a relação entre os dois países atravessa um momento de reorganização, mas ressaltou que o setor privado continuará exercendo papel central na manutenção da integração econômica. “Se os 50 anos do Conselho Empresarial Brasil–Estados Unidos nos ensinaram alguma coisa, é que tanto os bons quanto os maus momentos exigem a participação do setor privado.”

Minerais críticos, IA e infraestrutura

O primeiro painel do Brasil–U.S. Industry Day mostrou como minerais estratégicos, inteligência artificial e infraestrutura passaram a ocupar posição central na disputa econômica global.

Sami Arap, vice-presidente executivo da Vale, defendeu que a mineração deixou de ser apenas um tema industrial para se tornar uma questão de segurança nacional diante da explosão de demanda provocada por eletrificação, data centers, inteligência artificial e transição energética.

A companhia destacou ainda o potencial brasileiro em minério de ferro de alta qualidade, cobre e níquel — insumos considerados essenciais para infraestrutura energética, baterias, IA e tecnologia avançada. “Não estamos procurando apenas compradores. Estamos procurando parceiros de longo prazo”, disse Arap.

Prioridades para o fortalecimento econômico Brasil-EUA: painel reuniu executivos de PepsiCo, Vale, Gerdau, Merck e Dow (IANO ANDRADE/Divulgação)

O painel também deixou claro que a expansão da inteligência artificial dependerá não apenas de software e chips, mas de uma enorme cadeia física envolvendo energia, aço, cobre, infraestrutura e capacidade industrial.

A digitalização apareceu como um eixo transversal do debate. “A tecnologia digital está transformando toda a cadeia de valor”, afirmou Athina Kanioura, CEO da PepsiCo Latin America Foods.

Segundo a executiva, sustentabilidade, produtividade e tecnologia passaram a caminhar juntas dentro da indústria global de alimentos. Nesse contexto, agricultura regenerativa, rastreabilidade e eficiência operacional deixaram de ser apenas metas ambientais para se tornarem fatores de competitividade industrial. “Não existe indústria alimentícia responsável sem cuidado com o meio ambiente”, disse.

Kanioura também defendeu regulações mais previsíveis e alinhadas à ciência para estimular investimentos de longo prazo e integração produtiva entre os países.

A área de saúde apareceu como outro eixo importante da cooperação bilateral. Jenelle Krishnamoorthy, vice-presidente sênior da Merck, afirmou que inovação farmacêutica e biotecnologia dependem cada vez mais de colaboração internacional entre governos, universidades e empresas privadas. “Não queremos atrasar a inovação. Precisamos de uma abordagem regulatória baseada em risco, que permita acesso rápido a medicamentos e vacinas.”

Financiando o futuro: moderado pelo embaixador Roberto de Azevêdo, painel sobre oportunidades de investimento no Brasil contou com a participação de representantes do Bank of America, da 9G Consulting and Advisory Services, do BNDES, do BID e do TCU (IANO ANDRADE/Divulgação)

Capital privado, indústria verde e o desafio da previsibilidade

O segundo painel do encontro teve como foco financiamento, infraestrutura e neoindustrialização verde. A percepção compartilhada entre executivos, bancos multilaterais e investidores foi a de que existe capital global disponível para projetos ligados à transição energética, indústria e infraestrutura — mas ainda faltam mecanismos capazes de reduzir riscos e ampliar a previsibilidade para destravar investimentos de longo prazo.

Foi nesse contexto que Ilan Goldfajn, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), defendeu um novo modelo de financiamento para projetos estratégicos. “Não há recursos públicos suficientes para financiar o desenvolvimento. Precisamos usar recursos públicos para multiplicar capital privado”, afirmou.

Segundo Alexandre Bettamio, global co-head de Investment Banking do Bank of America, o Brasil reúne vantagens estratégicas relevantes — como mercado consumidor, matriz energética limpa e uma base industrial diversificada —, mas ainda enfrenta desafios ligados à credibilidade fiscal e à volatilidade econômica. “O investidor compra o futuro. E isso começa pela credibilidade”, afirmou.

José Gordon, diretor do BNDES, defendeu que o atual cenário global abre uma oportunidade histórica para o Brasil liderar a chamada neoindustrialização verde. Segundo ele, o banco aprovou mais de R$ 300 bilhões para o setor industrial desde 2023, com foco em inovação, biocombustíveis, motores híbridos e descarbonização. “A indústria voltou ao centro da agenda de desenvolvimento.”

Ao longo do painel, porém, ficou claro que a competitividade industrial hoje depende não apenas de acesso a capital, energia ou tecnologia, mas também da oferta de estabilidade regulatória e segurança jurídica para projetos de longo prazo.

Nesse contexto, Vital do Rêgo, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), defendeu a segurança jurídica como elemento central para ampliar investimentos no país. “Não há investimento sem segurança jurídica”, afirmou.

O ministro chamou atenção para o excesso de judicialização e para o volume de processos que hoje travam projetos estratégicos no Brasil. Segundo ele, milhares de obras e contratos acabam paralisados por disputas regulatórias e insegurança institucional, afetando diretamente a capacidade do país de atrair capital de longo prazo.

Vital do Rêgo afirmou ainda que o TCU vem ampliando mecanismos de mediação e consensualismo para reduzir o chamado “apagão decisório”, que paralisa gestores públicos e investimentos privados. O tribunal, segundo ele, já ajudou a destravar cerca de R$ 180 bilhões em projetos ligados à infraestrutura, logística e concessões.

Maria Luiza Viotti, embaixadora do Brasil nos EUA: “reunião entre Trump e Lula trouxe resultados positivos” (IANO ANDRADE/Divulgação)

Diplomacia econômica ganha protagonismo

Nas considerações finais, a embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, afirmou que o encontro ocorreu em um momento particularmente importante da relação bilateral, poucos dias após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos.

Segundo a diplomata, a reunião entre Lula e Donald Trump aconteceu em “ambiente amistoso” e abriu espaço para o avanço das negociações comerciais e industriais entre os dois países. “Os resultados da visita foram muito positivos e nos dão motivos para otimismo”, afirmou.

Viotti destacou ainda que as equipes técnicas dos governos devem intensificar as negociações nas próximas semanas para ampliar comércio, investimentos e cooperação industrial, além de evitar novas barreiras econômicas.

Paula Bellizia, VP da AWS para a América Latina, durante o Brasil–U.S. Industry Award: executiva foi uma das 18 homenageadas da noite (IANO ANDRADE/Divulgação)

Um prêmio para quem fortalece a relação Brasil-EUA

Além dos debates econômicos, o encontro também marcou a primeira edição do Brasil–U.S. Industry Award, criado para reconhecer empresas, executivos e instituições que contribuíram para fortalecer a integração econômica entre os dois países.

Ao todo, 18 homenageados receberam reconhecimento em três categorias: Integração Econômica Brasil–Estados Unidos, Inovação e Transformação Industrial e Diplomacia Institucional.

Entre os premiados estavam Embraer, Bank of America, JBS, Amazon Web Services, Gerdau, Stefanini, Merck, WEG, BID e Embrapii, além de ex-embaixadores e representantes de instituições ligadas à diplomacia econômica bilateral.

“Não estamos fazendo nada mais, nada menos do que reconhecer o valor de cada empresa aqui homenageada. Vocês vão nos ajudar a construir novos encadeamentos produtivos e cadeias de valor”, afirmou Ricardo Alban. Confira, a seguir, a lista completa dos homenageados:

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