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Laboratório Femme vira 'Fleury da mulher' e chega perto dos R$ 300 milhões

Foco exclusivo na saúde feminina, em governança e qualidade sustentaram três ciclos de crescimento do laboratório paulistano — e atraíram o maior grupo de medicina diagnóstica do país

Rogério Ramires, do Femme: “A venda para o Fleury é o fechamento de um ciclo vitorioso, que nos permite escalar ainda mais o impacto na jornada feminina” (Divulgação/Divulgação)

Rogério Ramires, do Femme: “A venda para o Fleury é o fechamento de um ciclo vitorioso, que nos permite escalar ainda mais o impacto na jornada feminina” (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 13h34.

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Em um setor pressionado por custos, consolidação e perda de qualidade no atendimento, poucos ativos de saúde conseguem crescer sem diluir reputação.

O Femme – Laboratório da Mulher é uma exceção.

Fundado há três décadas e recentemente adquirido pelo Grupo Fleury, o laboratório construiu um modelo próprio de diagnóstico feminino, combinando corpo clínico especializado, experiência pensada para mulheres e escala operacional.

A empresa nasceu antes mesmo de o termo one stop shop, modelo em que todos os serviços são concentrados em um único lugar, entrar no vocabulário da saúde. E cresceu mantendo um posicionamento raro no setor: foco exclusivo na saúde feminina.

Por trás desse modelo está o médico ginecologista e obstetra Rogério Ciarcia Ramires, professor doutor pelo Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da USP. Ele fundou o Femme em 1994, ainda como residente, ao lado do pai, o ginecologista Gerceu Ramires, e do radiologista Décio Roveda Jr.

“O Femme nasceu de uma convicção simples: a saúde da mulher merece um ecossistema integrado, com tecnologia de ponta e empatia genuína”, afirma Ramires.

Por que essa história importa agora?

A venda do Femme para o Grupo Fleury marca o fechamento de um ciclo raro no mercado de saúde: crescimento acelerado, expansão física e preservação de cultura. Nos 12 meses encerrados em 2024, o laboratório registrou receita de R$ 287 milhões. Em 2018, quando recebeu o aporte do fundo internacional L Catterton, faturava cerca de R$ 90 milhões.

No período, saiu de 6 para 17 unidades, distribuídas nas principais regiões da cidade de São Paulo e em Osasco, mantendo indicadores acima da média do setor. O Fleury pagou um enterprise value de R$ 207,5 milhões pela operação.

“A venda para o Fleury é o fechamento de um ciclo vitorioso, que nos permite escalar ainda mais o impacto na jornada feminina”, diz Ramires.

A origem

Formado em Medicina pela PUC de Sorocaba, Ramires fez residência e doutorado na USP. Em paralelo à carreira acadêmica, decidiu empreender. A visão inicial era clara: não fazia sentido que uma mulher realizasse exames ginecológicos em laboratórios diferentes, com experiências fragmentadas e médicos sem especialização direta.

O primeiro núcleo do Femme reunia colposcopia e ultrassonografia. Aos poucos, foram incorporados exames de sangue, mamografia, densitometria óssea e outros métodos de imagem. Em 2000, o projeto ganhou nome, identidade e posicionamento: Femme – Laboratório da Mulher.

A proposta não era apenas médica. O ambiente físico foi desenhado para romper com o padrão hospitalar: salas de estar no lugar de salas de espera, decoração pensada para o público feminino e equipes treinadas para acolhimento.

“O feminino não estava só na especialidade médica, mas no jeito de atender”, afirma Ramires.

Em 2010, o Femme tornou-se o primeiro centro de diagnósticos do Brasil a conquistar o nível máximo da certificação da ONA, Organização Nacional de Acreditação. O padrão foi replicado em todas as unidades ao longo da expansão.

No mesmo período, o laboratório adotou metodologias estruturadas de experiência do cliente, como os Processos de Encantamento da Disney adaptados à saúde, e iniciou um trabalho profundo de definição de propósito, formalizado em 2014.

O ganho de escala

O resultado foi um modelo próprio, batizado internamente de Jeito Femme de Atender. Hoje, o laboratório registra NPS acima de 90% e índice de intenção de retorno de 98%, além de uma rede orgânica de mais de 4.000 ginecologistas fidelizados — cerca de 90% do mercado médico da capital paulista.

A política de encantamento do Femme está integrada à operação. As pacientes são sempre chamadas pelo nome, nunca por números, e atendidas em unidades desenhadas para fugir do padrão hospitalar, com salas de estar, decoração em tons de rosa e roxo, aromaterapia e vestiários aquecidos. Em ocasiões pontuais, há apresentações da Orquestra Femme, com violinistas.

A experiência se apoia em tecnologia de ponta, com equipamentos modernos, coleta domiciliar em São Paulo, acesso digital aos resultados e protocolos para comunicação imediata de achados críticos a médicas e médicos.

Em caso de falhas no atendimento, o laboratório adota pedidos formais de desculpas, incluindo contato direto e envio de flores às clientes, além de iniciativas sociais como a Mamografia do Bem.

“Construímos isso com propósito, conquistando não só mercado, mas confiança duradoura de médicos e pacientes”, afirma Ramires.

A entrada do L Catterton, em 2018, marcou o início do terceiro ciclo da empresa. Com capital e governança reforçada, o Femme acelerou a abertura de unidades full, com exames que vão de análises clínicas a ressonância magnética.

Mesmo durante a pandemia, a empresa manteve crescimento e padrão de qualidade. Em 2023, obteve a certificação B Corp, reconhecimento raro no setor de saúde, que atesta compromisso com impacto social, governança e sustentabilidade.

Esse conjunto de fatores colocou o laboratório no radar de grandes grupos estratégicos do setor.

O que muda agora

Com a aquisição, o Femme passa a integrar o ecossistema do Grupo Fleury, que soma mais de 580 unidades no país. A operação segue com marca própria, modelo preservado e foco exclusivo em saúde feminina.

Ramires permanece ligado ao negócio como senior advisor, com atuação institucional e relacionamento com a classe médica — um dos ativos mais valiosos da companhia.

“Meu compromisso com a saúde da mulher não termina com o Femme; ele evolui”, afirma. “Estamos construindo pontes tecnológicas que transformam o relacionamento médico em soluções mais eficientes, acessíveis e humanas.”

Agora fora da rotina operacional, Ramires diz que pretende concentrar esforços em educação médica, empreendedorismo e uso de tecnologia, especialmente inteligência artificial, para melhorar a relação médico-paciente — um gargalo crescente no setor.

“Todo médico é um empreendedor, mas ninguém ensina isso na faculdade”, afirma. “Existe uma oportunidade enorme de transformar a prática médica sem perder qualidade, ética e propósito.”

Após três décadas, o Femme deixa de ser apenas um laboratório para se tornar um caso raro de construção de marca em saúde — e um ativo estratégico que explica por que o Fleury decidiu apostar na especialização feminina como frente de crescimento.

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