Palestra do historiador Leandro Karnal: FIEC também contou com a apresentação dos empresários João Adibe, CEO da Cimed; e Pedro Lima, presidente do Grupo 3corações (George Lucas/Divulgação)
EXAME Solutions
Publicado em 18 de março de 2026 às 16h24.
Última atualização em 18 de março de 2026 às 16h24.
Longas filas se formavam para acompanhar palestras e desfiles que marcaram a primeira edição da Feira da Indústria da FIEC, realizada no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza. Durante dois dias, o encontro reuniu mais de 110 mil participantes — entre empresários, estudantes e especialistas interessados em conhecer de perto as transformações do setor produtivo.
Promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará, o evento reuniu 39 setores produtivos ligados aos sindicatos industriais do estado e apresentou ao público tecnologias, projetos e tendências que ajudam a desenhar o futuro da indústria brasileira.
Logo na abertura, versos do poeta cearense Bráulio Bessa deram o tom do encontro, destacando a importância histórica e cultural da indústria para o desenvolvimento do estado.
Para Ricardo Cavalcante, presidente da FIEC, a feira representa um antigo projeto da entidade de aproximar a indústria da sociedade. “Logo que assumi a presidência da FIEC, eu tinha o desejo de realizar uma grande feira da indústria, capaz de reunir todos os setores do estado e mostrar à sociedade a força e a vitalidade do nosso setor”, afirmou.
Segundo Cavalcante, o setor industrial é hoje um dos principais motores da economia local. Cerca de 82,6% das exportações do Ceará vêm da indústria, que também responde por aproximadamente 390 mil empregos formais no estado.
O dirigente também destacou que o Ceará vive um momento de expansão industrial, impulsionado pela chegada de novos investimentos e pela consolidação de cadeias produtivas estratégicas.
Um dos projetos mais relevantes é o Polo Automotivo do Ceará, instalado no município de Horizonte, na região metropolitana de Fortaleza. A iniciativa marca a retomada da produção automotiva no estado e inaugura um modelo industrial inédito no país.
A planta, operada pela Planta Automotiva do Ceará (PACE) — controlada pelo Grupo Comexport — funciona como a primeira fábrica multimarcas do Brasil, capaz de produzir veículos de diferentes montadoras.
Entre as empresas participantes está a General Motors, que iniciou no local a produção de dois modelos elétricos da marca no país. A expectativa é que o projeto mobilize cerca de R$ 400 milhões em investimentos e possa gerar até 9 mil empregos diretos e indiretos, ampliando a cadeia automotiva e atraindo fornecedores para a região.
Outro projeto estratégico citado durante o evento é a implantação de um campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará — iniciativa que reforça a aposta em inovação e na formação de mão de obra altamente qualificada.
Segundo Cavalcante, estão sendo investidos R$ 40 milhões na criação de um laboratório — o Instituto SENAI de Inovação — para que o ITA receba e atenda às demandas dos empresários, em uma busca conjunta por soluções para desafios da indústria. “Cerca de 50% dos alunos do ITA são cearenses ou estudaram em colégio cearense; e a gente precisa reter essas pessoas aqui”, destacou o presidente da FIEC.
Além da exposição de empresas e tecnologias, a programação da feira contou com debates sobre economia, inovação e gestão empresarial.
Entre os convidados estavam executivos de grandes empresas brasileiras, como João Adibe, CEO da Cimed, e Pedro Lima, presidente do Grupo 3corações. Adibe falou sobre cultura empresarial e construção de marca no ambiente digital. “As pessoas compram de pessoas. Produto não fala — quem fala são as pessoas”, afirmou.
Segundo ele, inovação também passa por novos modelos de negócio. “Tudo aquilo que rouba margem, a gente tenta internalizar. É assim que conseguimos ganhar eficiência e continuar avançando”, disse.
Já Pedro Lima, presidente do Grupo 3corações, falou sobre a importância de visão estratégica e capacidade de adaptação para o crescimento das empresas. Segundo ele, empreendedores precisam aprender a estruturar seus negócios sem perder o espírito inovador que os fez começar. “Empreendedor precisa virar empresário — mas sem deixar de ser empreendedor”, afirmou.
Outro destaque da programação foi a palestra do historiador Leandro Karnal, que abordou os impactos da tecnologia, da inteligência artificial e das transformações sociais no futuro do trabalho. “A inteligência artificial não é tendência — ela já é realidade. A questão agora é aprender a usar bem”, afirmou.
Karnal também destacou a importância do pensamento crítico em um mundo cada vez mais conectado. “Se você não desenvolver senso crítico, vai ser apenas mais um repetindo informações.”
Além das palestras, a feira reuniu experiências interativas e apresentações que aproximaram o público da indústria de forma mais dinâmica — com robôs, demonstrações tecnológicas e desfiles de moda que representaram diferentes cadeias produtivas do estado.
Outro foco do evento foi a aproximação entre jovens e o setor produtivo. Cerca de 25 mil estudantes de escolas e universidades visitaram a feira. Segundo Dana Nunes, superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL Ceará), a presença dos estudantes foi planejada desde a concepção do evento.
“Fizemos questão de convidar os jovens porque a indústria precisa estar próxima dessa juventude e mostrar as oportunidades que existem nesse setor”, afirmou.
A qualificação profissional também esteve no centro das discussões. Para Paulo André Holanda, diretor regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e superintendente do Serviço Social da Indústria (SESI) no Ceará, o avanço tecnológico exige formação constante.
“Temos condição de melhorar a produtividade das indústrias, especialmente das médias e pequenas empresas, com mais inovação e qualificação profissional”, disse.
Ao final de dois dias de debates, experiências tecnológicas e encontros entre empresários, estudantes e especialistas, a primeira edição da feira deixou uma mensagem clara sobre o momento da indústria brasileira.
Como resumiu Carlos Prado, vice-presidente da FIEC: “O futuro já chegou, e de uma forma muito acelerada. A corrida agora é para ver se a gente consegue acompanhar essa evolução e ir adaptando não só a indústria, como a nossa própria vida, a tudo isso que está acontecendo em termos de desenvolvimento tecnológico.”