Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 07h00.
A rotina dos fundadores da naPorta mudou radicalmente nos últimos anos. Criada durante a pandemia, a startup desenvolveu uma solução logística para levar produtos até dentro das favelas e comunidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, locais onde muitas vezes nem o correio chega.
Com uma operação em expansão, uma base de entregadores locais e clientes como Shopee, o negócio cresceu rápido. Mas agora, o que tira o sono dos sócios Katrine Scomparin e Leonardo Medeiros é o desafio de se tornar referência em logística de impacto, com contratos justos e valor percebido.
Essa tensão está no centro do novo episódio do Choque de Gestão, reality show da EXAME com patrocínio de Santander Empresas e Claro Empresas. A missão do mentor da vez, Sérgio Bocayuva, CEO da Usaflex, foi ajudar os empreendedores a entender o que falta para estruturar uma operação escalável — e ao mesmo tempo reconhecida pelo que realmente entrega.
“Vocês têm um diferencial gigante. Mas sem gestão, esse diferencial não se sustenta. Impacto sem estrutura não escala”, afirmou Bocayuva.
A naPorta nasceu para resolver um gargalo histórico do e-commerce no Brasil: a exclusão geográfica. Ruas não mapeadas, ausência de CEPs e questões de segurança fazem com que transportadoras tradicionais evitem comunidades periféricas. A solução criada pela startup envolve rotas próprias, entregadores locais e tecnologia desenvolvida internamente.
“A gente criou uma ponte entre as marcas e os territórios que sempre foram ignorados pela logística tradicional”, explica Katrine. “Mas muitas vezes somos vistos apenas como uma transportadora. Isso compromete nossa precificação e o valor do que entregamos.”
Para Bocayuva, o problema é claro: a falta de estrutura e chancela faz com que a naPorta acabe inserida na lógica de leilão de fretes, disputando contratos com base apenas em preço — e não em diferencial de operação ou impacto social.
“Vocês vendem muito mais do que serviço. Vocês vendem chancela. Mas o mercado precisa ver isso traduzido em dados, certificações e reputação”, disse o mentor.
A principal recomendação de Bocayuva foi buscar uma certificação de impacto social, capaz de traduzir o diferencial da naPorta em algo tangível para grandes marcas e parceiros.
“As empresas não querem só contratar uma logística. Elas querem associar sua marca a um propósito desde que isso seja validado por alguma entidade reconhecida. A certificação dá força para isso.”
Outra sugestão foi firmar alianças com organizações, líderes sociais e instituições que possam emprestar visibilidade e credibilidade à atuação da naPorta, como forma de diferenciar a marca no mercado e abrir portas fora da lógica de preço.
Além da comunicação de valor, o mentor apontou a necessidade de rever os contratos com grandes clientes, hoje frágeis em termos de SLAs, prazos e cláusulas de penalidade. Hoje, a empresa paga seus entregadores em até 25 dias, mas só recebe dos clientes após 45 — ou mais.
“Se um cliente atrasa, a gente trava a operação”, diz Leonardo. “Isso impacta o caixa, a credibilidade e a relação com os entregadores.”
Para Bocayuva, é essencial profissionalizar a estrutura comercial e jurídica da startup, com contratos mais equilibrados e gestão de risco.
Um dos conselhos mais diretos do episódio foi a entrada de um sócio ou conselheiro com expertise técnica em logística. Segundo Bocayuva, esse perfil pode trazer processos mais maduros, evitar improvisos e acelerar o posicionamento da marca como referência no setor.
“Às vezes o capital humano vale mais do que o financeiro. Alguém com experiência e relacionamentos pode destravar muita coisa — inclusive novos negócios.”
O mentor também destacou a importância de ampliar a visibilidade da empresa: participar de eventos estratégicos, divulgar o trabalho em canais institucionais e mostrar a operação in loco para parceiros potenciais.
“Vocês precisam aparecer. Mostrar para o mercado o que estão fazendo. Porque o que estão construindo é muito maior do que uma entrega.”
A provocação final de Bocayuva aponta para o futuro. E se, em vez de disputar contratos, a naPorta se tornasse o principal canal de entrada para marcas dentro das favelas? Uma espécie de marketplace logístico, com lastro territorial, capilaridade e presença real nos bairros onde ninguém mais chega?
“Hoje vocês são reféns das marcas. Mas e se as marcas tivessem que entrar por vocês? E se vocês fossem o principal e-commerce da favela?”, instigou o mentor.
A ideia empolga, mas exige passos concretos no presente: profissionalizar, comunicar valor, rever contratos, consolidar diferenciais.
“A gente quer crescer, mas sem perder a alma”, disse Katrine. “Agora é entender como fazer isso com mais clareza, eficiência e estrutura.”
A boa notícia? Como mostra o episódio, os caminhos existem. O próximo passo é transformar propósito em modelo de negócio e mostrar que logística de impacto também pode ser referência de excelência.