Brazil House em Davos, na Suíça: mediado por André Portilho, sócio do BTG Pactual, painel reuniu Arthur Freitas e Bruno Henriques, do iFood (BRAZIL HOUSE 2026/Divulgação)
EXAME Solutions
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 15h32.
Na prática, todo brasileiro já sabe pedir comida pelo celular. O que nem todo mundo percebe é que, por trás do pedido de um hambúrguer ou de um sushi, o iFood vem construindo algo bem maior. Foi essa mudança de escala — menos visível para o consumidor final — que a empresa levou à Brazil House, em Davos, durante o painel “iFood Pago: transformando o delivery de comida em um ecossistema de inovação e impacto”, mediado por André Portilho, sócio do BTG Pactual.
No centro da conversa estiveram duas frentes estratégicas: o avanço do iFood Pago, braço financeiro do grupo, e a consolidação do iFood Benefícios, operação que vem reposicionando um dos mercados mais tradicionais do país. Juntas, elas ajudam a explicar como o aplicativo de delivery começa a se firmar como uma infraestrutura de negócios.
Segundo Bruno Henriques, COO do iFood e CEO do iFood Pago, a lógica por trás dessa expansão sempre esteve presente desde o início da empresa: a frequência. “O iFood começou com delivery por um motivo muito simples: as pessoas comem todos os dias, três vezes por dia. Isso nos dá 90 oportunidades por mês de estar presentes”, afirmou.
Hoje, a escala da operação dá uma dimensão dessa estratégia. A plataforma reúne cerca de 65 milhões de consumidores, processa 180 milhões de pedidos por mês, conecta mais de 500 mil restaurantes e aproximadamente 600 mil entregadores em todo o país.
A partir dessa base recorrente, o iFood passou a expandir para outras categorias — como mercado, farmácia e pet shops — mantendo a promessa de valor. “As pessoas estavam acostumadas a esperar três dias no e-commerce, depois um dia, depois no mesmo dia. Agora, entregamos tudo em até 30 minutos. Essa é a principal razão pela qual existimos”, disse Henriques.
Bruno Henriques, COO do iFood e CEO do iFood Pago: plataforma registra 180 milhões de pedidos por mês (BRAZIL HOUSE 2026/Divulgação)
A entrada no setor financeiro não partiu de uma ambição bancária tradicional. Veio da observação cotidiana de um gargalo estrutural: a dificuldade de pequenos restaurantes em acessar crédito.
“Percebemos que ninguém estava olhando de verdade para esses pequenos empreendedores. Faltavam dados para avaliar o desempenho real dos negócios. Criamos o iFood Pago para ajudá-los a crescer por meio de produtos financeiros”, explicou o executivo.
Hoje, o iFood Pago soma mais de 200 mil contas digitais ativas e, nos últimos dois anos, já concedeu cerca de US$ 500 milhões em crédito aos restaurantes da plataforma. O crescimento, porém, veio com cautela.
“Nunca esquecemos quem somos. Somos uma empresa de varejo antes de sermos uma fintech. Tudo o que fazemos precisa ter uma proposta de valor clara. Se os restaurantes crescem, o iFood cresce”, afirmou Henriques.
O modelo de crédito do iFood também rompe com a lógica bancária convencional. Em vez de se apoiar apenas em histórico financeiro e score, a empresa analisa dados operacionais gerados dentro do próprio marketplace.
“A gente modela risco entendendo a demanda. A métrica de ouro é a retenção de clientes. Se o consumidor volta, aquele restaurante tende a crescer — mesmo que um score tradicional diga o contrário”, explicou Henriques.
O resultado aparece nos indicadores: cerca de 80% dos restaurantes que tomaram crédito com o iFood relatam estar em situação melhor do que antes, segundo pesquisa interna apresentada no painel.
Arthur Freitas, CEO do iFood Benefícios: desafio de tornar acesso ao VR e ao VA mais digital e democrático (BRAZIL HOUSE 2026/Divulgação)
À frente do iFood Benefícios, Arthur Freitas explicou como a empresa decidiu atacar um dos mercados mais engessados do país: o de vale-refeição e vale-alimentação, estimado entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões por ano.
“É um mercado historicamente offline, pouco flexível e pouco amigável para o usuário. Nosso foco foi torná-lo mais digital, mais democrático e mais simples”, afirmou.
O impacto aparece diretamente no comportamento do consumidor. Usuários que utilizam o iFood Benefícios passam a gastar mais dentro do app. “Quando uma pessoa tem o cartão do iFood Benefícios, vemos um aumento de cerca de 30% no volume de transações dentro da plataforma”, disse Freitas.
Se os dados são a base do ecossistema, a inteligência artificial virou o motor de crescimento. O iFood vem investindo em agentes automatizados e novos modelos de linguagem para escalar operações internas e comerciais.
“Estamos pedindo que cada funcionário construa pelo menos um agente. Nossa meta é ter mais de 8 mil agentes ativos até o fim do ano fiscal”, contou Henriques.
No iFood Benefícios, isso já se traduz em vantagem competitiva. Um agente de IA que opera 24 horas por dia é capaz de esclarecer dúvidas e fechar contratos com pequenas empresas sem intervenção humana. “Achávamos que a conversão seria menor, mas aconteceu o contrário. O agente responde na hora. Quando entra um humano, sempre existe algum atraso”, afirmou Freitas.
Inspirado por modelos chineses como WeChat e Alipay, o iFood observa de perto o conceito de super app — mas sem replicar fórmulas. “Tudo o que vemos na China precisa ser traduzido para a realidade brasileira. Os hábitos aqui são diferentes”, disse Henriques.
Em um mercado cada vez mais competitivo, com rivais locais e novos entrantes internacionais, a estratégia é seguir inovando. “Concorrência é positiva. Quando um competidor chega, ele te acorda. E aí você precisa ser melhor do que era ontem”, afirmou.
No fim das contas, o que alimenta o futuro do iFood já não é apenas comida. É a combinação de frequência, dados, crédito e tecnologia, processada diariamente em escala nacional. Em Davos, a empresa deixou claro que a cozinha ficou pequena para o tamanho da sua ambição.