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Como a Renner usa inteligência artificial para vender mais — e reduzir filas nas lojas

De fotos geradas por IA a provador virtual, varejista integra tecnologia ao dia a dia do cliente

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 28 de março de 2026 às 09h54.

Última atualização em 28 de março de 2026 às 15h30.

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Um bebê que não existe — mas veste a roupa, mostra o caimento e ajuda a vender mais.

Esse tipo de imagem já faz parte do catálogo infantil da Renner. A varejista passou a usar inteligência artificial para gerar fotos realistas de crianças usando seus produtos. O resultado: aumento de mais de 60% no acesso — e na conversão — desses itens.

A Renner, uma das maiores varejistas de moda do país, vem incorporando inteligência artificial em diferentes partes da operação, da criação de coleção à experiência no app. A frente é liderada por Flávio Reis, CDO (chief digital officer), responsável pelo canal digital da unidade de negócio da Renner.

A discussão ganhou espaço no South Summit, em Porto Alegre, onde o executivo detalhou como a empresa tem aplicado IA no dia a dia — e por que o foco não está em substituir pessoas.

“A gente tem usado muito IA para aumentar a capacidade dos nossos times e para fazer coisas que antes não eram possíveis. Esse exemplo do conteúdo infantil é algo que simplesmente não dava para fazer sem tecnologia”, firmou em entrevista à EXAME no South Summit Brasil.

O próximo passo, segundo ele, é ampliar esses usos mantendo o humano no centro da operação.

Fotos sem crianças — e com mais diversidade

O uso mais visível da inteligência artificial hoje está no catálogo infantil.

Produzir esse tipo de conteúdo sempre foi um problema operacional. Sessões de fotos com bebês e crianças são longas, exigem estrutura e nem sempre geram variedade suficiente.

Com IA, a empresa passou a criar imagens realistas com diferentes perfis.

“É muito difícil tirar foto de criança. Você precisa de estrutura, tempo, e ainda assim é difícil ter diversidade. Com a IA, a gente consegue gerar diferentes tipos de bebê, diferentes biotipos, cores, e mostrar o produto de forma muito mais próxima da realidade”, diz.

A tecnologia permite mostrar a mesma peça em vários perfis. Isso ajuda o cliente a entender melhor o produto — e aumenta a chance de compra.

“Antes, muitas vezes o cliente via só a foto do produto e não conseguia imaginar como aquilo ficava no corpo de uma criança. Agora ele consegue ver isso de forma muito mais realista”, afirma.

IA no “varejo raiz”

A aplicação da tecnologia não começa no marketing.

No chamado “varejo raiz”, a inteligência artificial é usada para prever demanda, identificar tendências e distribuir produtos.

“Hoje a gente usa algoritmos para identificar tendências muito rápido. Antes isso dependia de pessoas olhando desfile, revista, rede social. Agora a gente consegue capturar isso quase em tempo real”, diz.

A mesma lógica vale para a logística.

A empresa usa dados para ajustar o estoque por região — com diferenças entre estados e até cidades.

“Você tem microtendências. Um produto pode performar melhor no Nordeste do que no Sudeste. A gente usa IA para entender isso e colocar o produto certo, na quantidade certa, no lugar certo”, afirma.

O provador no celular

Outro ponto de uso da IA está na experiência digital.

A empresa criou um provador virtual dentro do aplicativo. O cliente envia uma foto e vê como a roupa ficaria no próprio corpo.

“Quando você vai na loja física, você prova a roupa. No digital isso não existia. Agora a gente consegue trazer essa experiência para o celular”, diz.

Segundo Reis, quem usa a ferramenta compra mais.

“O cliente consegue se ver usando o produto. Isso aumenta a conversão em relação a quem não usa”, afirma.

Menos fila, mais integração

A digitalização também chegou às lojas físicas.

A empresa implementou autoatendimento, compra pelo aplicativo dentro da loja e integração de estoques.

Hoje, um cliente pode comprar uma peça que não está disponível naquela unidade e receber em casa no dia seguinte, em uma única transação.

“Fila sempre foi uma dor do cliente. A gente usou tecnologia para resolver isso, com autoatendimento e compra pelo celular dentro da loja”, diz.

Nos bastidores, os funcionários também passaram a operar com aplicativos para tarefas como reposição e precificação.

IA como ferramenta — não substituição

Apesar da automação, a empresa mantém o foco nas pessoas.

“O humano continua sendo o centro. O varejo existe para atender pessoas. A tecnologia vem para aumentar a capacidade, não para substituir”, afirma.

Na prática, isso significa liberar tempo das equipes.

“Quando você aumenta a produtividade, as pessoas conseguem fazer mais em menos tempo e passam a ter espaço para pensar, inovar e melhorar o que fazem”, diz.

A empresa também criou programas internos para treinar funcionários no uso de tecnologia e IA.

O que muda no perfil do time

Com mais tecnologia, o perfil de contratação também muda.

Para Reis, três pontos ganharam peso: curiosidade, capacidade de aprender e trabalho em equipe.

“O mais importante hoje é a capacidade de aprendizado. A tecnologia muda o tempo todo. Quem não estiver disposto a aprender, fica para trás”, afirma.

Ele também destaca a necessidade de testar novas ideias dentro da empresa.

“A tecnologia aumenta a capacidade. Mas se a pessoa não souber o que fazer com isso, não acontece nada. Por isso o empreendedorismo dentro da empresa é importante”, diz.

E reforça que inovação não acontece de forma isolada.

“Nada disso é feito sozinho. Se você acha que tecnologia resolve tudo sozinha, está errado. É trabalho em equipe o tempo todo”, afirma.

A história do South Summit

Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores.

O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.

Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.

A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.

Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.

A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.

Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.

A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.

A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.

Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.

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