Cinco para um: a vez dos usados

Sabe aquele amigo que optou por comprar um carro usado e mais completo? E aquele outro conhecido que decidiu gastar menos e comprar um carro mais rodado mesmo? Esse tipo de comportamento é cada vez mais comum no mercado brasileiro – e não só por conta da crise. Enquanto o mercado de novos caiu 25,4% até junho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2015, o volume de seminovos (com até três anos de uso) cresceu 23,2% no mesmo intervalo, de acordo com dados divulgados nesta segunda-feira.

Nos primeiros seis meses de 2016 vendeu-se praticamente cinco carros usados para cada veículo zero quilômetro, segundo dados da Fenabrave, entidade que representa as concessionárias de veículos. Foram 984.600 novos e 4,5 milhões de usados no período. A correlação entre os mercados, de 5 para 1, nunca foi tão alta – e além de refletir a queda das vendas de novos, assinala uma mudança de perfil do consumidor.

Desde o começo da década, a média foi de 2,6 carros usados para cada carro novo. “Mercados consolidados como a Europa e Estados Unidos têm um índice de correlação de 3, considerado saudável”, explica Valdner Papa, consultor do setor automotivo e professor das faculdades Dom Cabral e ESPM.

O primeiro fator que explica esse fenômeno é a mudança de mix de produtos. Os chamados carro de entrada, com valor de até 40.000 reais, detinham participação de cerca de 50% nas vendas há três anos. Hoje eles não chegam a 10% do total. Em busca de rentabilidade, as montadoras migraram seus lançamentos para um segmento superior.

Entre os últimos lançamentos do segmento de entrada estão Ford Ka, Chevrolet Ônix, Hyundai HB20, Volkswagen Up! e Fiat Mobi, apenas os dois últimos com preços de entrada abaixo da faixa de 40.000. “É quase missão impossível achar um carro zero por menos de 45.000”, diz Papa.

Sendo assim, os consumidores dessa faixa, que são extremamente dependentes de crédito, ficaram com duas opções: gastar mais e fazer uma dívida maior ou optar por um seminovo, muitas vezes mais completo e com uma quilometragem aceitável.

“Semi-novos” são os carros com até três anos de uso, período em que o preço pode cair até 30%, em decorrência do fim do período de garantia de fábrica. “Em contrapartida é a fase em que o veículo ainda está em boas condições e com quilometragem baixa”, afirma Leandro Mattos, consultor financeiro independente. “Além disso, o financiamento para usados tem menos restrições.”

Novos negócios

De olho nessa debandada em direção aos carros seminovos, a Volkswagen – líder na venda de usados com 23% do mercado – está implantando um projeto-piloto em sua rede de concessionárias. Segundo o presidente da Assobrav (Associação dos Concessionários Volkswagen), Luis Eduardo Guião, a marca quer turbinar os ganhos com esse novo cenário. “A montadora está oferecendo mais um ano de garantia nos veículos da marca, além de benefícios na hora do financiamento”, diz. Até o final do ano, as 600 concessionárias da fabricante alemã terão os planos especiais.

Apesar da penúria nas vendas de carros zero quilômetro, os concessionários têm conseguido compensar com os usados, que podem ter uma rentabilidade ainda maior. “Os novos vêm com margens estabelecidas pela montadora, já nos usados quem dita os preços é a lei da oferta e demanda”, diz Guião. Para ele, a tendência é que as outras fabricantes sigam o mesmo caminho da Volkswagen. “Não dá para ignorar um mercado tão grande assim”, diz.

A maior concorrência das concessionárias está num mercado impulsionado pela crise: os sites de venda de usados. É o caso da startup InstaCarro, que promete vender seminovos em até uma hora por meio de um leilão online com oferta para 400 lojas e concessionárias do Brasil. Funciona, desde que o cliente esteja disposto a aceitar um preço muitas vezes bem abaixo da tabela tradicional. Consultorias que avaliam as condições dos veículos também estão em alta. Empresas como a Perito Automotivo e Personal Car ganharam destaque por investigar os seminovos para seus clientes.

Como as previsões mais otimistas são de que o mercado de novos só volte a seus melhores números dentro de uns três anos, há tempo e espaço para muita gente ganhar dinheiro com a febre dos usados no Brasil.

(Michele Loureiro)

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