Isabel Braga, fundadora da BoGo: “Só nos Estados Unidos, são mais de 700 bilhões de dólares em produtos devolvidos. É um estoque parado que poderia voltar a gerar receita”
Repórter
Publicado em 1 de abril de 2026 às 08h28.
Transformar produtos parados em novas fontes de receita é a proposta da BoGo, uma plataforma que permite a empresas vender, alugar, revender ou assinar um mesmo item ao longo do tempo.
A startup brasileira atua como uma infraestrutura para negócios que querem operar na economia circular, mas esbarram na complexidade técnica e operacional desse modelo.
Na prática, acaba criando um modelo de varejo em que a venda deixa de ser a única opção possível. A ambição é transformar produtos em ativos recorrentes, e não em transações únicas.
“Só nos Estados Unidos, são mais de 700 bilhões de dólares em produtos devolvidos. É um estoque parado que poderia voltar a gerar receita”, diz a fundadora Isabel Braga.
Empreendendo desde 2012, Braga atuou em diferentes frentes, de moda a consultoria, até criar a BoBags, uma das primeiras plataformas no Brasil a integrar aluguel e revenda. A virada veio de uma percepção pessoal: desde jovem, já via vantagem em comprar peças usadas para acessar produtos melhores pelo mesmo preço.
Foram mais de dez anos operando esse modelo até que ela identificasse o principal gargalo do setor. A dificuldade não estava em convencer o consumidor, mas em sustentar a operação — especialmente quando cada item é único e exige controle individual, logística reversa e múltiplos ciclos de uso.
Modelos como resale, revenda de produtos usados, aluguel e assinatura exigem uma lógica diferente do e-commerce tradicional. Em vez de estoque padronizado, há itens únicos; em vez de uma venda linear, há múltiplos fluxos; no lugar de uma entrega simples, entram contratos, recorrência e gestão de qualidade.
É nesse contexto que a BoGo se apresenta como uma espécie de “e-commerce ampliado”. A plataforma integra venda, revenda, aluguel, assinatura e serviços em um único sistema, evitando que empresas dependam de múltiplos softwares e integrações improvisadas.
Para o consumidor final, é a chance de economizar. “O que move o cliente ainda é o bolso”, afirma. Comprar usado pode significar acessar produtos melhores, e alugar reduz o custo de acesso.
A estratégia da empresa começa longe das grandes corporações. O foco inicial está em pequenos empreendedores e negócios que já operam de forma híbrida, muitas vezes de maneira manual.
A BoGo deve encerrar o ano com cerca de 100 operações ativas na plataforma, partindo de pouco mais de 20 clientes no início de 2026. A tecnologia acaba resolvendo gargalos operacionais que impedem esses negócios de crescer.
Brechós que vendem via redes sociais passam a ter controle de estoque individualizado e pagamentos automatizados; operações de aluguel ganham sistemas de gestão de contratos, devoluções e cobrança; negócios de assinatura conseguem estruturar recorrência com previsibilidade financeira.
Alguns exemplos de clientes são:
Empreendedores independentes têm estruturado, por exemplo, negócios de aluguel e revenda de roupas infantis, explorando o curto ciclo de uso dessas peças para gerar recorrência.
Há ainda aplicações em segmentos menos óbvios, como aluguel de equipamentos, quadras esportivas e serviços. O padrão é o mesmo: aumentar o número de usos de um mesmo ativo e capturar valor ao longo do tempo.