CEO do Grupo BITTENCOURT
Publicado em 16 de junho de 2026 às 08h08.
Observar o varejo chinês é perceber que algumas das fronteiras tradicionais entre produto, marca, entretenimento e propriedade intelectual estão desaparecendo.
Quando a loja atua como mídia, espaço de convivência, plataforma de conteúdo e ambiente de ativação de marca, o resultado é um modelo em que o consumo passa a fazer parte de um ecossistema mais amplo de relacionamento e geração de valor que vai muito além da transação.
É o que se chama shoppertainment, uma estratégia que combina compra e entretenimento para transformar o ato de consumir em uma experiência mais envolvente, participativa e memorável.
Mas limitar essa discussão ao entretenimento seria simplificar demais o fenômeno.
O que se observa na China é algo mais sofisticado. Em muitas marcas, experiência, comunidade, conteúdo, consumo e propriedade intelectual operam de forma integrada, criando possibilidades de crescimento muito além da venda do produto original.
Cores, formas, personagens, tecnologia, cenografia, embalagens especiais e ambientações imersivas fazem parte da experiência de consumo de maneira natural. Mesmo lojas voltadas à venda de água, doces, souvenirs ou produtos de conveniência podem ser concebidas como pequenos espetáculos urbanos.
A relevância da experiência no varejo já não está em discussão. O que chama atenção na China é outra questão: a experiência deixou de ser apenas um mecanismo de engajamento para se tornar uma ferramenta de expansão de marca.
Em muitos casos, ela funciona como uma ponte entre consumo, comunidade, conteúdo e propriedade intelectual.
Um exemplo emblemático é a White Rabbit, marca conhecida por uma bala que faz parte da memória afetiva de diferentes gerações chinesas.

O produto original continua existindo, mas deixou de ser o único protagonista da história. A marca expandiu seu universo para cafés, bebidas lácteas, sorvetes, chocolates, cookies, presentes, pelúcias, itens colecionáveis, embalagens especiais e espaços desenhados para interação e registro fotográfico.
O consumidor entra pela nostalgia, mas encontra uma operação estruturada para ampliar desejo, relacionamento e recorrência.
À primeira vista, pode parecer apenas um caso bem-sucedido de experiência de marca. Mas talvez essa não seja a leitura mais interessante.
O que a White Rabbit construiu não é apenas uma operação de varejo envolvente. É uma plataforma de exploração de propriedade intelectual.
A bala original continua sendo o ativo fundador, mas o crescimento da marca acontece pela capacidade de expandir seus símbolos, sua identidade visual, sua memória afetiva e seus códigos de reconhecimento para diferentes categorias e experiências.
O ativo mais valioso da marca não está necessariamente no produto físico, mas no conjunto de significados que o consumidor associa a ele.
É justamente por isso que muitas operações chinesas vão além da simples criação de experiências divertidas. O entretenimento funciona como um mecanismo de ativação de propriedade intelectual.
Cada espaço instagramável, item colecionável, embalagem especial, colaboração ou experiência temática reforça a conexão emocional com a marca e amplia as possibilidades de monetização de seus ativos intangíveis.
Na prática, o consumidor não compra apenas um produto. Ele compra uma história, uma lembrança, uma identidade e um sentimento de pertencimento.
Essa lógica ajuda a explicar um aspecto frequentemente negligenciado quando se observa o varejo chinês: a importância estratégica atribuída à propriedade intelectual.
Diferentemente da visão tradicional, que associa propriedade intelectual principalmente à proteção jurídica, muitas empresas chinesas a enxergam como uma plataforma de crescimento.
Segundo a China National Intellectual Property Administration (CNIPA), o país concedeu 972 mil patentes de invenção em 2025, além de registrar 4,2 milhões de marcas.
Também foram concedidas mais de 660 mil patentes de design e quase 1,5 milhão de modelos de utilidade.
Ainda que as metodologias de mensuração variem entre países, os números ajudam a revelar a escala com que ativos intangíveis são tratados no mercado chinês.
Personagens, embalagens, símbolos, formatos, estética, narrativas e elementos de reconhecimento são concebidos não apenas para diferenciar produtos, mas para gerar desdobramentos em novas categorias, experiências, licenciamentos, ambientações, collabs, conteúdos, presentes e itens colecionáveis.
Sob essa perspectiva, o shoppertainment deixa de ser apenas uma estratégia de encantamento. Ele se torna uma ferramenta de expansão da propriedade intelectual.
A experiência atrai o consumidor, mas o que sustenta o crescimento de longo prazo é a capacidade de transformar reconhecimento de marca em ativos replicáveis, escaláveis e monetizáveis.
Por isso, a cauda longa não nasce apenas da ampliação do portfólio. Ela nasce da capacidade de organizar, proteger e explorar ativos intangíveis em múltiplos formatos.
A White Rabbit mostra como um produto icônico pode deixar de ser apenas um item de compra e se transformar em uma plataforma de experiências, categorias e relacionamento.
A marca não abandona sua origem. Ao contrário. Ela utiliza sua herança como ponto de partida para criar ocasiões de consumo e novas formas de conexão com o público.
O aprendizado para empresas brasileiras está justamente nessa capacidade de olhar para seus próprios ativos de marca.
Produtos, histórias, símbolos, códigos visuais e memórias podem ganhar novas expressões quando conectados à curadoria, ambientação, comunidade e novos formatos comerciais.
A provocação não é sobre construir experiências grandiosas ou altamente tecnológicas.
A pergunta talvez seja outra: quais ativos já existem na história da marca e ainda não estão sendo plenamente explorados?
A lógica também aparece nas operações da Instax, da Fujifilm.
O que está sendo fortalecido nas lojas não é apenas a venda de câmeras instantâneas. A marca amplia o valor de um ritual, de uma estética e de uma forma específica de interação com a fotografia.
Ao fazer isso, constrói uma comunidade que valoriza a imagem impressa, a personalização e a possibilidade de transformar momentos cotidianos em lembranças tangíveis.
A Instax não aparece apenas como câmera ou fotografia impressa. O espaço transforma a imagem em ritual de consumo: registrar, imprimir, personalizar, guardar e compartilhar.
É uma experiência que reconecta o consumidor ao valor emocional da fotografia física em um contexto dominado pelo digital.
Mais uma vez, o que está sendo comercializado vai além do produto. A marca fortalece um repertório simbólico capaz de gerar pertencimento, recorrência e novas oportunidades de consumo.
Observar a China permite entender que consumo, entretenimento, comunidade e propriedade intelectual estão cada vez mais integrados.
A loja deixa de ser apenas canal.
Talvez a principal provocação que emerge da China não seja sobre entretenimento no varejo.
Ela está na capacidade de transformar ativos intangíveis em plataformas de crescimento.
Personagens, símbolos, embalagens, histórias, rituais, memórias e comunidades deixam de atuar apenas como elementos de comunicação e passam a funcionar como ativos econômicos capazes de gerar novas categorias, experiências, conteúdos, licenciamentos e fontes de receita.
Nesse contexto, o shoppertainment não é o objetivo final. Ele é o mecanismo que conecta esses ativos ao consumidor.
Mais do que criar experiências memoráveis, as marcas mais bem-sucedidas são aquelas que conseguem transformar reconhecimento em relevância contínua, relevância em relacionamento e relacionamento em crescimento sustentável.