Drielle Sasaki, à frente da Amazônia Zen: “O medo não é sinal para desistir e, sim, de que você está avançando rumo a algo maior."
Jornalista especializada em carreira, RH e negócios
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 16h11.
A COP30 não movimentou apenas a agenda climática. Impulsionou a visibilidade de negócios amazonenses e ampliou o interesse por produtos que traduzem a estética e a cultura da região. Nesse contexto, a Amazônia Zen ganhou projeção nacional ao transformar moda sustentável em identidade territorial. Com crescimento anual em torno de 40%, produz peças feitas com algodão e fibras de garrafa PET reciclada. Cada modelo incorpora diferentes quantidades do material: são, em média, duas unidades por camiseta e até nove por vestido. Fundada em 2005 e reposicionada a partir de 2019, quando a paraense Drielle Sasaki assumiu o comando, a empresa ganhou os holofotes ao unir design, consciência ambiental, valorização cultural e geração de renda local, com uma cadeia produtiva que envolve costureiras, artistas e fornecedores.
Atualmente, são vendidas de 2.000 a 3.500 peças em todo o Brasil, com maior concentração de pedidos no Pará, Amazonas, Maranhão, Amapá, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal.
A preparação do estado para receber a conferência funcionou como um catalisador no negócio que, nos últimos anos, investiu em treinamento da equipe, cursos de atendimento e inglês, remodelação de lojas e fortalecimento da estética amazônida nas coleções. A marca participou do desfile “En-Zone COP 30: Biomas em Movimento”, organizado pelo Sebrae-PA, que apresentou 85 looks de 15 grifes. A passarela levou a narrativa a um público nacional e internacional, consolidando a empresa como um dos nomes de referência da bioeconomia paraense.
Desfile na COP30: Amazônia Zen apresenta peças feitas com fibras recicladas e estética amazônica.
A trajetória de Drielle ajuda a entender a força desse avanço. “Nasci em Barcarena, no Pará. Minhas raízes são profundamente amazônicas e isso molda tudo que faço”, conta. Antes de empreender, trabalhou como vendedora em loja de roupas, formou-se em Administração e construiu carreira como corretora de seguros, área que considera fundamental no desenvolvimento de autonomia, resiliência e capacidade de relacionamento. A virada veio quando decidiu investir em algo que dialogasse com sua história e essência. “Sempre tive o sonho de investir em confecção. Fiquei apaixonada pelo conceito da marca e foi uma necessidade aliada a um sonho”, diz.
Os primeiros anos, porém, contaram com obstáculos inesperados. A transição coincidiu com a pandemia, que afetou o varejo, a produção e a circulação de insumos. A falta de capital de giro, a escassez de mão de obra qualificada e a necessidade de aprender a gerir estoque, produção e fluxo financeiro simultaneamente também foram desafios. Para a estruturação, a empreendedora buscou apoio técnico e participou do primeiro ciclo do programa Brasil Mais, do Sebrae, em 2021. “A experiência nos ajudou a ter clareza dos números e mudou nossa mentalidade, mostrando que a inovação era necessária.”
A profissionalização evoluiu nos anos seguintes. Em 2023, Drielle participou de um projeto com mulheres marajoaras, vivência que ampliou repertórios estéticos e reforçou a responsabilidade cultural. Além disso, o ambiente econômico favoreceu negócios locais. Relatórios recentes mostram que a bioeconomia já movimenta cerca de R$ 9 bilhões ao ano no Pará, enquanto um estudo da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) estima que atividades ligadas ao setor alcançam R$ 13,5 bilhões em valor agregado. Por outro lado, pesquisas acadêmicas mapeiam quase 800 empreendimentos sustentáveis surgidos ou formalizados na região nos últimos dez anos na última década.
Para sustentar o avanço, a operação combina propósito, inovação e gestão. Implantou ERP, padronizou coleções e reforçou o controle financeiro. A história das peças – que vão de acessórios a roupas infantis, femininas e masculinas – tem como base a fauna, a flora e a ancestralidade. Já a inovação aparece no uso de ecofibras, resíduos de madeira e tecnologias têxteis regionais.
Segundo a empresária, o crescimento também se reflete na diversidade de canais e na presença crescente em diferentes regiões do país. A marca opera pontos de venda em ambientes de grande circulação, como shoppings, a Estação das Docas e espaços colaborativos voltados à economia criativa. No digital, mantém vendas por Instagram, WhatsApp e marketplaces. O atacado ganhou força com companhias interessadas em itens personalizados.
Os planos de 2026 incluem consolidar novos espaços físicos, lançar coleções com materiais tecnológicos, ampliar o atacado sustentável, fortalecer parcerias nacionais, participar de eventos internacionais ligados à bioeconomia e avançar na estruturação da exportação. “A ambição é que a moda produzida na Amazônia ocupe novos mercados e sirva como vitrine do potencial criativo e econômico da região”, diz.
Às mulheres que desejam empreender, o conselho de Drielle traduz sua própria trajetória: “O medo não é sinal para desistir e, sim, de que você está avançando rumo a algo maior. Comece com o que tem, busque capacitação, peça ajuda, crie rede de apoio e avance um passo por dia.” Ela acredita que a força do empreendedorismo feminino regional nasce justamente dessa combinação entre coragem cotidiana, formação contínua e a capacidade de transformar cultura e território em oportunidade econômica.