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Inflação de 400%: 'Doutor Dinheiro' prescreve dólar para a Venezuela

Economista Steve Hanke defende abandonar o bolívar e fechar o banco central para conter a disparada dos preços

Moedas de bolívar e cédula de dólar: economista defende adoção de moeda americana na Venezuela para conter crise (Meridith Kohut/Bloomberg)

Moedas de bolívar e cédula de dólar: economista defende adoção de moeda americana na Venezuela para conter crise (Meridith Kohut/Bloomberg)

Publicado em 25 de agosto de 2026 às 06h00.

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O economista Steve Hanke, professor da Universidade Johns Hopkins e conhecido pelo apelido de “Doutor Dinheiro”, defende uma mudança radical na política monetária da Venezuela para conter a inflação, que chegou a níveis próximos de 400%.

Nomeado assessor especial de uma importante liderança da Assembleia Nacional venezuelana, Hanke propõe à plataforma Fortune a adoção plena do dólar americano como moeda oficial do país. A medida significaria abandonar o bolívar e encerrar as funções do banco central.

Na avaliação do economista, o objetivo principal seria eliminar a possibilidade de emissão descontrolada de moeda para financiar as contas do governo. Com uma moeda estrangeira, a autoridade monetária venezuelana perderia a capacidade de emitir moeda para cobrir déficits.

“Domar a inflação é a chave para restaurar a estabilidade na Venezuela”, afirmou Hanke à Fortune. Para ele, sem estabilidade de preços, dificilmente será possível recuperar a economia do país de forma sustentável.

Diagnóstico: colapso monetário

A proposta não é inédita na trajetória do economista. Em 1999, Hanke ajudou Montenegro a abandonar o dinar iugoslavo em favor do marco alemão e, no ano seguinte, supervisionou a adoção do dólar pelo Equador.

Hanke também atuou como assessor informal do governo do Zimbábue em 2009, quando o país passou a adotar o dólar americano para conter a hiperinflação. A estratégia funcionou inicialmente, mas o país abandonou a moeda americana em 2013, e a inflação voltou a disparar.

Na Venezuela, esta seria a segunda tentativa de Hanke de promover uma mudança estrutural no regime monetário. Em meados dos anos 1990, seu plano de criar um currency board — sistema no qual um país fixa o valor de sua moeda ao de uma moeda forte estrangeira — não conseguiu apoio suficiente na Assembleia Nacional.

Desta vez, porém, o economista estima que as chances de aprovação da dolarização estejam entre 50% e 80%, já que o dólar ocupa um lugar central na economia venezuelana.

Com o colapso do bolívar, que teria perdido 78% de seu valor frente à moeda americana no último ano, o dólar passou a ser utilizado amplamente nas compras e transações do cotidiano. Com isso, Hanke acredita que a eventual mudança seria uma das maiores transições de uma moeda nacional para uma alternativa desde a criação do euro, em 1999.

Hanke chama esse processo de “dolarização espontânea”. Segundo ele, a adoção generalizada do dólar por consumidores e empresas aumenta a probabilidade de uma adoção oficial futura da moeda americana.

A principal resistência estaria na perda do banco central como prestamista de última instância. A dolarização também significaria, na prática, transferir a condução da política monetária para o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.

Remédio: uma dose de dólar

O exemplo argentino evidencia as dificuldades políticas da medida. Javier Milei chegou à Presidência defendendo a dolarização, mas posteriormente recuou da proposta, enquanto seu governo buscou reduzir a inflação por meio de cortes de subsídios e do déficit público.

Para Hanke, porém, a dolarização poderia abrir caminho para uma recuperação econômica na Venezuela, especialmente por meio do setor petrolífero.

A estabilidade monetária, segundo sua avaliação, teria potencial para atrair uma nova onda de investimentos estrangeiros. Além disso, a Venezuela possui uma dívida estimada em US$ 250 bilhões, o que equivale a cerca de 150% do PIB.

Hanke argumenta que uma expansão da produção de petróleo poderia gerar os dólares necessários para o pagamento de juros e do principal da dívida.

Além disso, o fim da hiperinflação poderia reduzir as taxas de juros e estimular o crédito para consumidores e empresas. Na visão do economista, esse processo ajudaria a reanimar o mercado imobiliário, os investimentos domésticos e a atividade econômica, levando o país de uma contração para um possível crescimento já no próximo ano.

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