Donald Trump: presidente dos EUA quer manter tarifaço mesmo após decisão da Suprema Corte (Saul Loeb/AFP)
Repórter
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 13h30.
Última atualização em 20 de fevereiro de 2026 às 14h21.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump afirmou que a decisão da Suprema Corte americana de derrubar as tarifas de importação é "uma vergonha", segundo informações da agência Reuters.
A reação ocorreu nesta sexta-feira, 20, durante uma reunião a portas fechadas com governadores estaduais na Casa Branca. De acordo com fontes ouvidas pela agência, Trump foi informado sobre o resultado enquanto falava ao grupo e demonstrou frustração.
Segundo uma fonte, o presidente recebeu um bilhete de um assessor comunicando a decisão. Ele teria dito aos presentes que o veredicto era uma “vergonha” e afirmou que precisava fazer algo em relação aos tribunais.
Na noite anterior, em um evento no estado da Geórgia, Trump já havia criticado a possibilidade de a Suprema Corte barrar sua política tarifária.
“Sem tarifas... todo mundo estaria falido. Todo mundo. O país inteiro estaria falido”, disse.
“E eu tenho que esperar por essa decisão. Estou esperando há uma eternidade. Uma eternidade. E o texto é claro ao dizer que eu tenho o direito de fazer isso como presidente, eu tenho o direito de impor tarifas por razões de segurança nacional.”
Nesta sexta-feira, a Suprema Corte decidiu que as tarifas de importação aplicadas a dezenas de países, incluindo o Brasil, foram adotadas de forma irregular e que o presidente Trump excedeu sua autoridade ao implementá-las.
Em uma decisão por 6 votos a 3, os juízes apontaram que as tarifas devem ser definidas pelo Congresso.
Ao decretar as tarifas, Trump usou uma lei chamada de IEEPA (Lei de Poderes para Emergências Econômicas Internacionais, de 1977). Ele declarou que a entrada de drogas nos EUA, vindas do exterior, e o déficit comercial do país na balança comercial eram emergências e, em seguida, afirmou que as tarifas eram uma forma de enfrentar ambas as questões.
"Nós mantemos [a decisão] que a IEEPA não autoriza o presidente a impor tarifas", diz a sentença.
"Baseado em duas palavras, separadas por 16 outras na seção 1.702 da IEEPA, 'regular' e 'importação', o presidente reivindica o poder independente para impor tarifas de importação a qualquer país, de qualquer produto, a qualquer percentual, por qualquer período de tempo. Essas palavras não têm este peso", afirma a Suprema Corte.
A decisão aponta que o artigo 1º da Constituição determina que o poder de coletar taxas cabe ao Legislativo e que este modelo foi adotado na fundação do país, criado após uma revolta sobre a cobrança de impostos pelo Reino Unido, de quem os EUA foram colônia.
A decisão da Suprema Corte deverá levar o governo a retirar as tarifas, mas a Casa Branca ainda poderá buscar outra justificativa legal para mantê-las. A sentença também abre espaço para que as tarifas já aplicadas desde o ano passado possam ser reembolsadas.
Trump começou a impor tarifas em janeiro, logo após retornar à Casa Branca. Ele taxou inicialmente México, Canadá e China.
Em abril, foram anunciadas tarifas para quase todos os países do mundo, com um mínimo de 10%. Houve também taxas por produtos, como aço e alumínio.
Em julho, foram anunciadas novas taxas ao Brasil, que teve o percentual básico elevado para 50%. O objetivo era pressionar o país a cancelar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado.
A taxa de 50% foi aplicada inicialmente a todos os itens, mas logo surgiram exceções, que deixaram de fora produtos importantes, como aeronaves e suas peças.
Entre julho e setembro, houve semanas difíceis, em que o governo brasileiro encontrou portas fechadas ao procurar autoridades americanas, e a situação parecia sem solução.
No entanto, o impasse foi desfeito a partir de setembro. Após uma série de conversas de bastidores, envolvendo autoridades, empresários e entidades setoriais, o presidente Trump se reuniu com o presidente Lula nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU.
Depois disso, vieram outras conversas entre os dois presidentes e uma série de alívios ao tarifaço, como a retirada de mais produtos da lista e uma sinalização de normalização das relações.
Segundo cálculo da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), feito após a última redução de tarifas, 62,9% dos produtos brasileiros exportados aos EUA ainda são alvo de alguma tarifa extra, seja de 10%, 40% ou 50%.
A última rodada de isenções foi anunciada em 20 de novembro e contemplou itens como carne, café, frutas e outros produtos agrícolas. Já itens como calçados, máquinas, mel e móveis seguem sobretaxados.
Em meio às idas e vindas das taxas, houve redução de exportações do Brasil para os EUA de US$ 1,5 bilhão em produtos, entre agosto e novembro de 2025, segundo estudo da Amcham.
Ao mesmo tempo, em 15 de 21 setores analisados, as empresas não conseguiram redirecionar os produtos que iam para os EUA rumo a outros mercados. Esses setores somaram perdas de US$ 1,2 bilhão, com destaque para mel, pescados, plástico, borracha, madeira, metais e material de transporte.