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Tensões entre EUA e China voltam a escalar: o que está em jogo?

Semanas depois de os Estados Unidos terem descoberto um suposto balão espião chinês em seu território, as tensões que haviam diminuído aumentaram novamente

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Biden e Xi: governo do presidente Joe Biden irritou Pequim ao limitar o comércio de chips semicondutores com a China. (Lintao Zhang/Getty Images)

Biden e Xi: governo do presidente Joe Biden irritou Pequim ao limitar o comércio de chips semicondutores com a China. (Lintao Zhang/Getty Images)

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AFP

Publicado em 9 de março de 2023, 20h37.

Os Estados Unidos e a China acreditavam ter uma janela para melhorar as relações que agora parece ter se fechado.

Semanas depois de os Estados Unidos terem descoberto um suposto balão espião chinês em seu território, as tensões que haviam diminuído aumentaram novamente, com poucos sinais de que qualquer um dos lados esteja pronto para tentar buscar a paz novamente.

O presidente chinês, Xi Jinping, que um mês antes do incidente se preparava para receber o secretário de Estado americano, Antony Blinken, em Pequim, em uma visita oficial que foi cancelada, alertou esta semana que os Estados Unidos estão buscando "conter, cercar e reprimir a China".

O governo do presidente Joe Biden irritou Pequim ao limitar o comércio de chips semicondutores com a China, citando os riscos de seu uso militar, e o tom em Washington deve endurecer com a aproximação da eleição presidencial de 2024.

Os Estados Unidos também alertaram sobre novas sanções ao pressionar publicamente a China sobre relatórios de inteligência de que Pequim estaria considerando ajudar militarmente a Rússia na guerra da Ucrânia.

Avril Haines, diretora de inteligência nacional dos EUA, disse em uma audiência no Senado na quarta-feira que o discurso de Xi foi "a crítica mais pública e direta que vimos dele até hoje".

"Isso provavelmente reflete o crescente pessimismo em Pequim sobre o relacionamento com os Estados Unidos, bem como as crescentes preocupações de Xi sobre a trajetória do desenvolvimento econômico doméstico da China e da tecnologia nativa, desafios de inovação pelos quais ele agora culpa os Estados Unidos", analisou.

Haines afirmou que os políticos chineses estão cada vez mais convencidos de que só podem promover a visão de Xi de uma China poderosa "às custas do poder e influência dos Estados Unidos".

Ela também indicou que o presidente chinês estava determinado a reafirmar sua influência sobre Taiwan, uma democracia autônoma, cujas eleições no ano que vem levantam preocupações sobre uma possível forte reação chinesa.

No entanto, Haines avaliou que a China "ainda acredita que mais se beneficia ao evitar uma espiral de tensões e ao preservar a estabilidade em seu relacionamento com os Estados Unidos".

O presidente Xi Jinping durante a sessão anual do Parlamento da China (AFP/AFP)

"Ciclo olho por olho"

Algumas autoridades americanas afirmam em conversas particulares que a comoção política e da mídia sobre o balão chinês, muito menos tecnológico do que a espionagem rotineira dos EUA na China, foi exagerada, embora Blinken não tivesse escolha a não ser cancelar sua viagem, que teria sido ofuscada pelo assunto.

Mas as autoridades americanas ficaram frustradas com o fato de as autoridades chinesas continuamente negarem que o balão era para fins de espionagem. Blinken teve uma reunião tensa em 18 de fevereiro com o chefe de política externa chinesa, Wang Yi, à margem da Conferência de Segurança de Munique, onde o chefe de diplomacia americana levantou a questão do balão e da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Biden teve uma conversa muito mais calorosa com Xi em novembro passado em Bali, na Indonésia, onde os dois líderes disseram concordar em evitar que as divergências se transformassem em um conflito entre as duas superpotências.

A reunião à margem de uma cúpula do G20 ocorreu três meses depois que a China realizou grandes exercícios militares, irritada com a visita desafiadora da então presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, a Taiwan.

"Acho que houve um momento em que parecia que a deterioração estava diminuindo ou talvez até parando, que poderíamos colocar um ponto final no relacionamento", analisou Jacob Stokes, membro do Centro para a Nova Segurança Americana.

"Isso parece cada vez menos possível, pelo menos no curto prazo, sem uma diplomacia muito criativa e se não houver mudança de pontos de vista, principalmente de Pequim, mas também de alguns em Washington", opinou.

Atrito no horizonte

Silhueta em frente a logo do TikTok (LightRocket/Getty Images)

Existem algumas tentativas de reduzir os riscos. O sucessor republicano de Pelosi na Presidência da Câmara, Kevin McCarthy, planeja se encontrar com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, na Califórnia, evitando assim uma possível viagem a Taipé, supostamente a pedido de autoridades taiwanesas que temiam grandes represálias chinesas.

Biden, que acredita na diplomacia pessoal, disse que planeja ter outra conversa com Xi.

Mas há muitos problemas no horizonte, incluindo uma possível proibição do aplicativo de compartilhamento de vídeos TikTok, de propriedade chinesa, e as atividades de um novo comitê da Câmara sobre a China.

Biden, por exemplo, se reunirá na próxima segunda-feira com os primeiros-ministros de Austrália e Reino Unido para consolidar um acordo de venda de submarinos nucleares que certamente será visto pela China como uma ameaça.

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