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Rússia aumenta impostos para bancar guerra e enfrenta risco de estagflação

Com indústria em crise e orçamento pressionado, país amplia carga tributária para manter ofensiva na Ucrânia

Publicado em 26 de dezembro de 2025 às 14h16.

Em meio a uma guerra que se arrasta desde 2022 e sem perspectivas concretas de paz, a Rússia entra em 2026 mergulhada em um cenário de estagnação econômica, inflação persistente e aumento da carga tributária. O objetivo declarado do Kremlin é manter o financiamento da ofensiva militar na Ucrânia, mesmo diante do esgotamento de setores-chave da indústria e da queda nas receitas públicas.

A mais recente medida do Ministério das Finanças russo foi anunciar o aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado) de 20% para 22%, a partir do próximo ano. Segundo o governo, os recursos adicionais servirão para garantir a segurança e defesa do país e o apoio social às famílias envolvidas na chamada “operação militar especial”. Mas o impacto da decisão vai além das contas públicas: especialistas preveem um efeito em cadeia, com alta nos custos de produção, elevação de preços ao consumidor e retração da demanda.

Enquanto isso, os setores de energia, carvão, petróleo, gás e metalurgia estão em queda livre. Empresas estatais como Rosatom (nuclear), RusHydro (hidrelétrica) e RZhD (ferrovias) enfrentam dificuldades operacionais e orçamentárias. A situação se agravou com as sanções impostas pelos Estados Unidos às maiores petroleiras russas, Rosneft e Lukoil, que provocaram uma queda de 35% na receita com exportações em novembro e expectativa de retração de até 50% em dezembro.

Sem margem para resgates bilionários — por causa da inflação e da deterioração do clima de investimento —, o Kremlin adotou uma estratégia de austeridade forçada, ampliando a cobrança de impostos sobre empresas e cidadãos. Serão eliminados benefícios fiscais para trabalhadores autônomos e a maioria das pequenas e médias empresas (PMEs). As companhias de tecnologia, por exemplo, terão suas alíquotas duplicadas: de 7,6% para 15%.

A arrecadação por meio do confisco de ativos privados também continua. Desde 2022, mais de 100 ativos foram nacionalizados, gerando cerca de US$ 50 bilhões — o equivalente a 2% do PIB russo.

Retomada da economia?

Ainda assim, o cenário para 2026 é de extrema incerteza. A previsão oficial de crescimento do PIB é de apenas 1%, após um avanço de 4,1% em 2024. Segundo o vice-primeiro-ministro Alexandr Novak, a Rússia só deve sair da estagnação em 2027. Para a pesquisadora Alexandra Prokopenko, do Carnegie Russia Eurasia Center, a economia atual “é como um carro em ponto morto, com o motor ligado”, sustentado unicamente pela indústria militar.

Em paralelo, a valorização do rublo — que subiu 45% em 2025, no maior avanço em três décadas — se tornou um obstáculo para a economia militar, tornando os produtos russos menos competitivos no exterior e elevando os custos internos. A tendência é que isso alimente uma espiral de estagflação, com crescimento travado e alta nos preços.

A tensão também é crescente entre os defensores da política monetária rígida, como o Banco Central da Rússia, e empresários que pressionam por um ambiente mais favorável ao investimento. O bilionário Vladimir Potanin, chefe da Nornickel, chegou a pedir uma redução drástica na taxa de juros, de 16% para 6%, proposta endossada pelo Sberbank, maior banco do país.

Para o economista Igor Lipsits, crítico do regime, o resultado mais imediato das novas medidas será o encolhimento das margens das PMEs e o crescimento da economia informal. “É algo tradicional. O Estado arrasta a Rússia para o precipício enquanto as pessoas comuns tentam se salvar soltando sua mão”, afirmou.

Com a economia travada, setores estratégicos em colapso e a máquina militar em ritmo máximo, o Kremlin parece disposto a sacrificar o bem-estar interno em nome de seus objetivos geopolíticos. Resta saber por quanto tempo a população aceitará pagar essa conta.

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