Imagem de 6 de janeiro de 2026, a partir de conteúdos nas redes sociais, mostra forças de segurança iranianas usando gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes no bazar de Teerã (UGC/AFP)
Redação Exame
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 14h32.
Os receios de uma repressão violenta no Irã aumentaram neste sábado, 10, após mais de dois dias de apagão na internet e a retomada de protestos noturnos em várias cidades — um movimento de contestação sem paralelo nos últimos três anos.
As manifestações, que começaram há duas semanas com comerciantes revoltados com a deterioração econômica, já se tornaram um dos maiores testes para o regime teocrático que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979.
Reza Pahlavi, filho do xá deposto e que vive nos Estados Unidos, comemorou a participação “magnífica” nos atos de sexta-feira e convocou os iranianos a organizar mobilizações mais concentradas neste fim de semana, pedindo que a população “ocupe e controle os centros urbanos”.
Pahlavi — cujo pai, Mohammad Reza Pahlavi, foi derrubado na revolução de 1979 e morreu em 1980 — afirmou ainda que se prepara para “retornar à [sua] pátria” em breve.
O Irã está há cerca de 36 horas sem acesso à internet, segundo a ONG de monitoramento Netblocks, após um bloqueio nacional decretado pelas autoridades.
Com a comunicação interrompida, o acesso a informações tornou-se limitado.
“O regime iraniano cortou os canais de comunicação dentro do país” e “bloqueou todos os meios de contato com o mundo exterior”, alertaram dois cineastas e dissidentes de destaque, Mohammad Rasulof e Jafar Panahi.
“Experiências anteriores mostram que o objetivo de medidas como essa é esconder a violência aplicada durante a repressão aos protestos”, escreveram eles em mensagem publicada no Instagram de Panahi, vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado.
A iraniana Shirin Ebadi, vencedora do Nobel da Paz, afirmou na sexta-feira que as forças de segurança podem estar se preparando para um “massacre sob a cobertura de um amplo bloqueio de comunicações”.
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, publicou na rede X que “os Estados Unidos estão ao lado do corajoso povo iraniano”.
A Anistia Internacional informou que analisa indícios de que a repressão se intensificou nos últimos dias.
Desde o início das manifestações, em 28 de dezembro, ao menos 51 manifestantes — entre eles nove crianças — morreram e centenas ficaram feridos, segundo comunicado divulgado na sexta-feira pela ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega.
Neste sábado, a TV estatal exibiu imagens dos funerais de integrantes das forças de segurança mortos durante os protestos. A participação chamou atenção em Shiraz, no sul do país.
Após a mobilização em grande escala registrada na quinta-feira, os atos voltaram a ocorrer na noite de sexta-feira em Teerã e em outras cidades, de acordo com imagens cuja autenticidade foi verificada pela AFP e que circularam nas redes por meio de conexões via satélite.
No bairro de Sadatabad, em Teerã, manifestantes batiam panelas e entoavam “Morte a Khamenei!”, enquanto motoristas buzinavam em apoio.
Outras imagens, divulgadas por redes sociais e por canais persas fora do Irã, mostraram protestos semelhantes em diferentes pontos da capital e também em cidades como Mashhad, Tabriz e Qom.
Em Hamadan, um homem apareceu agitando uma bandeira iraniana do período do xá — com o emblema do leão e do sol — cercado por fogueiras e pessoas dançando, segundo vídeos que circulam online e que a AFP ainda não conseguiu confirmar.
O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, criticou na sexta-feira os “vândalos” que, segundo ele, estão por trás dos protestos e acusou os Estados Unidos de estimularem os atos.
“Estamos em plena guerra”, disse Ali Larijani, um de seus conselheiros e chefe da principal agência de segurança do país, ao denunciar “incidentes orquestrados no exterior”.
Em 22 de junho, Washington atacou instalações nucleares iranianas como parte da guerra de 12 dias iniciada por Israel contra a República Islâmica.
“O Irã tem problemas sérios. Parece que o povo está tomando o controle de certas cidades — algo que ninguém imaginava ser possível há poucas semanas”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O republicano, porém, considerou prematuro que Reza Pahlavi assuma a liderança do movimento.
O governo iraniano não enfrentava protestos dessa magnitude desde 2022, quando a morte de Mahsa Amini — presa por supostamente violar o código de vestimenta feminino — levou centenas de milhares às ruas.
As manifestações atuais ocorrem em um momento em que o Irã está fragilizado após a guerra com Israel e os reveses sofridos por vários de seus aliados regionais, além da retomada, em setembro, das sanções da ONU relacionadas ao programa nuclear do país.
* Com informações da AFP