Oposição síria questiona plano de mediação internacional

Oposição síria discorda dos fundamentos do plano internacional para um cessar-fogo em Aleppo, disse líder do maior grupo rebelde, Qais Abdullah Sheikh

Beirute – A oposição síria discorda dos fundamentos do plano do mediador internacional Staffan de Mistura para um cessar-fogo em Aleppo, embora ainda não tenha decidido sobre a proposta, disse nesta sexta-feira à Agência Efe o líder do maior grupo rebelde, Qais Abdullah Sheikh.

Este “juiz” da província síria de Deir ez-Zor é o principal responsável pelo Conselho do Comando da Revolução, uma aliança das principais facções insurgentes, entre elas o Exército Livre Sírio e a Frente Islâmica, nascida em novembro em uma tentativa de unificar esforços na luta contra o regime do presidente Bashar al-Assad.

Recentemente, Sheikh se reuniu na Turquia com Mistura, enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Síria.

O diplomata sueco expôs as linhas mestras de sua proposta para acabar com as hostilidades em Aleppo e, se funcionar, estendê-la a outras partes do país.

Em entrevista à Agência Efe por e-mail, o opositor expressou sua opinião sobre este assunto, e garantiu que “a iniciativa não está completa e há muitas incógnitas sobre os detalhes e garantias”.

“Discordamos das bases e dos critérios sobre os quais o plano foi construído, assim como dos resultados que possam ser lançados e da possibilidade de aplicá-lo levando em conta as condições reais em que vive um povo que procura sua liberdade e foi oprimido durante meio século pelo regime”, refletiu.

O governo de Damasco já se mostrou disposto a cooperar para iniciar a proposta da ONU, que esta semana foi respaldada pela União Europeia (UE).

Para Sheikh, a iniciativa não terá sucesso a não ser que contemple “o lado imoral” das ações de alguns países, envolvidos na guerra síria e que têm interesses em que o conflito volte ao ponto zero.

Mesmo assim, a única condição que apresentaram a Mistura para sua aceitação é de que siga em harmonia com os interesses do povo sírio, que “quer seus direitos e que sejam considerados os valores humanitários e morais”.

Além disso, solicitaram ao mediador esclarecimentos sobre os mecanismos e garantias da iniciativa.

Quase cem grupos que operam na região integraram o Conselho do Comando da Revolução, exceto os jihadistas Estado Islâmico (EI) e da Frente al Nusra, a filial da Al Qaeda na Síria.

Após a criação deste órgão no final de novembro, os esforços se centram agora em estabelecer a confiança entre todos os blocos e correntes que o formam, assim como na unificação de objetivos.

“Queremos destinar todos os recursos a uma só caixa até que o capital político para que deixe de ter um efeito divisório na oposição e se eliminem as agendas políticas exteriores”, expôs.

Outro desafio é a unificação e gestão dos serviços e a administração opositora, assim como dar a conhecer à comunidade internacional a realidade e o sofrimento dos sírios.

Desde o início do conflito em março de 2011, a oposição se mostrou muito fragmentada e houve várias tentativas fracassadas para reunir forças.

Nesse sentido, Sheikh garantiu que eles trabalham duro para coordenar a atuação com o principal partido político opositor, a Coalizão Nacional Síria (CNFROS).

“Estamos abertos a qualquer ideia ou corrente para caminhar rumo a uma única meta: a queda do regime e depois a realização de eleições nas quais o povo dê sua palavra”, ressaltou.

Este pragmatismo aprecia também no território, onde, destacou, “em determinadas ocasiões algumas facções colaboram com a Frente al Nusra perante um perigo único e conforme as necessidades na batalha”.

No entanto, “isso não significa que haja unificação de ideologias e objetivos”, considerou.

Apesar dessa parceria pontual na luta, o dirigente opositor esclareceu que a própria Frente al Nusra não quis aderir ao conselho, o que, em sua opinião, se adapta à forma de operar dessa organização.

Sobre a evolução da disputa no futuro, Sheikh reconheceu que é difícil prever que irá passar, embora acredite que em boa parte dependerá da capacidade dos rebeldes de unificar esforços e desenvolver suas capacidades.

Mesmo assim, descartou que “um regime que matou e prendeu milhares de jovens e gerou milhões de deslocamentos e refugiados possa permanecer”.

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