OPINIÃO: eleições francesas e a aldeia gaulesa de Macron

Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa de opinião pública IDEIA, trata neste artigo dos votos em candidatos dos extremos, que somaram mais de 50%, e da alta abstenção na eleição francesa
 (Thierry Monasse/Getty Images)
(Thierry Monasse/Getty Images)
Por Da RedaçãoPublicado em 11/04/2022 09:40 | Última atualização em 11/04/2022 09:41Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Por Maurício Moura

No ano 50 antes de Cristo, a Gália (território da França atual) estava toda dominada pelo Império Romano. Porém, diz a lenda que havia uma única aldeia gaulesa que ainda resistia aos invasores romanos. E essa fábula da Gália é traduzida brilhantemente em uma famosa história em quadrinhos protagonizada por Asterix.

Nas aventuras de Asterix, os legionários representantes de Roma quase sempre apareciam apanhando dos gauleses, especialmente de Obelix (o melhor amigo de Asterix).  Nas eleições francesas realizadas em 2022 o primeiro turno mostrou que o atual presidente Emmanuel Macron terá de lutar muito para manter sua aldeia política. O primeiro turno mostrou a musculatura dos extremos franceses. E o segundo turno será duro e imprevisível.

De acordo com a maioria das urnas apuradas, o atual presidente francês vai enfrentar novamente a candidata de extrema direita Marie Le Pen. Em 2017, em pleno surgimento do En Marché (partido de centro criado pelo próprio Macron), o segundo turno foi uma vitória de lavada (2/3 para Macron contra 1/3 para Le Pen).  Em 2022, o cenário é bem mais complexo.

Primeiro porque essa eleição se mostrou a “era dos extremos”. A soma de votos de Marie Le Pen, Eric Zemmour (com discurso bastante nacionalista – para não dizer racista – fez com Le Pen flertasse com a moderação) e Jean-Luc Melechon (representante da esquerda mais radical francesa) passou de 50% dos votos válidos.

As principais candidaturas de centro: Emmanuel Macron,  Valérie Pecresse (centro-direita) e Anne Hidalgo (de centro-esquerda) passaram longe de conseguir 40% dos votos válidos. Ou seja, o eleitorado que compareceu as urnas prestigiou os discursos mais polarizados, extremados e raivosos.

E aí temos o segundo tema da eleição: o grau de comparecimento. Segundo dados oficiais do governo, o comparecimento foi de 65%, quase 5 pontos percentuais inferiores a 2017.  Somente em 2002 houve um patamar de abstenção maior. Especula-se, entre os especialistas franceses, que os eleitores moderados ficaram em casa por pura desilusão com os políticos de centro (que há décadas governam o país).

O eleitorado que compareceu as urnas prestigiou os discursos mais polarizados, extremados e raivosos.

Maurício Moura

Para vencer ambas as candidaturas terão de recorrer a poção mágica do Asterix.  A missão de Macron, por exemplo, não é trivial. Precisará mobilizar os eleitores de centro a saírem de casa no segundo turno e ainda convencer parte do eleitorado de esquerda de Melechon a votarem para continuidade de um governo que reprovam.

Já a candidata de oposição não terá vida fácil também. Seguirá lidando com a rejeição à extrema direita (dessa vez sem Zemmour para moderar suas ideias) e terá de atrair parte da extrema esquerda. Ao seu lado, porém, estará a maioria da população que atualmente reprova o governo do En Marché.  Fica a pergunta se Macron seguirá sendo a “aldeia gaulesa do Asterix” nessa era dos extremos ou vai faltar poção mágica para a reeleição.

 

Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa de opinião pública IDEIA e professor da Universidade George Washington, nos Estados Unidos