China: um dos maiores polos de terras raras cruciais é explorado ininterruptamente por uma indústria secreta e fortemente protegida (HECTOR RETAMAL/AFP)
Redação Exame
Publicado em 24 de dezembro de 2025 às 09h00.
O sul da China concentra a maior reserva conhecida de terras raras, minerais essenciais em tecnologias de defesa e consumo, como mísseis, motores de caça e smartphones.
Essa riqueza mineral está no centro de uma cadeia estratégica operada sob vigilância rígida, com pouca transparência e envolvimento direto do Estado.
O epicentro dessa operação está nas colinas da província de Jiangxi, onde o solo avermelhado guarda depósitos valiosos que sustentam uma das indústrias mais sensíveis da economia global.
Segundo o United States Geological Survey, o serviço geológico dos Estados Unidos, a China saiu de 117 instalações de processamento em 2010 para 2.057 em 2017 e 3.085 pontos mapeados em 2024.
A Agence France-Presse (AFP) esteve na região em novembro, acompanhada por fontes que pediram anonimato. Nenhuma das empresas locais aceitou dar entrevista.
Em Banshi, um pequeno vilarejo, moradores afirmam que as operações de mineração funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana.
O avanço é reflexo de uma estratégia consolidada por Pequim ao longo de décadas, com o objetivo de consolidar sua posição no fornecimento global de matérias-primas críticas.
Nesta foto tirada em 19 de novembro de 2025, vê-se a planta de processamento de terras raras Baogang Xinli, em construção no condado de Xinfeng, Ganzhou, na província de Jiangxi, no leste da China (HECTOR RETAMAL/AFP)
Em 2024, em meio a uma trégua na guerra comercial com os EUA, a China suavizou as restrições sobre exportações desses materiais — mas a dependência segue alta.
Washington busca diversificar suas cadeias de suprimentos e reduzir a dependência de Pequim, mas analistas alertam que a transição exigirá tempo e investimento.
A União Europeia anunciou recentemente um pacote de 3 bilhões de euros (R$ 19,3 bilhões) para fomentar projetos de mineração e reciclagem, além de propor a criação de um centro europeu de suprimentos.
A frase atribuída a Deng Xiaoping em 1992 — “o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras” — moldou a estratégia industrial chinesa. Desde então, o país consolidou o domínio no refino e no desenvolvimento tecnológico desses minerais, dividindo suas operações entre dois polos principais.
Em Bayan Obo, na Mongólia Interior, concentram-se as terras raras leves, usadas em ímãs e eletrônicos. Já em Ganzhou, no sul, o foco está nas terras raras pesadas, como disprósio, ítrio e térbio, utilizadas em sistemas de defesa, lasers e motores resistentes a altas temperaturas. A cidade abriga o maior polo mundial de extração e processamento desses elementos, com fábricas instaladas em zonas industriais próximas às minas.
Nesta foto tirada em 21 de novembro de 2025, vê-se uma vista do Parque Industrial de Terras Raras em construção no condado de Anyuan, Ganzhou, na província de Jiangxi, no leste da China. (HECTOR RETAMAL/AFP)
As terras raras pesadas são resultado de processos naturais que ocorrem por milhões de anos, quando a chuva decompõe rochas ígneas e concentra os elementos na superfície. A topografia e o clima de Jiangxi favorecem esse processo geológico.
Durante anos, métodos predatórios foram utilizados na extração. Um deles, conhecido como “mover montanhas”, foi oficialmente condenado em 2015 por causar danos irreversíveis ao meio ambiente. Hoje, há placas em zonas rurais advertindo contra a mineração ilegal e oferecendo recompensas por denúncias.
O setor, agora mais regulado, está sob o controle de dois conglomerados estatais. Em Ganzhou, a China Rare Earth Group ergue sua nova sede na chamada “Avenida Terra Rara”, enquanto a vegetação tenta retomar áreas degradadas por décadas de mineração intensa.
Com informações da AFP.