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Nobel da Paz que apoiou Trump pode suceder Maduro na Venezuela?

Especialistas já indicam María Corina Machado como sucessora natural após ataque dos EUA, mas trajetória radical gera controvérsia

María Corina Machado, líder da oposição na Venezuela e prêmio Nobel da Paz em 2025: "Estamos em um momento decisivo para as Américas. O que está acontecendo na Venezuela, fruto da firme postura de Trump."

María Corina Machado, líder da oposição na Venezuela e prêmio Nobel da Paz em 2025: "Estamos em um momento decisivo para as Américas. O que está acontecendo na Venezuela, fruto da firme postura de Trump."

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 12h09.

Última atualização em 3 de janeiro de 2026 às 12h25.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou neste sábado que forças americanas realizaram um ataque em larga escala contra a Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores

A operação marca o movimento de intervenção direta mais agressivo dos EUA na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989, e abre caminho para uma transição política que pode ter na figura da Nobel da Paz, María Corina Machado, sua principal protagonista.

Com a queda de Maduro e apoiada por 70% dos venezuelanos, María Corina vinha trilhando uma trajetória que poderia preparar o terreno para esse momento ao lado do diplomata aposentado Edmundo González, reconhecido pelos Estados Unidos como presidente legítimo após vencer Maduro nas eleições de 2024.

A trajetória até o Nobel e o apoio ao cerco militar

María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz em outubro de 2025, numa escolha que surpreendeu analistas internacionais.

O comitê norueguês justificou a honraria por “seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo venezuelano e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”.

Contudo, chamou a atenção a premiação ocorrer em um momento de escalada sem precedentes da tensão entre EUA e Venezuela.

Em meados de setembro, Washington intensificou a pressão militar sobre Caracas, num processo que incluiu o deslocamento de cerca de 15.000 soldados para a região caribenha, além do envio de uma frota naval para águas próximas à costa venezuelana, com destróieres de mísseis guiados e um submarino de propulsão nuclear.

A estratégia americana incluiu ainda um bloqueio a petroleiros que transportavam petróleo venezuelano alegando violação às sanções americanas, apreensão de embarcações e ataques aéreos contra barcos que resultaram na morte de 105 pessoas no Caribe e no Pacífico.

No início de outubro, um memorando vazado revelou que o governo Trump classificou cartéis de drogas como grupos terroristas e declarou estar em um conflito armado não internacional com essas organizações, considerando Maduro como líder de um desses cartéis.

Diferentemente de outros líderes da oposição venezuelana, María Corina endossou publicamente todas essas medidas. Na época, em entrevista à Fox News, ela classificou a postura do norte-americano como decisiva:

"Estamos em um momento decisivo para as Américas. O que está acontecendo na Venezuela, fruto da firme postura de Trump em desmantelar essa estrutura criminosa, está tendo um impacto enorme."

E ao receber a notícia do Nobel, fez um gesto direto ao líder americano.

"Dedico este prêmio ao povo sofrido da Venezuela e ao presidente Trump por seu apoio decisivo à nossa causa!", escreveu em sua conta no X.

O Nobel que dividiu especialistas

A escolha do comitê do Nobel gerou reações contraditórias entre analistas que acompanham a Venezuela.

Especialistas em relações internacionais na América Latina expressaram surpresa com a premiação, observando que María Corina é uma política que, historicamente, angaria apoio por meio de polarização e estratégias de confronto.

Esses mesmos analistas apontaram que, entre as lideranças da oposição venezuelana, María Corina seria a mais radical - a única que não apenas aceita, mas ativamente incentiva métodos militares para a derrubada do governo. 

O apoio de María Corina ao avanço militar americano sobre território venezuelano também preocupa. Os Estados Unidos vêm deslocando submarinos nucleares para uma zona desnuclearizada desde 1968 pelo Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, do qual o próprio país é signatário.

Na época, advertiam ainda que um conflito armado na região dificilmente levaria a uma mudança democrática de poder no país, e teria consequências desastrosas para toda a América Latina.

Por fim, muitos observadores do cenário político latino-americano viram na premiação uma vitória do trumpismo global. Lembrando que o secretário de Estado Marco Rúbio, quando ainda era senador, fez parte do grupo que indicou María Corina ao Nobel em 2024.

Trajetória marcada pela proximidade com Washington

A relação de María Corina com o governo norte-americano não é recente. A engenheira defende, há mais de 20 anos, uma intervenção direta dos Estados Unidos na política venezuelana. 

Críticos apontam a contradição entre seu discurso de defesa da democracia e da liberdade e a participação em ações antidemocráticas como o golpe de 2002.

Na ocasião, ela teve papel fundamental no golpe contra Hugo Chávez, que durou 47 horas antes de o presidente retornar ao poder. E os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer o presidente interino autoproclamado naquela ocasião. 

A ambiguidade tem marcado toda a sua trajetória política e alimenta questões sobre que tipo de transição ela efetivamente poderia propor para a Venezuela.

Forte apoio venezuelano

Por outro lado, apesar das ressalvas sobre seus métodos, María Corina conta com vantagens significativas em um eventual cenário pós-Maduro.

O venezuelano Jorge Jraissati, presidente do Grupo de Inclusão Econômica, organização de políticas públicas, afirmou à Fox News que ela e Edmundo González assumiriam um governo de transição com o apoio de ao menos 70% da população.

Em suas próprias declarações recentes, María Corina deixou claro que está preparada: "Estamos prontos para uma transição ordenada e pacífica rumo à democracia. Vamos tomar o controle territorial e institucional com os melhores venezuelanos", escreveu no X.

Impedida de concorrer nas eleições presidenciais de 2024 pelo Supremo Tribunal controlado por Maduro, María Corina conseguiu unir a oposição em torno de González, que derrotou Maduro por uma margem superior a dois para um nas urnas.

Maduro ignorou os resultados, mas os Estados Unidos reconheceram González como o líder legítimo da Venezuela.

O gesto tardio de Maduro com prisioneiros

Ironicamente (ou não), há poucas semanas o regime de Maduro realizou aquela que seria sua maior libertação de presos políticos na história. No dia de Natal, as autoridades locais anunciaram ter libertado 99 pessoas detidas por participarem de protestos após as eleições de 2024.

A medida foi apresentada “como expressão do compromisso com a paz e seu respeito irrestrito aos direitos humanos”, em um contexto onde enfrentava o que descreveu como “um cerco imperialista e agressão multilateral por parte dos EUA”.

Organizações da sociedade civil receberam a notícia com cautela. A ONG Justicia, Encuentro y Perdón reconheceu o impacto positivo na vida dos libertos, mas afirmou que a medida era claramente insuficiente, visto que pelo menos outros 900 presos políticos permaneciam detidos no país.

A natureza seletiva das libertações - que não incluiu nenhuma personalidade proeminente da oposição - foi vista como confirmação de que a privação de liberdade vinha sendo usada como instrumento de perseguição política. 

E a maioria dos ex-prisioneiros permanece em liberdade condicional, sujeita a proibições de viagem, comparecimentos regulares ao tribunal e restrições à comunicação sobre seus casos.

Vácuo de poder e figuras do chavismo

Caso María Corina e González efetivamente não consigam consolidar uma transição democrática, especialistas apontam que um grupo de lideranças do chavismo poderia tentar preencher o vácuo de poder deixado por Maduro.

Maduro discursa ao lado da vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez (segunda à direita), e o deputado Diosdado Cabello (à esquerda), e o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodriguez (terceiro à esquerda)

Diosdado Cabello surge como o nome mais temido e influente do regime. Descrito como o número dois do chavismo, exerce ainda muita influência sobre a máquina partidária e o aparato de propaganda, além de dominar as pastas de interior e justiça.

Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e um dos operadores políticos mais próximos de Maduro, é outro nome em posição de destaque, tendo ocupado papéis anteriores como prefeito, ministro das comunicações e estrategista-chave.

Outra figura de destaque, Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela e irmã de Jorge, é outra peça fundamental do regime, cuja influência atravessa as esferas institucional, econômica e diplomática. O Departamento do Tesouro dos EUA a incluiu na lista de sanções como parte do círculo íntimo de Maduro, acusando-a de ajudar a desmantelar a governança democrática.

Ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino Lopez, discursa em julho de 2024 em Caracas

Completa esse núcleo de poder Vladimir Padrino López. Ministro da Defesa há mais de uma década, ele é visto como o garante militar da sobrevivência do regime, mantendo as Forças Armadas leais a Maduro.

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