Irmandade Muçulmana fracassa em experiência no poder

Criada em 1928, a Irmandade Muçulmana tinha a intenção de formar uma "geração islâmica" e estabelecer um Estado sob a aplicação da Sharia, a lei islâmica

Cairo - A Irmandade Muçulmana esperou 80 anos para chegar ao poder no Egito, mas pode culpar a si mesma pelo fracasso, após 12 meses, de sua primeira experiência no poder, consideram analistas.

Os opositores ao presidente deposto Mohamed Mursi o acusam de ter traído os valores da Revolução de 2011, que derrubou Hosni Mubarak, procurando concentrar os poderes e não sendo capaz de recuperar uma economia à deriva.

Enquanto o mundo diverge sobre a natureza da ação que o afastou do poder - golpe de Estado, golpe de força, ou destituição sob pressão popular -, os analistas concordam em dizer que a Irmandade Muçulmana precipitou a própria queda.

"A Irmandade e Mursi fracassaram completamente (...) e os egípcios quiseram um golpe de Estado, e foi isso que tiveram", considerou em seu Twitter Salman Shaikh, analista do Brookings Doha Center, do Qatar.

Após ter sido expectador do movimento de contestação de 2011, a Irmandade Muçulmana aderiu ao movimento 18 dias antes da queda de Hosni Mubarak, em 11 de fevereiro do mesmo ano.

Há um ano se lançou na corrida presidencial com Mohamed Mursi como candidato, após a rejeição de sua primeira escolha, Khairat el-Shater, número dois da irmandade.


A vitória de Mursi tirou a Irmandade Muçulmana da sombra, após anos de banimento da vida política e de forte repressão.

"A presidência de Mursi é, sem dúvida, o maior erro da história da Irmandade Muçulmana", considera o analista Nathan Brown.

O presidente islamita foi criticado até mesmo por seus aliados sobre a maneira como governava o país.

"O presidente procrastinou. Seu grupo perdeu a oportunidade de construir uma base nacional para isolar os contra-revolucionários", acredita Mohamed Mahsoub, membro do partido islâmico Al-Wasat, próximo a Irmandade.

"O guia teve responsabilidade na queda", acrescenta Mahsoub, referindo-se ao líder da Irmandade, Mohamed Badie.

Criada em 1928, a Irmandade Muçulmana tinha a intenção de formar uma "geração islâmica" e estabelecer um Estado sob a aplicação da Sharia, a lei islâmica.

O sonho pareceu próximo de se concretizar quando Mursi venceu no segundo turna da eleição presidencial de 2012 o ex-chefe da Força Aérea, Ahmad Chafiq, último primeiro-ministro de Hosni Mubarak.


Após prestar sermão em 30 de junho de 2012, Mohamed Mursi procurou se impor na cena política ao fortalecer seus próprios poderes em novembro.

Mohamed ElBaradei, um dos líderes da oposição, acusou o presidente de abuso de poder, chamando-o de o "novo faraó". As primeiras manifestações em massa contra o presidente islâmico foram organizadas logo em seguida.

Ele agravou ainda mais a sua situação ao incentivar a redação da Constituição por uma comissão dominada por islamistas, cujos trabalhos foram boicotados pelos liberais e cristãos coptas.

Mursi e a Irmandade Muçulmana acabaram por arruinar suas chances ao não encontrarem saídas para a crise econômica e não conquistarem o apoio do Exército.

"É verdade que os islamitas registraram bons resultados nas eleições e que precisaram enfrentar problemas enormes", escreveu Brown no site do New Republic.

"Mas também é verdade que Mursi e a Irmandade Muçulmana cometeram outras faltas graves (...) como concentrar o poder e não ser capaz de criar coalizões", acrescenta.


"Eles ignoraram potenciais aliados, ignoraram o descontentamento crescente e se concentraram em consolidar seu poder", diz o analista.

O grupo de inteligência americano Stratfor ressalta que o Exército também desempenhou um papel na queda do presidente islamita.

"Mursi nunca assumiu o controle do aparelho de governo, em parte porque ele era politicamente fraco, em parte porque a Irmandade Muçulmana não estava preparada para exercer o poder e, em parte, porque o Exército não permitiu", escreveu o grupo em seu site.

"Os militares não queriam o caos (...) Eles não tinham confiança na Irmandade Muçulmana e eles ficaram felizes em forçá-la a deixar o poder", acrescenta Stratfor.

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