Guerra na Ucrânia: por que Maduro pode sair ganhando

Estados Unidos mandam enviados especiais à Venezuela para tratar sobre importação de petróleo e alívio das sanções econômicas; mundo começa corrida por combustível
 (Getty Images/Getty Images)
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Por Carla AranhaPublicado em 09/03/2022 17:11 | Última atualização em 09/03/2022 18:37Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Os americanos que foram abastecer seus veículos nesta quarta, dia 9, tiveram uma surpresa. O preço do galão do combustível chegou a US$ 4,25, uma máxima histórica — em apenas dois meses, o aumento bateu a casa dos 30%. Os preços nos postos de gasolina são um reflexo da proibição total à importação de petróleo russo definida pelo presidente Joe Biden na terça, dia 8. A medida faz parte do amplo pacote de sanções econômicas impostas à Rússia, segundo maior produtor mundial da commodity, desde a deflagração na guerra na Ucrânia.

Os Estados Unidos importam da Rússia cerca de 7% do petróleo bruto e produtos refinados que consomem. Agora, o país vai precisar encontrar uma saída para repor o carregamento russo. Uma das estratégias estudadas pela Casa Branca é aliviar as sanções ao petróleo venezuelano impostas em 2019, como reação à reeleição de Nicolás Maduro, considerada fraudulenta, e reestabelecer o fluxo da mercadoria. “Cerca de metade do que os Estados Unidos compram da Rússia pode ser substituída pela produção venezuelana”, afirma Matt Smith, analista líder de petróleo e gás da consultoria europeia Kpler. “Estamos falando em 300 mil barris por dia, algo factível”.

Depois de anos seguidos em que a produção de petróleo na Venezuela desceu ladeira abaixo, em boa parte em razão de desinvestimentos e problemas de gestão, desde 2020 o país tem ensaiado uma retomada. Há dois anos, a média era de 570 mil barris, bem abaixo dos 3 milhões de barris que a estatal venezuelana, a PDVSA, chegou a produzir em seu auge, no final da década de 1990, quando era uma das líderes mundiais do setor. Atualmente, são extraídos em média 640 mil barris por dia.

“Basta que os carregamentos direcionados à China, que adquire petróleo venezuelano com desconto, sejam direcionados aos Estados Unidos para que o país possa substituir pelo menos uma parte das importações russas”, diz Smith. "Em suma, pode ser um negócio bom tanto para os Estados Unidos como para a Venezuela".

A Chevron, única petroleira americana em operação na Venezuela, não esconde o lobby que tem feito junto ao Congresso para o fim das sanções. A empresa obteve uma licença do governo americano que permite apenas a manutenção de suas plantas na Venezuela. A retirada de sanções a Caracas pode representar uma oportunidade da retomada de negócios bilionários relativos às exportações.

O nó da questão é o aspecto político. Logo após a visita de membros do governo americano a Venezuela, no último final de semana, para tratar com Maduro sobre a eventual retirada do veto comercial ao país, parlamentares como o senador Marco Rubio, do Partido Republicano, criticaram a iniciativa. “Joe Biden está usando a Rússia como uma desculpa para lidar com o regime Maduro da forma como ele sempre desejou”, disse em suas mídias sociais. “Ele quer substituir o petróleo que compramos de um ditador sanguinário pelo petróleo de outro ditador sanguinário”, afirmou.

A corrida pelo combustível, desde as sanções americanas à Rússia e o recorde no preço do barril em mais de dez anos, também trouxe de volta à mesa de negociações o acordo nuclear com Irã.

Mesmo que se conquiste um eventual abrandamento das sanções ao país em troca de um entendimento sobre limites para a obtenção de urânio para fins nucleares, o aumento da produção de petróleo poderia levar meses, segundo analistas a par do assunto. Em geral, punições econômicas a um país demoram algum tempo para serem de fato levantadas, mesmo após a assinatura de um acordo.

O cenário mais provável, de acordo com o mercado, é de um aumento dos custos globais do petróleo — e do gás —, com um repasse de preços ao consumidor. “O valor pago pelo combustível deve continuar aumentando”, diz Smith.