Repórter
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 17h51.
Última atualização em 22 de janeiro de 2026 às 17h52.
Os Estados Unidos divulgaram, na quinta-feira, 22, um plano para criar uma área chamada de “Nova Gaza”, que seria erguida do zero com moradias, centros tecnológicos e complexos turísticos à beira-mar.
A iniciativa faz parte dos esforços do presidente norte-americano Donald Trump para viabilizar um acordo de cessar‑fogo entre Israel e o Hamas, que vem sofrendo repetidas quebras.
Autoridades de saúde na Faixa de Gaza informaram à agência Reuters que ataques aéreos israelenses, também na quinta, provocaram a morte de cinco pessoas no território. Até o momento não houve pronunciamento oficial de Israel sobre esses ataques, que enfraquecem o acordo de trégua estabelecido em outubro.
Trump ampliou o foco do acordo de cessar‑fogo ao estruturá‑lo em uma proposta mais abrangente chamada "Conselho da Paz", com o propósito de lidar com conflitos em diversas regiões do mundo. Após uma cerimônia no Fórum Econômico em Davos, na Suíça, o presidente americano chamou seu genro, Jared Kushner, para detalhar publicamente sua visão de desenvolvimento para Gaza, onde áreas urbanas — densamente povoadas — estão em grande parte destruídas após anos de guerra.
Kushner afirmou que o projeto inicial de Trump para Gaza começou com ideias como uma zona franca econômica e após isso evoluiu para um plano mais amplo de reconstrução. A população local de cerca de 2 milhões de pessoas está amplamente deslocada dentro da própria Faixa de Gaza.
Na apresentação em Davos, Kushner mostrou slides que ele descreveu como um “plano mestre” para a Nova Gaza. O material, apresentado com um mapa em cores, identificava setores destinados a áreas residenciais, parques industriais e centros de dados. Uma das imagens projetadas mostrou um litoral mediterrâneo com torres semelhantes às vistas em cidades como Dubai ou Singapura.
Segundo Kushner, a reconstrução proposta começaria por Rafah, no extremo sul do território e sob controle militar israelense. No entanto, os documentos não abordaram questões cruciais, como quem terá direitos de propriedade, compensações para palestinos que perderam casas e meios de sustento, ou onde os deslocados poderiam morar durante as obras. Também não foi esclarecido quem arcaria com os custos totais, um projeto que começaria com a remoção de dezenas de milhões de toneladas de escombros.
Kushner afirmou que, nas próximas semanas, uma conferência em Washington apresentará contribuições anunciadas pelo setor privado, sem maiores detalhes.
Por outro lado, a proposta de Trump para transformar a Faixa de Gaza — historicamente empobrecida e gravemente danificada — em uma área comparada à chamada Riviera do Oriente Médio gerou críticas entre líderes e residentes palestinos.
A apresentação de Kushner foi precedida por um discurso de Ali Shaath, um administrador palestino apoiado pelos EUA para implementar um dos 20 pontos do plano de Trump para Gaza. Um aspecto pendente do acordo de cessar‑fogo é a reabertura da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito, essencial para o tráfego de pessoas e mercadorias.
Shaath declarou que a passagem de Rafah deve ser reaberta na próxima semana, afirmando que essa medida indicaria que Gaza “não está mais fechada ao futuro e à guerra”.
Israel, que controla o lado interno da fronteira, condiciona a reabertura ao cumprimento, por parte do Hamas, de obrigações do cessar‑fogo, incluindo a devolução dos restos mortais do último refém sob custódia do grupo. Uma fonte israelense disse que havia um esforço especial para entregar os restos mortais de Ran Gvili e que a questão da passagem seria discutida na próxima semana.
O plano de Trump para Gaza também prevê o desarmamento do Hamas e o envio de forças de paz internacionais, à medida que tropas israelenses continuem sua retirada gradual. Até agora, Israel controla mais da metade da Faixa, enquanto o Hamas mantém presença em uma faixa litorânea menor.
As autoridades de saúde do Hospital Al Shifa relataram que quatro palestinos foram mortos na quinta-feira pelo ataque do exército israelense no bairro de Zeitoun, na Cidade de Gaza, e uma quinta pessoa morreu em Khan Younis, no sul. O Exército israelense não comentou esses incidentes imediatamente.
No dia anterior, o ataque israelense havia matado 11 pessoas, entre elas dois meninos e três jornalistas, informaram autoridades de saúde à Reuters. Grupos defensores da imprensa disseram que os jornalistas estavam filmando com um drone em áreas com tendas de deslocados. O Exército israelense alegou que o drone era “associado ao Hamas” e representava uma ameaça, justificando um ataque aos operadores supostamente responsáveis.
Desde que o cessar‑fogo entrou em vigor, autoridades de saúde palestinas relatam que mais de 480 palestinos foram mortos por ações de Israel, enquanto militantes teriam matado três soldados israelenses.
O conflito começou após um ataque do Hamas ao território israelense em 7 de outubro de 2023, que, segundo Israel, resultou na morte de 1.200 pessoas. Autoridades de saúde de Gaza afirmam que a resposta de Tel Aviv causou 71 mil mortos no território.