Exclusivo: dá para ser eleito nos EUA com 23% dos votos válidos

A EXAME fez um exercício estatístico limite para mostrar porque a vantagem popular de Joe Biden pode não lhe dar a vitória sobre Donald Trump

Cinco, dez, 15 pontos de vantagem. Um olhar inicial sobre as pesquisas eleitorais americanas mostra uma liderança consistente do democrata Joe Biden sobre o republicano Donald Trump. Faltam só três semanas para as eleições — mas, ainda assim, nada está definido. A explicação está no peculiar modelo de votação americano, que foca nos 538 votos do colégio eleitoral, e não na votação popular.

Em 2016, Trump foi eleito mesmo com 2,9 milhões de votos a menos que Hillary Clinton. Neste ano, a tendência é de uma diferença ainda maior para os democratas — de até 9 milhões de votos. Ainda assim, Trump tem chance. Quão esquisita pode ficar a diferença entre a maioria popular e a decisão no colégio eleitoral?

A EXAME simulou o cenário mais extremo e detectou ser possível ser eleito presidente dos Estados Unidos com apenas 23% dos votos válidos. Ser eleito com a minoria popular é coisa rara na história. Só aconteceu quatro vezes: em 1876, 1888, e mais recentemente com George W. Bush e Trump. Sempre a favor dos republicanos. Isso acontece porque o partido Republicano tem mais prevalência em estados sobrerrepresentados no colégio eleitoral — estados com menor população e interioranos.

Isso acontece pela sobreposição de algumas regras eleitorais radicalmente diferentes das brasileiras: sistema federativo em colégio eleitoral, voto não obrigatório e a totalidade dos delegados de cada estado indo para o vencedor local.

Para ganhar uma eleição nos Estados Unidos o candidato precisa vencer a corrida eleitoral indireta, ou seja, conseguir 270 delegados, que representam os estados. Estados mais populosos acumulam mais delegados e têm mais peso. Porém, proporcionalmente, os estados menores possuem menos eleitores para cada delegado, fazendo com que sejam mais valiosos.

Como o sistema é bipartidário, há estados com perfil histórico republicano e estados com perfil democrata. A batalha das campanhas se dá nos estados pêndulo, que ora podem dar ganho a um ou outro partido. É neles que os candidatos gastam fortunas em publicidade e comícios.

O levantamento da EXAME, para chegar à improvável vitória com larga minoria, considerou que para ganhar com o menor número de votos possível era necessário que o candidato hipotético (um republicano, certamente) vencesse em todos os estados que são proporcionalmente mais representados.

Para atingir os 270 necessários com o menor número de eleitores possível seria preciso vencer em 40 estados, como os distantes Wyoming e Alaska. Esqueça Flórida, Nova York e Califórnia, esses estados conhecidos são superpopulosos, e cheios de eleitores democratas. Logo, é permitido perder nesses estados, e perder feio, sem medo. Por isso, nosso candidato não teria absolutamente nenhum voto neles — num extremo estatístico — e conquistaria vitórias apertadas em todos os estados em que saiu vitorioso.

Essa vitória com a mais estreita minoria possível é impraticável para ambos os partidos, já que o grupo de 40 estados possui alguns que historicamente dão vitória ao partido opositor. Entretanto, os Republicanos são os que conseguem, no mundo real, atingir alguma minoria, não tão estreita, e por isso conseguiram, poucas vezes, vencer as eleições com menos votos popular

 

Os Estados Unidos possuem 234.632.885 eleitores aptos em 2020. Para poder garantir uma vitória no estado basta que o candidato tenha a maioria dos votos, mas no nosso cálculo o estado será garantido com maioria absoluta, metade dos votos válidos mais um. Como todos os delegados vão para o vencedor, o adversário, mesmo tendo uma quantidade de votos razoável no estado que nosso candidato venceu, teria zero impacto na decisão final. Essa regra é o “vencedor leva tudo” do colégio eleitoral.

Entretanto, nos Estados Unidos o voto não é obrigatório e por isso os índices de absentismo são muito mais altos do que no Brasil. Em 2016 somente 59,22% dos eleitores foram às urnas votar para Presidente da República. Outra característica peculiar: lá o candidato não apenas precisa pedir voto, mas também engajar o seu eleitor a ir votar e, de preferência, desestimular o eleitorado do adversário a participar do pleito. Os partidos estão se aprimorando nessa última estratégia, e ela está no centro da controvérsia em torno da neutralidade do acesso ao processo eleitoral americano.

Aplicando a taxa de abstenção de cada estado em 2016 (ela pode mudar muito de uma eleição para outra) sobre os eleitores aptos de 2020, é possível estimar o tamanho da maioria absoluta necessária para garantir aquele estado. A EXAME optou por usar a maioria absoluta para não deixar o cenário ainda mais estranho do que parece.

Com isso, teoricamente, é possível vencer as eleições somando apenas 32.097.240 votos populares efetivos, e, assim, atingir os 270 delegados necessários para ocupar a Casa Branca. Ou seja: dá pra ser eleito com 23% dos votos efetivamente depositados em urnas (ou sendo escolhido por 14% dos americanos aptos a votar). Não chegaremos lá nem em 2020, claro. Mas Trump, se eleito, será certamente o vencedor menos popular da história americana.

 

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