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EUA vão invadir o Irã? Entenda a crise atual no Oriente Médio

Americanos enviaram mais navios e aviões para a região, enquanto negociações prosseguem

Míssil disparado por forças iranianas durante exercício militar no estreito de Hormuz, no Oriente Médio, em 17 de fevereiro (Sepah News/AFP)

Míssil disparado por forças iranianas durante exercício militar no estreito de Hormuz, no Oriente Médio, em 17 de fevereiro (Sepah News/AFP)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 13h42.

Os Estados Unidos ameaçam, há semanas, fazer um ataque militar ao Irã. Nos últimos dias, a pressão se intensificou, com o envio de mais navios e aviões de guerra em direção ao Oriente Médio e declarações fortes de autoridades americanas.

Nesta quinta-feira, 19, o presidente Donald Trump disse que é necessário "chegar a um acordo significativo" sobre o Irã, "caso contrário, coisas ruins podem acontecer".

"Talvez tenhamos que dar um passo adiante, ou talvez não. Talvez cheguemos a um acordo", disse Trump. Ele citou um prazo. "Provavelmente descobrirão nos próximos dez dias".

Na quarta-feira, 18, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que há “muitas razões e argumentos” para um ataque contra o Irã, mas reforçou que a diplomacia continua sendo a primeira opção do governo.

Segundo a CNN e o The New York Times, o Exército dos Estados Unidos está em condições de realizar um ataque contra o Irã já neste fim de semana, mas o presidente Donald Trump ainda não autorizou a operação e estaria avaliando opções.

O cenário, no entanto, segue bastante incerto. Há negociações em andamento com o Irã, e o envio de forças militares pode ser usado como ferramenta de pressão para forçar os iranianos a fazerem concessões, sem que haja disparos.

Ao mesmo tempo, Trump tem deixado claro que está disposto a fazer ataques no exterior. O próprio Irã foi bombardeado em 2025, e uma operação na Venezuela prendeu o então presidente Nicolás Maduro, em janeiro.

Outra razão para um possível ataque é que o regime do Irã está em um momento de fraqueza, tanto militar quanto política e econômica.

“A doutrina de defesa iraniana — composta por um programa nuclear, poder convencional e uma rede regional de aliados — não conseguiu dissuadir Israel e os Estados Unidos de atacá-la, expondo efetivamente o regime como um tigre de papel”, diz Michael Rozenblat, pesquisador do think tank Atlantic Council, em um artigo recente.

“As falhas sistêmicas internas provocadas pelo regime — nomeadamente a hiperinflação, a escassez de água e a corrupção generalizada — juntamente com as recentes manifestações, sugerem que o regime se encontra em estado de declínio terminal”, afirma.

No entanto, o pesquisador pondera que esperar o regime cair sozinho não parece ser uma boa estratégia para os EUA, porque isso pode demorar a ocorrer. Isso dificultaria o avanço dos planos americanos para o Oriente Médio, como a maior integração entre Israel e países árabes.

“Uma campanha decisiva contra o regime poderia ser a chave para impulsionar os esforços regionais dos EUA, que parecem estagnados neste momento, desde a integração regional através dos Acordos de Abraão até à aproximação de países apoiados pelo Irã, como o Líbano e o Iraque, da influência ocidental”, diz.

Clérigo muçulmano com bandeira do Irã durante homenagem às vítimas mortas durante os protestos contra o governo, em Teerã, em 17 de fevereiro (Atta Kenare/AFP)

Interesse em petróleo

A derrota do regime iraniano também mexeria com o mercado de petróleo. O Irã tem grandes reservas, mas hoje tem as vendas dificultadas por sanções econômicas. A mudança de cenário colocaria mais produto no mercado global, o que poderia baixar preços.

Ao mesmo tempo, uma mudança de regime no Irã poderia dificultar o acesso da China ao petróleo. “A combinação da deposição de Nicolás Maduro na Venezuela e de uma mudança de regime no Irã poderia perturbar gravemente a segurança energética da China, já que Pequim dependia de ambos os países para até 30% de suas importações de petróleo devido aos preços reduzidos”, diz Rozenblat.

Veja a seguir mais perguntas e respostas sobre a crise no Oriente Médio.

Por que os EUA ameaçam invadir o Irã?

Os americanos acusam o Irã de tentar obter armas nucleares e de financiar grupos considerados terroristas no Oriente Médio, como Hamas e Hezbollah.

Além disso, o governo americano questiona o governo iraniano pela forte repressão a protestos no país, que deixaram milhares de mortos nos últimos meses.

Os dois países possuem uma rivalidade desde 1979, quando a Revolução Islâmica assumiu o poder no Irã e derrubou um governo aliado dos EUA.

O Irã é governado por aiatolás, que impõem sua visão das leis islâmicas, como a obrigação de que as mulheres cubram a cabeça em público. Há também censura e perseguição a críticos do governo.

Como um ataque americano poderá ser feito?

Há muitas possibilidades, mas as mais prováveis seriam novos bombardeios aéreos, sem a presença de soldados no país. Os ataques poderiam atingir alvos importantes no país e enfraquecer ainda mais o regime, o que poderia levar à sua queda.

A principal dúvida é quanto à intensidade do ataque. Os EUA podem tentar fazer ações pontuais para atingir líderes do governo ou instalações militares, ou uma operação mais ampla, com apoio de aliados, para tentar derrubar de vez o regime dos aiatolás.

Há, ainda, uma terceira opção: a de enfraquecer o regime para convencer autoridades locais a fazerem acordos com os EUA, como ocorreu na Venezuela.

"Para que um cenário de mudança de regime seja bem-sucedido, os Estados Unidos precisariam apresentar uma ameaça crível à sobrevivência do regime atual. Isso exigiria uma campanha militar sustentada e bem coordenada, com apoio de aliados regionais, forçando o regime a escolher entre 'beber o cálice de veneno' para sobreviver ou enfrentar um conflito que ameace a sua própria existência", diz Rozenblat, do Atlantic Council.

"A busca por uma mudança de regime envolve riscos significativos, incluindo a possibilidade de fragmentação interna em facções armadas ou até mesmo uma guerra civil em grande escala", afirma.

Avenida de Teerã, com cartaz em que multidão leva bandeiras do Irã, em 18 de fevereiro (Atta Kenare/AFP)

O Irã tem como se defender?

O Irã é um grande fabricante de tecnologias militares, especialmente drones, que são usados em vários conflitos, como na Guerra da Ucrânia. Além disso, é um aliado da Rússia, que poderia ajudar com mais armamentos, embora os russos estejam envolvidos na Guerra da Ucrânia há três anos.

No entanto, chamou a atenção, no ataque de junho, que os americanos e israelenses conseguiram destruir facilmente os sistemas de defesa antiaérea iranianos e fazer ataques precisos às centrais nucleares, sem sofrerem baixas.

Como foi o ataque dos EUA ao Irã em 2025?

Em junho de 2025, aeronaves americanas invadiram o Irã e bombardearam três centrais nucleares do país com armas de alto poder explosivo e capazes de penetrar no subsolo e atingir instalações escondidas.

O ataque, em 21 de junho, veio em meio a uma troca de disparos de mísseis entre Israel e Irã. Após os bombardeios, os EUA disseram ter destruído estruturas nucleares iranianas, e o Irã não revidou. Dois dias depois, Israel e Irã concordaram com um cessar-fogo e o Irã retomou as conversas com EUA e Europa sobre a redução de seu programa nuclear.

O que pode levar os Estados Unidos a não atacar?

Uma operação mal-sucedida pode levar o país ao caos, como ocorreu no Afeganistão e no Iraque. Esses exemplos podem levar as autoridades americanas a evitarem planos mais longos, como a ocupação por soldados americanos.

Ao mesmo tempo, há pressão do Congresso americano. A lei americana determina que o presidente deve pedir aval aos legisladores antes de atacar outro país e declarar guerra, mas a regra foi descumprida por Trump e outros presidentes, que alegam que operações pontuais são uma prerrogativa presidencial.

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