Redação Exame
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 19h16.
Última atualização em 11 de janeiro de 2026 às 10h19.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou neste sábado, 10, uma proteção contra bloqueios judiciais para as receitas provenientes do petróleo venezuelano mantidas nos Estados Unidos. A medida ocorre uma semana após a operação militar que resultou na destituição forçada de Nicolás Maduro.
O chavismo, por sua vez, convocou uma “grande marcha” para pedir a libertação de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, capturados durante a ofensiva e presos em território americano.
Na madrugada de 3 de janeiro, o céu de Caracas foi iluminado pelo clarão das bombas lançadas durante a operação, que pegou a população de surpresa. Segundo autoridades locais, mais de 100 pessoas morreram, entre civis e militares.
Com a queda de Maduro, Delcy Rodríguez assumiu o poder interinamente. Ex-vice-presidente do governo deposto, ela promete “resgatar” Maduro, ao mesmo tempo em que fechou acordos energéticos com Washington e iniciou um processo para retomar as relações diplomáticas entre os dois países, rompidas desde 2019.
Rodríguez também prometeu libertar presos políticos, mas as solturas avançam de forma lenta, segundo organizações de direitos humanos.
Trump afirmou que está “no comando” da Venezuela e citou as reservas de petróleo do país sul-americano — as maiores do planeta. Segundo ele, os EUA terão influência sobre as vendas e definirão quais empresas americanas participarão da retomada da indústria, com investimentos estimados em até US$ 100 bilhões (R$ 537 bilhões).
O decreto assinado neste sábado coloca sob proteção especial as receitas venezuelanas depositadas nos EUA — incluindo as ligadas ao petróleo — para impedir que sejam alvo de embargos.
Segundo a Casa Branca, a ordem executiva busca “promover os objetivos da política externa americana”.
Trump descartou, por ora, uma “segunda onda de ataques” à Venezuela, mas manteve a pressão no Caribe. O presidente afirmou que as forças americanas apreenderam um quinto navio com petróleo venezuelano que tentava “driblar” a atuação dos EUA.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, disse à Reuters que sanções adicionais dos EUA contra a Venezuela poderiam ser suspensas já na próxima semana para facilitar as vendas de petróleo e que ele também se reunirá na próxima semana com os presidentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial para discutir a retomada do relacionamento dessas instituições com a Venezuela.
Em entrevista à Reuters no fim da noite de sexta-feira, Bessent afirmou que ativos monetários do FMI pertencentes à Venezuela — atualmente congelados — em Direitos Especiais de Saque (SDRs) no valor de quase US$ 5 bilhões poderiam ser usados para ajudar a reconstruir a economia do país.
Desde o sábado passado, o partido de Maduro tem convocado protestos diários contra a captura do líder chavista, que enfrenta julgamento em Nova York por tráfico de drogas.
Há exatamente um ano, Maduro tomou posse para um terceiro mandato após eleições contestadas pela oposição, pelos Estados Unidos e por outros países, que cobraram — sem sucesso — a divulgação das atas eleitorais.
Na manhã deste sábado, a AFP registrou grupos se reunindo lentamente em pontos de encontro de dois bairros populares no leste e no oeste de Caracas, sob chuva.
“Não vamos descansar nem um minuto até ter o presidente de volta”, disse Delcy Rodríguez em discurso transmitido pela TV. “Vamos resgatá-lo, claro que sim.”
“Delcy, avance, você tem a minha confiança”, repetiam participantes.
O governo interino afirma que Maduro foi “sequestrado” e insiste que governa sem influência de Trump, ao mesmo tempo em que promove uma reviravolta na relação com Washington.
Na sexta-feira, uma missão de diplomatas americanos visitou Caracas para avaliar uma “retomada gradual” dos laços bilaterais. Não está claro se houve encontro com Delcy Rodríguez. Seu gabinete não respondeu aos pedidos da AFP.
Por ora, a aproximação não prevê uma mudança imediata de regime. Diante disso, Edmundo González Urrutia, candidato opositor nas últimas eleições e exilado na Espanha, pediu o “reconhecimento explícito” de sua vitória no pleito de 2025, que ele afirma ter sido “roubada” por Maduro.
Sua aliada, a líder da oposição e ganhadora do Nobel da Paz María Corina Machado, deve ser recebida por Trump na próxima semana. Inicialmente, o presidente americano a deixou fora de seu plano para a Venezuela, que viveu uma de suas piores crises econômicas durante o governo Maduro.
ONGs estimam que a Venezuela tem entre 800 e 1.200 presos políticos.
No entanto, 48 horas após o anúncio de libertações, menos de 20 pessoas teriam deixado a prisão, segundo organizações.
Não há dados oficiais. A ONG Foro Penal contabiliza 14 libertados, enquanto a principal coalizão opositora fala em 17, incluindo o ex-candidato presidencial Enrique Márquez e a ativista de direitos humanos Rocío San Miguel.
Nas últimas duas noites, dezenas de famílias passaram a madrugada do lado de fora de centros de detenção, como El Rodeo I, nos arredores da capital, em busca de informações. Agentes penitenciários disseram não ter recebido orientações.
Neste sábado, dia de visitas, muitos mantiveram o mesmo ritual de anos: levaram itens de higiene, entregaram aos agentes, entraram, foram encapuzados e viram parentes presos por trás de um vidro.
Segundo relatos, detentos comemoraram ao saber da queda de Maduro. “O pior já passou”, disse um dos presos à esposa, diante de guardas armados.
“Não se alcançou nem 1% das libertações anunciadas”, escreveu González Urrutia na rede X. Ele disse ainda não ter notícias do genro, condenado à pena máxima de 30 anos de prisão por “terrorismo”.
*Com informações da AFP