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EUA não querem governar a Venezuela, mas pressionar via petróleo, diz Rubio

Declaração do secretário contrasta com fala de Trump; EUA manterão bloqueio ao petróleo como pressão política

Secretário de Estado Marco Rubio fala a jornalistas em viagem no Aeroporto Internacional John C. Munro Hamilton, em Hamilton, Ontário (Getty Images)

Secretário de Estado Marco Rubio fala a jornalistas em viagem no Aeroporto Internacional John C. Munro Hamilton, em Hamilton, Ontário (Getty Images)

Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 18h49.

Última atualização em 4 de janeiro de 2026 às 18h53.

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O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, buscou neste domingo reposicionar a narrativa da Casa Branca sobre a Venezuela ao afirmar que o objetivo do governo americano é pressionar politicamente a nova liderança do país, e não assumir sua administração direta. A fala ocorre um dia após o presidente Donald Trump declarar que Washington iria governar a Venezuela após a captura do líder Nicolás Maduro.

Em entrevista ao programa Face the Nation, Rubio afirmou que a estratégia dos EUA seguirá baseada na manutenção de uma “quarentena militar” sobre parte das exportações de petróleo da Venezuela, usada como instrumento de pressão econômica e diplomática. A medida já vinha sendo aplicada a navios-tanque sancionados antes da retirada de Nicolás Maduro do poder.

De acordo com o The New York Times, o secretário deixou claro que não há plano para a criação de uma autoridade de ocupação nos moldes da implantada pelos Estados Unidos no Iraque após a invasão de 2003.

Ainda conforme o jornal, Rubio afirmou que a política americana se concentra em forçar mudanças por parte de um governo venezuelano atualmente liderado por aliados do ex-presidente Nicolás Maduro. “É esse o tipo de controle a que o presidente se refere quando diz isso”, afirmou.

Isso significa que navios petroleiros incluídos em listas de sanções dos EUA continuarão impedidos de entrar ou sair do país até que Caracas abra o setor petrolífero estatal ao investimento estrangeiro — com expectativa de prioridade para empresas americanas — e promova outras alterações estruturais.

“Essa alavancagem continua em vigor e seguirá assim até que haja mudanças reais, tanto no interesse nacional dos Estados Unidos quanto em direção a um futuro melhor para o povo venezuelano”, disse Rubio ao Face the Nation.

Em outra aparição, no Meet the Press, da NBC, Rubio demonstrou irritação com a repercussão da declaração de Trump sobre “governar” a Venezuela. Para o secretário, houve uma leitura equivocada. “Não se trata de administrar o país, mas de conduzir uma política em relação a ele”, afirmou.

Rubio confirmou ainda que a força naval mobilizada pelos EUA no Caribe — descrita por ele como uma das maiores da história recente do hemisfério ocidental — permanecerá na região para garantir o bloqueio operacional. O objetivo, segundo o secretário, é comprometer a principal fonte de receita do regime venezuelano: o petróleo.

“Nós mantemos essa quarentena e esperamos ver mudanças, não apenas na forma como a indústria do petróleo é administrada em benefício da população, mas também para que se interrompa o tráfico de drogas", acrescentou.

Ele também não descartou a possibilidade de novas ações militares em solo venezuelano, além da operação que resultou na captura de Maduro, caso isso atenda aos interesses americanos. “O presidente não pretende excluir publicamente opções que estejam disponíveis para os Estados Unidos”, disse Rubio.

A Casa Branca, por sua vez, afirmou que não há divergência entre as falas de Trump e Rubio. Segundo um funcionário ouvido pelo New York Times, o secretário apenas detalhou o significado do termo usado pelo presidente. O governo reforçou ainda que continuará buscando interlocução diplomática com a atual liderança venezuelana.

No domingo, Trump afirmou à revista The Atlantic que a atual dirigente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez — vice-presidente durante o governo Maduro — sofrerá “consequências severas” caso não adote a postura esperada por Washington.

Figura central

Rubio tem sido uma das figuras centrais da política americana para a Venezuela. Ainda segundo o New York Times, ele liderou, dentro da administração Trump, os esforços para derrubar Maduro, com apoio de assessores de alto escalão como Stephen Miller e o diretor da CIA, John Ratcliffe.

Nas entrevistas do fim de semana, tanto Trump quanto Rubio voltaram a destacar o petróleo venezuelano como ativo estratégico central da operação. Maduro, descrito como líder autocrático, está detido junto com a esposa, Cilia Flores, em Nova York. “Vamos retirar uma quantidade enorme de riqueza do subsolo”, disse Trump no sábado.

Rubio argumentou que a indústria petrolífera venezuelana precisa ser “reconstruída” e carece de capacidade técnica e financeira para se reerguer sozinha. “Eles precisam de investimento privado, que só virá mediante garantias claras e condições específicas”, afirmou à CBS News.

Cooperação com Rodríguez

As declarações indicam que o governo americano pretende pressionar Rodríguez a permitir a atuação de empresas petrolíferas dos EUA no país em termos favoráveis. Para analistas ouvidos pelo New York Times, o discurso representa uma retomada explícita da chamada diplomacia das canhoneiras, associada à política imperialista americana do século 19 — postura historicamente criticada na América Latina.

Atualmente, a Chevron é a única petroleira americana com operações na Venezuela, por meio de joint ventures com a estatal PDVSA. A empresa opera sob licenças especiais concedidas tanto pelo governo Biden quanto pela segunda administração Trump, como exceção às sanções impostas ainda no primeiro mandato de Trump.

No mês passado, forças americanas abordaram dois petroleiros que transportavam petróleo venezuelano para a Ásia. Um deles, o Skipper, estava listado em sanções por envolvimento prévio com transporte de petróleo iraniano. O outro, o Centuries, não constava na lista. Outro navio sancionado, o Bella 1, chegou a trocar de bandeira e nome durante perseguição no Atlântico, passando a se chamar Marinera sob bandeira russa. Moscou protestou formalmente contra a ação no fim de dezembro.

Apesar da pressão, o governo Trump afirma que ainda pretende trabalhar com Rodríguez. Rubio evitou explicar por que Washington não apoia uma transição liderada por nomes da oposição, como María Corina Machado — a quem ele próprio já havia defendido publicamente, inclusive com apoio à indicação ao Nobel da Paz.

Trump, no entanto, afirmou no sábado que Machado não teria respaldo interno suficiente para governar, apesar de observadores internacionais considerarem que Edmundo González, candidato apoiado por ela, venceu Maduro com ampla margem nas eleições de 2024 — resultado reconhecido tanto pelo governo Biden quanto pela atual administração Trump.

Em janeiro de 2025, Rubio chegou a se referir a González como “presidente legítimo” em conversa telefônica, reafirmando o apoio dos EUA à restauração da democracia na Venezuela, segundo o Departamento de Estado.

Questionado em entrevistas no domingo sobre a possibilidade de cooperação com Rodríguez, Rubio disse que a avaliação americana será baseada “no que eles fizerem daqui para frente, não no que dizem agora ou no histórico passado”.

Cuba e novas capturas

O secretário também negou planos imediatos para novas capturas de autoridades venezuelanas acusadas de narcotráfico. Embora o governo Trump alegue que o combate ao “narco-terrorismo” seja um dos pilares da ofensiva contra Caracas, o New York Times destaca que o papel da Venezuela no tráfico global é limitado e não envolve a produção de fentanil, foco recorrente do presidente.

Ainda conforme o jornal, ao ser perguntado se Cuba poderia ser o próximo alvo da política externa americana, Rubio não descartou a hipótese. “O governo cubano é um grande problema”, afirmou. Filho de imigrantes cubanos, o secretário defende há décadas a mudança de regime em Havana e vê a queda do governo Maduro como um possível catalisador para transformações na ilha.

Em entrevista à ABC News, Rubio afirmou ainda que a operação que resultou na prisão de Maduro não exigiu autorização do Congresso por se tratar, segundo ele, de uma ação de caráter policial — e não de uma invasão militar. Disse também que avisar previamente parlamentares colocaria tropas americanas em risco por possíveis vazamentos.

Reações internacionais

A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos neste sábado, 3, provocou reações de países aliados da Venezuela no dia seguinte à operação.

A Coreia do Norte afirmou que a ação americana representa “a forma mais grave de violação de soberania” e disse acompanhar com atenção a situação no país sul-americano, que classificou como resultado de um “ato arbitrário dos Estados Unidos”. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores norte-coreano declarou que o episódio “confirma, mais uma vez, a natureza desonesta e brutal dos EUA” e avaliou que a ofensiva teve “consequências catastróficas” para a Venezuela.

Também neste domingo, a China pediu a libertação imediata de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Em nota publicada em seu site oficial, o Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que os Estados Unidos devem resolver a crise por meio do diálogo e da negociação e garantir a segurança pessoal do casal. Segundo o governo chinês, a detenção violou normas e princípios do direito internacional.

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