China busca independência espacial dos EUA: na foto, lançamento de módulo laboratorial chinês Tiangong-1 (Lintao Zhang/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 1 de abril de 2026 às 06h00.
O programa espacial tripulado da China, conhecido como Projeto 921, foi lançado em 21 de setembro de 1992, com o objetivo de desenvolver sua própria estação espacial de maneira independente. Já que os Estados Unidos não concederam à China acesso à Estação Espacial Internacional (ISS), o país construiu sua própria base orbital.
A estação espacial chinesa, chamada Tiangong, ou "Palácio Celestial", recebeu seus primeiros ocupantes em 2021 e mantém uma tripulação de três astronautas chineses, conhecidos como "taikonautas". Uma estação espacial própria permite que a China adquira experiência em caminhadas espaciais, em manutenção e nos efeitos do espaço sobre o corpo.
"Essa eficácia se deve a uma forte vontade política dos mais altos escalões do governo, a um financiamento estável e engenheiros espaciais de classe mundial", enfatizou Richard de Grijs, professor da Escola de Ciências Matemáticas e Físicas da Universidade Macquarie, na Austrália.
"Comparado à abordagem ocidental, e particularmente à americana, na qual o rumo pode mudar de acordo com os caprichos políticos, este modelo apresenta vantagens claras em termos de previsibilidade e gestão de riscos", disse à agência de notícias AFP.
Agência espacial chinesa mira ter astronautas na lua em menos de uma década (Dr K Kar/Getty Images)
A agência espacial chinesa (CNSA) espera colocar astronautas na Lua até 2030.
A China já enviou diversos equipamentos autônomos à Lua para coletar amostras, mas uma missão tripulada requer equipamentos diferentes e está atualmente em fase de testes. O país fará um novo voo de teste de sua nova espaçonave Mengzhou ("Nave dos Sonhos") em 2026 para levar astronautas à órbita lunar.
Seus engenheiros também desenvolvem um novo foguete ultrapotente de 90 metros de comprimento, o Longa Marcha 10, essencial para impulsionar a espaçonave até a Lua. Ele realizou seu primeiro voo em baixa altitude em 11 de fevereiro. O módulo de pouso Lanyue ("Abraçar a Lua"), que levará os astronautas da órbita até a superfície lunar, poderá realizar seu primeiro voo entre 2028 e 2029.
Na lua, a China espera construir a versão básica de uma base científica tripulada, chamada Estação Internacional de Pesquisa Lunar, até 2035. A base será construída em colaboração com a Rússia perto do polo sul da Lua, onde se acredita existir água em forma de gelo.
Espera-se que a base seja construída com tijolos fabricados no local a partir de solo lunar, utilizando impressoras 3D. A técnica já foi testada na Terra e na estação Tiangong e será testada na Lua durante a missão não tripulada Chang'e-8, prevista para 2028.
A CNSA também pretende realizar pesquisas arqueológicas sobre as origens da Lua, desenvolver tecnologias estratégicas e explorar recursos lunares. Enquanto isso, a China já desenvolve uma nova constelação de satélites ao redor da Lua para se comunicar de seu lado oculto com a Terra.
China não menciona "corrida espacial" com os EUA assim como a URSS teve durante a guerra fria (simon2579/Getty Images)
A China nunca fala em uma "corrida lunar" ou de competição com os Estados Unidos.
"Eles são ambiciosos com o futuro de seus programas e veem a Lua como o passo mais lógico para seu próprio interesse, não por rivalidade", disse à AFP o astrofísico e analista espacial Jonathan McDowell. As espaçonaves Dragon e Orion da Nasa, por exemplo, são superiores à Shenzhou chinesa, observou McDowell.
Corroborando essa ideia está Chen Lan, especialista em programas espaciais chineses, que também diz que a China está atualmente atrás dos Estados Unidos em voos espaciais tripulados.
No entanto, "o estabelecimento de uma base lunar chinesa representaria um desafio real à capacidade americana de construir uma base semelhante. Há um número reduzido de locais adequados perto do polo sul lunar".
Planeta vermelho vizinho à Terra, Marte promete ser a próxima fronteira de exploração espacial. Na foto, vemos o planeta com uma de suas luas. (AFP/Reprodução)
Após 2040, a base lunar chinesa será usada para "validar tecnologias e capacidades para uma missão tripulada a Marte", segundo a CNSA. Cientistas e empresas chinesas de fabricação espacial identificaram o planeta vermelho como um provável destino para astronautas.
"Mas não acredito que existam planos concretos para ir a Marte antes que o pouso na Lua seja concluído e a base lunar inicial esteja construída", disse Chen.