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Como fica o 'clube dos cinco' do chavismo após a captura de Maduro

Núcleo que concentra o poder na Venezuela há quase três décadas entra em fase de incerteza com a saída de dois de seus principais integrantes

Nicolás Maduro acena ao lado da primeira-dama Cilia Flores, da vice-presidente Delcy Rodríguez e do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez (Federico Parra/AFP)

Nicolás Maduro acena ao lado da primeira-dama Cilia Flores, da vice-presidente Delcy Rodríguez e do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez (Federico Parra/AFP)

Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 21h19.

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A captura de Nicolás Maduro reconfigura o equilíbrio de forças dentro do chavismo, que governa a Venezuela há quase três décadas. Com a retirada de cena de dois de seus principais nomes, o futuro do chamado “clube dos cinco” — núcleo restrito que concentra o poder no país — passa a ser colocado em xeque.

Maduro comandou o país desde 2013 até ser detido por forças americanas no sábado, 3, exercendo autoridade com apoio direto de Hugo Chávez, que o escolheu como sucessor antes de morrer. No centro desse arranjo estava também sua esposa, Cilia Flores, igualmente capturada.

Outro eixo relevante do poder é formado pela presidente interina Delcy Rodríguez e por seu irmão, Jorge Rodríguez, que ocupa posição-chave na linha sucessória e lidera o Parlamento. Eles dividem espaço — e influência — com o ministro do Interior, Diosdado Cabello, considerado um dos nomes mais duros do regime.

“É como um clube de cinco pessoas”, afirmou uma fonte diplomática em Caracas à AFP. Segundo ela, todos têm voz dentro do governo, mas era Maduro quem mantinha o equilíbrio entre os grupos. “Agora que ele saiu de cena, é impossível prever como esse arranjo vai se sustentar”, disse.

Maduro e Cilia Flores

A imagem de Maduro algemado e com os olhos cobertos percorreu o mundo. A prisão, em 3 de janeiro, ocorreu no mesmo dia em que, em 1989, o ditador panamenho Manuel Noriega se entregou às tropas americanas após a invasão do Panamá.

Poucos dias antes, Maduro aparecia ao lado de Flores em um vídeo dançando ao som de uma versão eletrônica de um discurso no qual pedia “paz, não guerra”. Em novembro, em um comício, afirmou: “Ninguém me para”.

Ao longo de sua trajetória, Maduro conseguiu neutralizar adversários internos, manter a oposição sob controle e avançar na construção de um culto à própria imagem. Murais, canções, filmes e até o desenho animado Super Bigote passaram a retratá-lo como um super-herói que enfrenta o “imperialismo” ao lado da personagem “Super Cilita”. Bonecos inspirados no casal também circularam.

As Forças Armadas declararam “lealdade absoluta” ao governo sob a liderança do ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino. Após a captura de Maduro, o núcleo do poder não apresentou fissuras públicas até o momento. “A prioridade central do governo agora é a própria sobrevivência”, afirmou à AFP o cientista político Antulio Rosales, professor da Universidade de York, no Canadá.

Um brinquedo fantasiado de super-herói, conhecido como "Super Bigode", inspirado no presidente venezuelano Nicolás Maduro (Federico Parra/AFP)

Os irmãos Rodríguez

Delcy e Jorge Rodríguez sempre estiveram entre os aliados mais próximos de Maduro. A presidente interina acumula controle sobre áreas estratégicas da economia e da indústria do petróleo, enquanto o irmão preside o Parlamento.

Conhecidos pelo discurso agressivo, que combina ironia e ataques verbais a opositores e a governos estrangeiros, ambos atuam nos bastidores como operadores políticos experientes. Jorge foi o principal negociador em diálogos com a oposição e com os Estados Unidos, enquanto Delcy representou o governo venezuelano em fóruns internacionais.

Analistas atribuem aos irmãos papel central em expurgos internos no governo, como o que levou à prisão de Tareck El Aissami, então poderoso ministro do Petróleo, em 2023. O cargo foi posteriormente assumido por Delcy Rodríguez. “Eles estiveram presentes em todos os movimentos internos que eliminaram figuras que ameaçavam a autoridade de Maduro”, afirmou o analista Pedro Benítez a AFP.

O homem forte da repressão

Figura temida no país, Diosdado Cabello comandava o Ministério do Interior quando cerca de 2.400 pessoas foram detidas durante os protestos que se seguiram à contestada reeleição de Maduro em 2024. A repressão contribuiu para a desmobilização da oposição em um ambiente marcado pelo medo.

Especialistas situam Cabello no setor mais radical do chavismo e apontam tensões com a ala considerada mais pragmática, liderada pelos irmãos Rodríguez — embora ambos neguem disputas internas.

Cabello chegou a assumir interinamente a Presidência por algumas horas durante o golpe que afastou Hugo Chávez do poder por dois dias, em 2002. Um ex-oficial de alto escalão das Forças Armadas relatou à AFP que houve tentativas de articulação para enfraquecer a vice-presidência.

A dúvida, segundo Rosales, é se Cabello estaria disposto a correr o risco de extradição para os Estados Unidos, onde também é procurado no mesmo processo que envolve Maduro. A Justiça americana oferece uma recompensa de US$ 25 milhões por sua captura.

Militar de carreira, Cabello participou ao lado de Chávez da tentativa fracassada de golpe em 1992 e hoje ocupa o segundo posto no Partido Socialista Unido da Venezuela, atrás apenas de Maduro.

  • Com informações da AFP
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