África enfrenta prospectos potencialmente lucrativos para suas indústrias de petróleo de gás natural conforme o bloqueio de Ormuz afeta oferta global (Arquivo)
Repórter
Publicado em 26 de março de 2026 às 06h01.
O Estreito de Ormuz na costa do Irã – que transporta até 25% do petróleo mundial – está fechado em decorrência da guerra, causando um disparo nos preços, na disponibilidade e nas incertezas ao redor do petróleo e do gás natural. Com muitos países pela Ásia e Europa lidando com escassez desses recursos, que são vitais para o funcionamento industrial e a vida cotidiana, seus governos buscam alternativas mais confiáveis – e a África pode ser uma delas.
Produzindo entre 6 e 10 milhões de barris de petróleo bruto por dia, a África é uma importante exportadora da commodity, responsável por mais de 8% da produção global de petróleo. Essa produção é movimentada principalmente pela Nigéria, Líbia, Argélia e Angola, e pode se tornar uma valiosa linha vital para muitas economias pelo globo, se o continente conseguir aproveitar a súbita vantagem competitiva no setor.
Apesar de reservas comprovadas de mais de 125 bilhões de barris na África, produtores africanos não conseguiram capitalizar seu potencial de produção e tiveram exportações em queda ao longo dos últimos anos. Isso se deve a uma combinação de conflitos internos violentos no continente, baixos níveis de investimento nessa indústria e políticas ocidentais, como a ratificação do Acordo de Paris, que, em busca de favorecer energia sustentável, gerou uma queda de interesse de investidores na região.
África:indústria petrolífera do continente tem potencial de ser uma das maiores do mundo, mas o continente não conseguiu capitalizar o setor (KSchermbrucker/UNICEF/Divulgação)
O caso da Nigéria, maior produtor de petróleo da África, exemplifica as dificuldades internas da produção de petróleo no continente. No começo dos anos 2000, o país estava produzindo até 2 milhões e meio de barris de petróleo por dia, com estimativas de que a produção ultrapassaria os 3 milhões até 2010.
Todavia, devido a instabilidades internas como uma insurgência na região do delta do Níger, vital para a produção de petróleo do país, que viu rebeldes tomando controle do estoque da commodity e dos lucros da indústria em uma onda de violência que atingiu seu pico em meados de 2004. O país ainda luta para se recuperar desse choque, com uma produção atual que flutua entre os 1,4 e 1,5 milhão de barris diários.
A Líbia, com as maiores reservas comprovadas da commodity na África – 48 bilhões de barris – enfrentou problemas semelhantes após a queda de Muammar Gaddafi, e as incertezas decorrentes também resultaram em uma paralisação de uma indústria poderosa que já chegou a produzir 1,7 milhão de barris por dia, caindo para 200.000 diários em momentos de tumulto particularmente intensos. Mas a indústria mostra sinais de recuperação: desde que a situação melhorou em 2021, a produção chegou a bater os 1,3 milhão de barris.
A Angola e a Argélia compartilham entre si o mesmo problema: eram dependentes de plataformas oceânicas que não foram repostas tão rapidamente quanto foram esgotadas. Esses campos eram substancialmente mais caros para explorar e só atraíam investimentos durante períodos específicos de alta no preço do petróleo.
O resultado foi que a produção diária de Angola caiu pela metade, de um pico de cerca de 2 milhões de barris por dia em 2008 para cerca de 1 milhão de barris por dia atualmente. A Argélia, que exportou até 2 milhões de barris por dia entre 2005 e 2008, agora tem uma produção diária frequentemente inferior a 1 milhão de barris.
Gás natural liquefeito se torna produto em alta demanda devido ao fechamento do estreito de Ormuz (Germano Lüders/Exame)
Por sua vez, perspectivas para o gás natural liquefeito (GNL), outra commodity que se torna cada vez mais valiosa conforme o bloqueio de Ormuz se alastra por mais tempo, são mais animadoras.
A Agência Internacional de Energia (AEI) estima que a demanda por GNL crescerá consistentemente em cerca de 1,5% ao ano até 2030. Em torno de 50% dessa demanda vem apenas da Ásia, o que criaria uma competição lucrativa para a África entre a Ásia e a União Europeia por esse recurso – uma dinâmica que já vem se concretizando com a crise do petróleo.
Ao mesmo tempo, a produção africana de GNL, estimam analistas do jornal de Hong Kong South China Morning Post, deve crescer acentuadamente ao longo da próxima década, com previsões batendo os 172,2% totais.
A expansão se deve ao retorno gradual da estabilidade em países ricos tanto em GNL quanto em petróleo, como a Nigéria e a Angola, juntamente com novos atores que incluem Moçambique, o Congo, Senegal e a Mauritânia. A coroa da produção dessa commodity na África vai, novamente, para a Nigéria, que está expandindo ainda mais sua infraestrutura focada em GNL. Um novo sistema de produção e transporte em uma de suas plantas já adiciona 8 milhões de toneladas anuais, e outros atores com potencial nesse campo já se movem em direções semelhantes.
E a demanda já cresce – a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, visitou a Argélia em meio ao conflito no Irã para conversas centradas em energia, por exemplo, a fim de já garantir acordos benéficos antecipadamente.
Percebendo o potencial, esquemas de cooperação entre a Argélia, o Níger e a Nigéria também aumentam com planos bilionários para uma tubulação de 4,000 km voltada unicamente para o transporte de GNL da costa da Nigéria, que se conectará com outros sistemas nigerianos e argelianos que já suprem a Europa.