Guerra na Ucrânia: em seu quarto ano, a guerra entra em um de seus momentos com mais mortes, inclusive de combatentes brasileiros (YURIY DYACHYSHYN / AFP)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 30 de julho de 2026 às 16h01.
O Ministério das Relações Exteriores (MRE) atualizou para 127 o número de brasileiros mortos ou desaparecidos desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em fevereiro de 2022. Segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 30, pelo Itamaraty, foram registradas oficialmente 35 mortes e 92 desaparecimentos, comunicados formalmente pelas autoridades russas e ucranianas.
A atualização representa um aumento expressivo em relação aos levantamentos anteriores. No início de fevereiro, o governo brasileiro contabilizava 22 mortos e 44 desaparecidos. Em cinco meses, os casos registrados subiram 92%.
De acordo com a Deutsche Welle (DW), o Brasil figura entre os países com maior número de combatentes estrangeiros mortos na guerra. Levantamentos não oficiais baseados em anúncios públicos colocam os brasileiros na terceira posição, atrás apenas de Estados Unidos e Colômbia.
Diante desse crescimento, o Itamaraty voltou a recomendar que brasileiros não aceitem ofertas de recrutamento para integrar forças armadas estrangeiras.
Segundo o MRE, tem aumentado o número de brasileiros mortos em conflitos internacionais e também de pessoas que, após se alistarem, enfrentam dificuldades para deixar os exércitos aos quais passaram a servir.
Em nota, a chancelaria destaca que a assistência consular nesses casos pode ser severamente limitada pelos contratos assinados pelos voluntários com forças militares estrangeiras. O governo brasileiro também ressalta que não há obrigação de custear passagens ou o retorno ao país de cidadãos que tenham se alistado voluntariamente.
Além dos riscos à vida, o Itamaraty lembra que brasileiros que ingressam em forças armadas de outros países podem responder criminalmente, inclusive no Brasil, conforme as hipóteses previstas no artigo 7º do Código Penal.
A presença brasileira no conflito é considerada significativa. Segundo a reportagem, há inclusive uma companhia militar formada majoritariamente por falantes de português e comandada por brasileiros, enquanto canais oficiais de recrutamento da Ucrânia divulgam regularmente conteúdos em português para atrair novos voluntários.
Desde o início da guerra, em 2022, a Ucrânia criou a chamada Legião Internacional da Defesa Territorial, destinada a combatentes estrangeiros. Em 2026, autoridades ucranianas afirmaram que mais de 10 mil voluntários de cerca de 75 países já haviam integrado a força.
Na tentativa de ampliar o efetivo militar, a Ucrânia reformulou recentemente os contratos oferecidos a estrangeiros. Os novos modelos estabelecem permanência mínima de seis meses e oferecem facilidades migratórias após o término do serviço.
O principal atrativo é financeiro. Dependendo da função exercida e da proximidade da linha de frente, a remuneração mensal pode chegar ao equivalente a cerca de R$ 53 mil.
Apesar disso, veteranos ouvidos pela DW afirmam que a realidade costuma ser muito mais dura do que a divulgada nas redes sociais. Muitos permanecem por longos períodos em trincheiras sob intenso bombardeio e relatam que poucos conseguem acumular recursos financeiros durante o serviço.
O caso do brasileiro Herik Ferreira Soares, de 23 anos, ganhou repercussão em junho após sua captura por forças russas. Em vídeo divulgado depois da prisão, ele afirmou que acreditava ter sido contratado para desempenhar uma função de apoio, mas acabou enviado diretamente para a linha de frente.
Segundo especialistas em direito internacional, a situação jurídica desses combatentes permanece controversa. Enquanto a Rússia considera os estrangeiros que lutam ao lado da Ucrânia como mercenários, Kiev sustenta que eles integram oficialmente suas forças armadas e possuem os mesmos direitos e deveres dos soldados ucranianos.
Com O Globo