Bangladesh melhora condições trabalhistas após tragédia

A miséria ocasionada por essas catástrofes obrigou as autoridades de Bangladesh, as fábricas e as multinacionais a oferecerem mudanças significativas

Nova Délhi – Bangladesh viveu em 2013 sua pior tragédia têxtil, com o desabamento de um prédio que causou quase 1.200 mortes e obrigou o governo, fábricas e firmas estrangeiras a realizar melhoras em um setor-chave da economia do país.

Chovia quando, em 24 de abril, um complexo de nove andares com cinco fábricas que produziam roupas e acessórios para grandes marcas estrangeiras desabou como um castelo de cartas no subúrbio industrial de Savar, nos arredores de Daca.

Nos meses anteriores a essa tragédia já tinham sido registrados graves acidentes têxteis, como o incêndio que em novembro de 2012 matou quase 120 pessoas na fábrica Tazreen Fashion, localizada no distrito de Ashulia, também perto da capital de Bangladesh.

Mas a queda do edifício Rana Plaza, em Savar, a pior catástrofe do setor na história de Bangladesh e uma das mais graves do planeta, abriu caminho para algumas mudanças.

O enorme número de vítimas (1.127 mortos e 2.438 feridos), as três semanas que o Exército e as equipes de resgate demoraram para encontrar todos os cadáveres e desocupar a área, e os altos níveis de negligência pesaram na hora de promover estas mudanças.

A polícia tinha advertido um dia antes do desabamento ao dono do imóvel, vinculado a um importante partido político, da existência de rachaduras, mas o empresário recusou desocupar o complexo, onde tinha erguido vários andares ilegalmente.

“O desabamento do Rana Plaza representa um ponto de reflexão. Todo mundo se preocupou com as condições no setor de uma maneira ou outra”, disse em entrevista à Agência Efe o vice-presidente da Associação de Produtores e Exportadores de Têxteis local, Shahidula Azim.

A preocupação tem fundamento: para Bangladesh a indústria têxtil, com suas 5.400 fábricas e mais de quatro milhões de trabalhadores – muitos deles mulheres -, é possivelmente o setor mais importante de sua economia.


As vendas para o exterior de produtos confeccionados no país asiático atingiram no ano fiscal 2012-2013 US$ 21,5 bilhões, 79% das exportações. Seus principais clientes são Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Espanha.

A tragédia de Savar trouxe o clamor por mudanças e fez com as autoridades temessem que a pressão internacional sobre Bangladesh para melhorar condições e, consequentemente, encarecer certos custos de produção, causasse a quebra de contrato com grandes empresas multinacionais.

Pelo menos 12 marcas estrangeiras produziam suas roupas no Rana Plaza, entre elas Benetton, El Corte Inglés, Mango e Primark. Na incendiada Tazreen Fashion, estavam Wal-Mart e C&A, além de outras grandes marcas.

A miséria ocasionada por essas catástrofes, alimentada pela comoção de três semanas mostradas pelas coberturas da imprensa sobre o Raza Plaza, obrigou as autoridades de Bangladesh, as fábricas e as multinacionais a oferecerem mudanças significativas.

A partir de maio começaram a ser feitas inúmeras promessas, programas e planos destinados a melhorar a vida dos empregados do setor têxtil.

Em meados de julho, o Parlamento aprovou uma emenda da lei laboral que permite aos trabalhadores sindicalizar-se livremente, exige que 5% dos lucros anuais sejam destinados a um fundo social e ao pagamento de indenizações entre 15 e 45 dias de salário por dispensa, morte ou acidente de trabalho.

No mesmo mês, administração, sindicatos e representantes do setor ratificaram, sob o olhar da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Plano de Ação sobre Segurança Anti-incêndios e Integridade Estrutural.

Este acordo, que engloba cerca de mil fábricas e regula inspeções técnicas e a existência de medidas preventivas obrigatórias, foi assinado principalmente por companhias europeias.

As firmas americanas, mais reticentes a um excessivo controle, assinaram outro pacto em novembro, a Aliança pela Segurança dos Trabalhadores de Bangladesh, também respaldado pela OIT e com um raio de ação sobre 500 fábricas têxteis.

Além de segurança e prevenção, o centro do conflito continuou sendo durante meses o salário mínimo do empregado, considerado o mais baixo do mundo depois de Mianmar: 3.000 takas mensais (US$ 38) pela função mais simples.

Ao longo do verão e do outono (hemisfério norte), milhares de assalariados protestaram e obrigaram, por algumas vezes, o fechamento temporário de centenas de fábricas, até que finalmente o governo aceitou aumentar o salário para 5.300 takas (US$ 67), 76% a mais. 

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